segunda-feira, 7 de abril de 2014

Aquele que veste ideias com palavras








Totonho Laprovítera  representa bem o arquétipo do artista contemporâneo: é inquieto, múltiplo, visionário. Se ecletismo é palavra de ordem nesse tempo de depuração de fórmulas e dogmas, ele é exemplo de uma personalidade forte, cunhada em linhas claras, que se movem como um calidoscópio. Isso mesmo, Totonho enxerga a vida pela cor dos seus ideais; nada lhe é estanque, e nenhuma possibilidade de criação é descartada. Ele aprendeu cedo que a gente vem ao mundo pra ser feliz, não importa como, todos os desvios são válidos se forem do bem.

Sua arte, legado de sua sensibilidade e experiência, reflete seu prazer de estar no mundo para transformar traços em imagens, palavras em formas que se delineiam, ante nossos olhos, e se multiplicam em ondas sonoras. Arquiteto formado pela UFC, artista plástico com currículo internacional, Totonho é, sobretudo, esse sorriso que nos encanta, essa pessoa capaz de, com leveza, vestir ideias com palavras, transformar uma bola amarela no sol, como sugeriu Picasso. A poesia e a música, como as artes visuais, são o seu lugar no mundo; é o espaço em que ele se move para transfigurar a abstrata matéria do sensível em algo concreto: um projeto arquitetônico realizado, um quadro pintado, um poema escrito, uma música composta.
            É da argamassa do sonho que ele faz seu caminho. Pisa firme em qualquer chão, mas seu território é a arte. Capaz de transformar beirais em largos chapéus, ou de cobrir de sedas os substantivos, ele desencanta verbos e traça analogias inusitadas.  Costura o tecido do tempo com pincéis e telas, e se assume nordestino, com a sinceridade dos que são, antes de tudo, autênticos, donos de um estilo singular, mesmo sendo um ser plural. Suas múltiplas faces são desdobramentos de um talento que transborda, de um espírito inventivo que não cabe em si, precisa extravasar, como um rio em cheia.

            Essa merecida homenagem da Elite só acrescenta cores à sua caleidoscópica atuação no cenário artístico. É bem possível que ele, o arquiteto, trace passarelas preciosas; que o poeta encontre rimas no passo marcado da moça que pisa; que o pintor desenhe estampas nos olhares que cruzarem o seu; que o compositor enrede a tarde em  canções que acordarão a felicidade de ter amigos para partilhar a alegria de viver. 
        
Pinta o mundo, Totonho, com as cores dos teus sonhos, e nos envolve na música que canta o teu coração. Tece a tarde, costurando as horas, sem esquecer o sorriso moleque de menino levado que rouba as cores do arco-íris para vestir as palavras e transformá-las em poesia!

Aíla Sampaio - Escritora e professora da Universidade de Fortaleza


Apresentação do Totonho Laprovítera no Livro DIÁLOGOS, de Fernando França.



A poética da inquietude







A poesia de João Soares Lobo não se aliena a um estilo, a uma temática ou a uma forma. Embora seja ele conhecedor das regras de versificação, não se prende a formas, escreve de acordo com a inquietação do seu próprio espírito, ora obedecendo a impulsos iconoclastas e irreverentes, exercitando versos livres e críticos; ora metrificando-os e mostrando-se afeito a sentimentos mais amenos.

        Herdeiro incontestável da lírica camoniana e leitor da melhor literatura em línguas portuguesa, espanhola, francesa e italiana, ele é conhecedor das letras mais do que das linhas da própria mão. Daí tanto pudor em mostra-se, tanto ‘titubeio’ em revelar-nos essas suas andanças pelo território das palavras.
Sua poética se constrói de modo antitético, traduzindo as oscilações comuns de todo espírito irrequieto: por vezes prepondera a visão irônica da realidade, quando se ouve a voz de um eu lírico rebelde e até sacrílego: “Peço a Deus que Ele me esqueça / E não me cobre mais nada /Também que me favoreça / E libere a minha estrada. / Não vou seguir mandamentos / Nem sagradas escrituras / Prefiro meus sentimentos / Das alegrias mais puras” (Poema sacrílego). Noutros momentos, o flagramos resignado: “ Para que a tua prece / Suba ao céu como oração, / Olha o coração de Deus / No peito de cada irmão. / Depois, faz o bem, e esquece, / Assim a ninguém parece / Que tens segunda intenção. / E, se fores verdadeiro, / De cabeça, braço e mão, / Vai chover o ano inteiro / Na roça do teu sertão. / Sabe que a melhor palavra / Que tu podes pronunciar / É a de quem planta e lavra / A verdade em seu olhar” (Pregação). Ou ainda: “Consola-te com a cruz que Deus te deu / E verás que ela nem é tão pesada / Lembrar-te-ás de quanto Jesus sofreu / Por salvar a tua alma amargurada” (Compensação).

           Há sopros fortes das leituras assimiladas ao longo do tempo, sobretudo há a influência do pensamento shaupenhaureano de Augusto dos Anjos, da poesia filosófica e metafísica de Fernando Pessoa e da antifilosófica de Alberto Caeiro. Lendo os versos do poema Filosofias: “ Não. Hoje não estou / Para vãs filosofias /   Nem quaisquer abstrações. / Hoje, só questões pragmáticas, / Coisas tipo beira-chão. / Meu pai era homem assim, / Crente, mas sem discussão. Quem discute, / O cão que escute, / Eu é que não”,  lembramos imediatamente os versos de Alberto Caeiro, em Poemas Inconjuntos: “Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio. / Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. / Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. / Há só cada um de nós, como uma cave. / Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; / E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, / Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.” A filosofia é desnecessária para olhar o mundo. É do olhar nu que o poeta necessita, apenas das sensações não intelectualizadas, já que o real é a exterioridade e não devemos acrescentar-lhe as impressões subjetivas desnecessárias.

         O amor é outro tema bastante visitado na poética de João Soares Lobo. O amor-amante, amor-irmão, amor-filial, amor-amigo, amor-saudade, amor-gratidão, amor-infância, amor-sonho, o amor em todas as suas formas, longe da rima indigesta com o substantivo dor. Mesmo que o eu lírico fale de desencontro e despedida, há a celebração da esperança: “ Para mim, hoje não amanheceu; / Eu estou ontem, que inda está por vir. / Só sei, depois que tudo aconteceu, / E amanhã nascerá para sorrir” (Tu e eu). Há uma espécie de decisão pela felicidade: No poema Geometria, isso fica claro: “Eu tracei a bissetriz / Do meu desejo risonho / De querer viver feliz”. De fato,  sua poesia, mesmo quando versa sobre medos, vida, morte, eleva o pensamento e redescobre a ternura, porque ‘a  tristeza é doença’.

Seja pela riqueza dos intertextos  com Olavo Bilac - “Lembrei, então, do que diz outro autor: / Só os que amam podem ter o ouvido / Capaz de ouvir e de entender as rosas”; com Petrarca/Pessoa “Navegar é Preciso”, seja riqueza estética das paisagens poéticas que aqui encontramos, pela seriedade com que o poeta brinca com as palavras e o pensamento, vale a pena seguir por essas andanças, respirar seus ares, conhecer o poeta
que assim se traduz no poema Dueto:
 
 Eu já fui louco e até que me aplaudiram,
Já fui sensato e poucos me entenderam;
Aí, quis ser santo e me crucificaram.
Quando te amei, disseste-me: - É loucura.
Quando amaste, te disse: - É insensatez.
Abençoamos o amor e o amor se fez.
Crucificado, - é a divina tortura.

Viva a poesia e a insensatez! Que essa seja a primeira de muitas irrequietas andanças, João Soares Lobo!

Fortaleza, 10 de fevereiro de 2014

Aíla Sampaio


Hermínia Lima: a pele das palavras





A leitura crítica de um texto deve, antes de tudo, concentra-se nas trilhas da própria escritura
Pulsante, vigorosa, sensorial: é assim que se afigura a poesia de Hermínia Lima. Em Sangria Azul, seu primeiro livro de poemas, já celebrava a sensualidade do corpo, o amor vivido, saciado, de modo que essa poesia amorosa, sensual, retomada nos versos de Sendas do sacrário, já constitui uma marca de sua poética e, nesse novo livro de poesia, confirma sua capacidade de desnudar-se sem ser piegas, de decantar o erotismo sem ser vulgar.

Hermínia Lima é professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), doutoranda em Línguística na Universidade Federal do Ceará (UFC). No campo da produção literária, dedica-se ao ensaio e à poesia, com proficiência, imaginação e sensibilidade

O erotismo

Praticada, pode-se dizer, desde sempre, a poesia erótica tem belos registros em obras de poetas gregos e latinos da Antiguidade Clássica; posteriormente a exercitaram poetas da lírica medieval e provençal, do Barroco e do Arcadismo, seguidos pelos românticos e, mais tarde, pelos modernos e pós-modernos.

Embora exercitada em quase todas as épocas, a poesia do amor carnal é mais um estilo próprio de cada autor do que uma característica marcante dos movimentos literários. No Brasil, José Alcides Pinto, Hilda Hilst e Pedro Lyra são representantes do que há de melhor nesta seara.

Para Hermínia Lima , são as ‘ardências do corpo’, os desejos, fontes de inspiração. O sexo – “sentido de ser” – não é apenas leitmotiv de versos, mas a própria poesia: (Texto I)Seus versos são extremamente sensoriais, inspirados no(s) amor(es) vivido(s), degustado(s) e eternizado(s) na pele das palavras, onde ele(s) não perecem. Sim, é pela palavra que ela (re) constrói as imagens de carícias, toques, olhares e explosões de prazer que sutilmente se desenham.

Outro livro

Sendas do sacrário é incontestavelmente um livro de amor. Divididos em três partes, os poemas ilustram a mulher ativa, dona do seu corpo e do seu prazer, em busca do amor. Seu eu lírico, notadamente feminino, não reduz sua poesia a meros devaneios românticos de uma mulher. Como Hilda Hilst, ela ora celebra a posse, a carícia concreta, ora projeta, idealiza e sonha com a chegada daquele que abrirá as portas de seu santuário, como se lê em “Busca”:(Texto II)

Leitura do poema

A promessa de futuro, seguramente anunciada, mostra o poder da busca e a capacidade de transpor céus e terra pelo abraço desejado. Embora o eu lírico não seja declaradamente uma mulher, vê-se nas entrelinhas, a voz das Penélopes, claro, do nosso tempo, pois, em vez de fazer e desfazer mantas, ela “cruza fronteiras” e “cumpre a saga” enquanto aguarda seu “Odisseu”.

Sabe a hora do encontro, simbólico, nas chamas, nas águas ou entre-palavras. Esse último reserva já a possibilidade de o amor realizar-se apenas em forma de versos, como disse, na pele das palavras.

Singularidades

Pelo elemento fogo, ela é corpo em brasa, bacante vestal nos braços do seu homem, consoante os versos: (Aquecidos, a princípio, pela mistura insólita / de vinho e chocolate, ferviam agora, / na chama dos próprios corpos / que incendiava a cama, o quarto / e ameaçava incinerar o mundo inteiro (“Joinville” p.41).
Nas águas, é sereia ardilosa, tomando posse do seu Boto (Enquanto canto / encanto. / O canto, à cata / acha, em um canto, / estrelas / e as cata / para o ato (“Sereia” p.57)) . Entre-palavras, é a mulher que seduz pelo verbo encarnado, lúcida e visionária, segura do que tem e/ou pode ter (Ah, santa e profana habilidade de tocar com as palavras! (“Divindade” p. 70).

Professora da Unifor

AÍLA SAMPAIO
Especial para o Ler

Trechos

TEXTO I

Sobre um altar de linho, / Derramam-se os perfumes da carne /// (Poemas pulam entre pernas / e pousam cansados / na cintilante espera / do recomeço) (“Altar” p. 24)

TEXTO II

Abrirei estradas para o norte, / rasgarei a mata catando loas, /e levarei o sol para secar florestas. /// Espreitarei os vizinhos peruanos, /aprenderei os ritos dos povos bolivianos, / E cruzarei fronteiras navegando o rio Acre. /// Decifrarei dialetos de todas as tribos, / mergulharei no rito de pajelança da nação Kaxinawa, / e seguirei as águas, morada de Cobra Norato. /// Boiúna será meu guia, / pirarucus e castanhas meu alimento / pelas terras dos seringais. /// Enfim, cumprida a saga, / suspenderei a chuva, / e nua caminharei pela mata, / sorvendo a taça do Santo Daime, / enquanto espero a hora do teu abraço.

 

Publicado no Jornal Diário do Nordeste em 24/01/2014

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/suplementos/ler/herminia-lima-a-pele-das-palavras-1.798346 


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Religiosidade e lascívia formam o enredo de “Além da Vista”




Lançamento do livro “Além da Vista”, de Atilano Ayres de Moura, acontece amanhã (27/11), a partir das 20h, na Choperia ZUG, em Fortaleza.

A visita de um padre motiva a (des)ordem na rotina de uma cidade aparentemente marcada pela normalidade, religiosidade e falsa inocência. “Além da Vista” marca a estreia do administrador de empresas e engenheiro cearense Atilano Ayres de Moura na literatura hiper-realista. O livro será lançado amanhã, às 20h, na Choperia ZUG.

Com linguagem coloquial, Atilano Ayres desenvolve uma narrativa de fácil leitura, instigante e pontuada por assuntos polêmicos, como o prazer e os tabus religiosos. “Quero induzir prazer aos leitores, criando uma narrativa fluída. A finalidade é o lazer, uma leitura de avião ou fim de semana”, destaca. Leitor ávido de jornais e revistas em quadrinhos, ele teve como inspiração essas leituras para seu livro.

Publicado pelo autor, “Além da Vista” possui 115 páginas, com capa ilustrada por Arlete Holanda e Fernando Praça. O lançamento será apresentado pela escritora Aíla Sampaio. Atilano Ayres autografa o livro durante coquetel aberto ao público.
Resenha: “Além da Vista”, romance de Atylano Ayres de Moura, convida o leitor a uma viagem em três capítulos com Antônio. Anos depois, o personagem volta à cidade natal buscando entender o motivo de sua partida. A caminhada em direção à aldeia reaviva memórias e o passado confunde-se com o presente. No povoado perdido no mapa, onde o tempo não é marcado, Antônio reencontra a vida correndo lenta e sem desassossego. A rotina da aldeia só é quebrada pela visita de um padre, que motiva a (des)ordem, a paixão e a loucura de cada aldeão, questionando as ideias de pureza e inocência, os ensinamentos bíblicos e os comportamentos sociais. O amigo lobisomem, a antiga professora, um rabequeiro e um místico também cruzam o caminho de Antônio, que dá voltas, como o mundo e o próprio ciclo da vida.  
Serviço:
Livro “Além da Vista”
Autor: Atilano Ayres de Moura
Capa: Arlete Holanda e Fernando Praça.
Preço: R$25,00
     Lançamento: 
Data: 27 de novembro de 2013
Horário: A partir das 20h
Local: Choperia ZUG, Shopping BUGANVILIA – Avenida Dom Luís, Meireles.
      
       Sandra César e Angélica Emília 
    Assessoria de Comunicação
    Gris Comunicação e Produção

sábado, 23 de março de 2013

Bala na Agulha, de Zeca Baleiro





Além de compositor e intérprete, Zeca Baleiro é também um cronista de percepção aguda e verve bastante irônica. O Caderno LER de hoje traz uma análise do seu livro Bala na Agulha – Reflexões de Boteco, Pastéis de Memória e Outras Frituras, publicado em 2010 e lançado em Fortaleza durante a última Bienal do Livro.

Os talentos múltiplos que, de vez em quando, aparecem na mídia compensam a avalanche de mediocridade que ela tem vomitado.  Quero me referir diretamente a Zeca Baleiro, cantor e compositor reconhecido pelas letras de música bem elaboradas e criativas, pela interpretação visceral e pelos projetos, como o Baile do Baleiro, de resgate da música popular brasileira, nos Sesc-São Paulo, trazendo de volta ao público figuras que estão no ostracismo, como: Odair José, Benito de Paula, Vanusa, entre outras. Suas releituras sem preconceito das canções antes consideradas bregas abrem nova discussão sobre o que realmente atesta o bom gosto.

Não bastasse todo esse movimento ascendente em torno da nossa música, não bastasse ter renovado o cenário musical tão baço, ele ainda se revela um pensador perspicaz e um escritor que merece reverência! Além de boas ideias e muita lucidez calcada num espírito irreverente, ele tem um discurso leve, mesmo para os assuntos mais densos, e demonstra intimidade com a língua portuguesa, pois escreve de acordo com o que preceitua a gramática padrão,  no seu  característico à-vontade. Só faz uma ressalva: a resistência voraz à reforma ortográfica. Logo nas primeiras páginas do seu primeiro livro, Bala na Agulha – Reflexões de Boteco, Pastéis de Memória e Outras Frituras, há uma explicação do editor: a obra não obedece à reforma ortográfica de 2008, “pelo fato de o autor se recusar a escrever palavrões como autorretrato e assembleia”.

O livro está dividido em três partes: na primeira e mais longa, Bala na agulha, encontramos 42 crônicas que, na verdade, compunham as postagens do seu blog desde 2005, com temas variados, ou seja, é uma compilação de artigos seus anteriormente publicados na internet. São textos escritos despretensiosamente em quarto de hotel, na calma da sua casa ou na poltrona de um avião, revelando sua cosmovisão sobre  comportamento, uso da língua portuguesa, música, literatura, cinema, religião, gastronomia; sem eximir-se, tantas vezes, de episódios marcantes da sua infância maranhense e das figuras que a povoaram.

  Na segunda, intitulada Bestiário Pós-moderno, estão vários verbetes, definições irônicas de palavras, de acordo com seu olhar ácido e voraz para a realidade. A terceira – Curtas, grossas e algumas infames, estão provérbios, antivérbios, aforismo e desaforismos,  constitui, todo o montante, uma compilação de pensamentos e versos casuais – muitos escarnecedores mesmo, mas divertidos e bem humorados, como é o caso de “Toddy amor que é bayer é bom” e “Na vida tudo se acumula / nem por isso / o filho é da mula”.
 Em todos os textos, aparece o protagonismo de um cidadão inquieto com a vida e o rumo que têm tomado os valores na sociedade contemporânea. Sensato, irônico, brincalhão, por vezes ácido, jamais adocicado, o cantor-compositor-escritor  dispara a baladeira na praga do politicamente correto, critica “as novas e surpreendentes palavras que vêm sendo incorporadas à nossa língua com a velocidade típica dos tempos digitais”! (p.17) e neologismos insurgentes, como ‘faltante’ e ‘cadeirante’. Ele dispara: “Não bastassem pragas como o gerundismo propagado por atendentes de telemarketing e apresentadores de TV semianalfabetos – mania que não disfarça o nosso melancólico desejo de parecer americanos -, agora vejo surgirem como gremlins palavras tão estranhas quanto inadequadas, que as pessoas proferem com descarada naturalidade” (p.17). E acrescenta: “A nova ordem semântica não poupa crioulos, viados (com i mesmo!) e anões. Como se expressões cristalizadas no repertório afetivo popular pudessem conter apenas discriminação e não tivessem significados outros, caros à nossa cultura. E como se a discriminação pudesse ser diluída e desfeita em expressões de mal disfarçada hipocrisia, como afro-brasileiro ou afro-descendente, cidadão de orientação sexual especial e sujeito dotado de nanismo” (p.19).

Nas reflexões que faz sobre o uso da língua portuguesa, foge a uma postura purista e demonstra bom-senso em relação aos equívocos, aos abusos neológicos desprovidos de sentido, à avalanche de palavras-chave para traduzir a pós-modernidade. Na crônica “Os diferenciados” (p.76), cita, entre outras variações linguísticas com que convive, o internetês, o dialeto do ABC paulista e menciona o vocabulário artificial que nos circunda: “Não consigo ver legitimidade em palavras como: presencial, semi-presencial, fidelização, motivacional etc” (p. 77) “Não à toa, palavras com recorte vitorioso estão na moda e infestam a fala dessa elite risível: “superação”, “desafio”, “empreendedor”, “upgrade”, “especial”, “top”, “ouro”, “master” e a maldita e onipresente “diferenciado”. O grande sonho de consumo dessa gente parece mesmo ser diferenciada. O que eu não consigo entender, nem que eu viva cem anos,  (e aqui tenho que confessar, acho que não suportaria tamanha longeva proeza), é: se todos se tornarem diferenciados, não ficarão então todos iguais?” (p.79).

Ele critica a cruzada ‘atualista’ que se faz hoje, a falta de culto ao passado e a exigência de que tudo seja up to date. Sim, Zeca é um saudosista. Nenhuma lágrima, nenhum lamento pelo que passou, mas um olhar complacente para o que foi bom e não deveria ter sido tirado de cena em função de um novo cada vez mais efêmero.

O excesso de propagandas (até nas privadas dos banheiros públicos), de assédio da mídia, de oferta ilimitada de serviços, outdoors, panfletos, anúncios, reflete o mundo contemporâneo e sua poluição sonora e visual. Na crônica “Somente o desnecessário” (p.53), ele alfineta esse exagero no palavreado cada vez mais prenhe de insignificâncias e, sobretudo, a sobrecarga de informações desnecessárias que pululam em todos os discursos, desde o do garçom, ao oferecer uma iguaria, ao do comentarista de futebol, bem como o culto desmedido ao consumo vendido por uma publicidade que inventa necessidades que não existem: “Vivemos assim, atordoados por necessidades desnecessárias, urgências desimportantes, pendências que se revelam fantasiosas. Nem uma desarmada criança assiste a um desenho na TV sem que seja bombardeada nos intervalos por mil e uma propagandas com ofertas de brinquedos, algumas das quais engenhosas e desonestas. No mínimo uma covardia” (p. 54 e 55).

O sociólogo Zygmund Bauman tem falado em suas obras – sobretudo em Modernidade Líquída – desses tempos em que nada mais é palpável, tudo escorre, passa rápido.  Além dessa fluidez, ele enfoca a compulsão transformada em vício, a vida instantânea, o individualismo, entre outras questões que colocam o cidadão contemporâneo diante de um mundo de pessoas sem rosto. Imagino que as reflexões do Zeca Baleiro sejam as do cidadão cansado de toda essa fluidez, mas também de um leitor antenado com os estudos sobre o seu tempo.

Em “O buraco é mais embaixo” e “na crônica “Somente o desnecessário” (p.53)”, ele reitera sua preocupação em viver num mundo em que já não se tem identidade, onde estamos todos submetidos a humilhações como ‘pesar comida’, ‘tirar roupa e sapatos nos aeroportos, ‘conversar com gravação no telefone’, entrar em intermináveis filas de espera inclusive em restaurantes. O pior: não há a quem reclamar, pois se entrou num consenso involuntário de que ‘tudo é culpa do sistema’: “Na falta de resposta para tudo, e também como evasiva para seus deslizes, o homem já recorreu a muitas coisas invisíveis e impalpáveis: Deus, o destino, o acaso, Nossa Senhora, o carma, a Providência Divina. Agora, para todos os seus pecados e crimes, inventou espertamente este bendito sistema”. A imersão do homem nesse processo de massificação propiciou a sua escravidão à parafernália digital como computadores e celulares e ele nem mais se apercebe que se tornou escravo, virou um item a mais nas grandes listas.

É lícita essa preocupação em viver num mundo em que o Ter é mais importante que o Ser, em que se preza pelo Parecer e vende-se até modelo de beleza. Ele critica essa ditadura da magreza e até corrige Vinícius no seu verso antológico “beleza é fundamental” ao dizer ironicamente que não basta a beleza, o importante é ter borogodó (p.99).

Outro tiro certeiro é nos programas religiosos que parecem manipular as pessoas, instigando o ‘ter’ como essencial. Critica a mercantilização da fé no discurso dos pastores centrados menos em Deus e mais nos valores e nas conquistas materiais que a ‘religião e a fé’ podem propiciar. Depois de brincar com o controle remoto no sofá de sua casa e parar estarrecido diante de um desses programas, comenta: “Pela grande angular do Cristianismo, Deus (assim, maiúsculo) é um ilusionista, um ser com poderes mágicos que fez seu filhos ressuscitar e subir aos céus como um Christopher Reeve de capa vermelha e uniforme colante azul. É, meus caros, aos olhos dos cristãos, Deus sempre foi um Spielberg, um George Lucas... E, como se não bastasse, agora vêm esses pastores com ares de bastardos, com avidez de vendedores de rodoviária transformar deus (assim, maiúsculo) em Og Mandino, em Lair Ribeiro, num mago vulgar de auto-ajuda... Não, Deus não merecia destino tão tacanho!” (p.48).

Dispara igualmente contra os textos de autoajuda, que aparecem até na voz de um comandante de avião (do qual ele [Zeca] é passageiro), bem como nas obras que, atualmente, lotam as prateleiras das livrarias. Descreve jocosamente os seus passeios pelas livrarias de aeroportos e conta ironicamente o seu primeiro encontro com o livro “Marley e eu” que, à primeira vista, seduziu-lhe pela possibilidade de ser uma biografia de Bob Marley. O equívoco motiva as suas considerações sobre esse tipo de literatura que mais vende e o deterioramento da qualidade do que a maior parte do público ler hoje: “O livro de auto-ajuda e seus similares atropelam a individualidade dos cidadãos, nivelando todos – por baixo – em uma grande massa humana, de comportamentos e atitudes padronizados, sem levar em conta a complexidade própria da espécie: “Faça isso, faça aquilo”; “seja amável com o próximo” /.../ O que me inquieta é pensar como, através dos tempos, uma certa qualidade do pensamento e da reflexão foi-se deteriorando, deteriorando, até chegar a patamares inimagináveis de cretinice, de “baixeza” mental, inversamente proporcional aos êxitos monstruosos das vendas desses pais livros e, pior, com a adesão cada vez mais cega das pessoas” (p.57).

Na miscelânea de temas e assuntos, estão episódios de sua infância em Arari, cidade dos seus pais no interior do Maranhão, aonde viveu até os 7 anos, e histórias vividas em São Luís, com os personagens ímpares que passaram pela sua vida. Há muito da memória do menino que se encantava com os nomes próprios e guarda ainda o encanto deles; do moleque que jogava bola na rua e lidava com os apelidos dos colegas de escola (o primeiro foi Doutor Ratazana), do rapaz que tinha curiosidade pelos diversos credos, conheceu terreiros de macumba e se encantou pelos ritos; do menino que conviveu com carcamanos e seus costumes. Duas das crônicas mais interessantes contam sobre os vizinhos negros que recorda ao sobrevoar Luanda e a preta Magnólia:  “era uma preta cinematográfica de tão preta, forte e linda, com um sorriso angelical que sempre lhe escapava do rosto grave” (p.84). A memória gustativa que traz de volta a figura da cozinheira evoca até Proust, pela ‘saudade do tempo perdido’.

Zeca confessa a influência de suas leituras, a boa formação que teve em casa, e o gosto pela poesia que veio muito cedo. Aos 11 anos, copiava poemas de Mário Quintana num caderno e dizia que eram dele para impressionar as meninas no colégio. Depois vieram as letras bem elaboradas, mostrando seu conhecimento das potencialidades expressivas da língua portuguesa e a carreira bem sucedida de cantor-compositor que faz, mesmo nesses tempos digitais, apologia ao livro (p. 71) e diz que, se depender dele, os livros-dvds estarão fadados ao fracasso.

São muitos os assuntos que constituem leitmotiv de suas confabulações: a copa do mundo e a cabeçada de Zidane; os mistérios dos bigodes; os bons humoristas, que ele chama ‘vampiros brasileiros’, o barraqueiro de praia que divulga livros e peixes num só balaio; a gastronomia maranhense e paulista, as biografias, gênero de que gosta mas considera parcialmente ficcional, e até a capacidade de perdão que ele diz não ter tão assim à flor da pele, embora tenha boas leituras da Bíblia.

A música é razão de muitos escritos. Ele focaliza a eterna discussão poesia versus canção; confessa que dois ídolos já fizeram seus olhos marejaram quando expectador anônimo na plateia - Dylan e Waldick -, e que, no início da carreira, era comparado a Ednardo, Lobão e Sérgio Sampaio, o que nunca o incomodou. Faz considerações sobre MPB e Rock, e diz que “A MPB tem servido ultimamente para esconderijo e refúgio de novos velhos, que vivem de reproduzir cânones caducos da bossa nova ou da canção de protesto e posturas datadas” (p.107). Ele não tem preconceito com os gêneros musicais, celebra a Seresta, a Bossa Nova, a Tropicália e, sobretudo, as canções de rádio que fizeram a trilha sonora da sua infância e da sua adolescência. Faz referência a movimentos musicais e a nomes que marcarem sua trajetória, como Hervé, João do Vale e  Odair José, que lhe ensinou o real conceito de felicidade: “Felicidade não existe / o que existe na vida são momentos felizes” (“A noite mais linda do mundo”).

Assim tão brevemente só se pode ter uma ideia da diversidade de assuntos que inspiraram as confabulações do cidadão Zeca Baleiro, mas se pode ter a certeza de que estamos diante de uma mente criativa, inquieta e focada na sociedade em que vive. Mais que uma brincadeira séria, mais que um exercício literário, o livro interessa para uma análise sociológica do nosso tempo.

ALGUNS VERBETES DO “Bestiário Pós-moderno”

BEST-SELLER – livro mal-escrito mas com incríveis mensagens de entusiasmo. Seu título deve ter palavras-chave que variam entre pipas, Cabul, enriquecem juntos e mentes. Vez ou outra pode ter a palavra mago. Não falha.

CELEBRIDADES – animais da fauna contemporânea bastante em voga, não são necessariamente dotados de talento ou charme. Têm às vezes o corpo bem torneado, o que lhes confere uma certa sobrevida em festas de debutantes do interior e comerciais de tv. Fazem cair por terra a profecia pop de Andy Warhol, que arriscou dizer que  no futuro todos terão quinze minutos de fama. A deles chega a durar três semana.

DIETA – penitência no templo do consumo

FASHIN – métier em que todos são plenos de atitude, porém desprovidos de opinião. São sempre muito bem informados sobre as últimas tendências da moda, embora desconheçam as primeiras.

LÍDER – pessoa que tem a conta bancária alta o suficiente para dar ordens sem ser questionada.

OTIMIZAÇÃO – Procedimento moderno que significa “fazer parecer melhor algo por natureza ruim”.

TECNO -  barulho com status de música.

XENOFOBIA – nome sociológico para “reserva de mercado”.

CURTAS, grossas e algumas infames

bossa nova:
um joão
para cem manés.

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simone a jean-paul diria
a ignorância é mais vital
Que a sabedoria

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tevê
um babaca na tela
mil babacas
frente a ela
******************
no mundo
hoje em dia
há muito mais poetas
que poesia
********************
só há uma coisa
mais odiável
que uma pessoa cheia de dúvidas:
uma pessoa
cheia de certezas


PARA SABER MAIS

BALEIRO, Zeca. Bala na Agulha. São Paulo: Ponto de Bala editora, 2010.
BAUMAN, Zygmund. Modernidade líquida. Rio de Janiro: Zhar, 2001.
BAUMAN, Zygmund. 44 cartas do mundo e líquido. Rio de Janiro: Zhar, 2009.
DE MASI, Domênico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2009.

domingo, 12 de agosto de 2012

O AMOR E SUAS MUITAS HISTÓRIAS






  
O novo livro de Isa Magalhães, O jogo do amor, surpreende pela ousadia. Ela mistura o tom ensaístico ao discurso literário, amalgamando-os ao misticismo do tarô, sem, entretanto, perder o foco: o amor, o tema mais visitado da literatura universal, o mais antigo e sempre atual, inesgotável. Essa transdiscursividade prende o leitor por liames inusitados, como gavinhas de uma trepadeira, levando-o como na correnteza de um rio, cuja água tem a mesma fluência de sua linguagem simples e acessível, do tom prosaico e da leveza da fala, que parece dirigir-se a um interlocutor íntimo.

            Tudo a ver com a personalidade de Isa esse olhar caleidoscópico sobre o mundo que a cerca.  E como não ser múltipla ao falar de amor, esse sentimento visceral que, em nenhuma das suas formas, é catalogável ou passível de definição?  Mas ela, embora trilhando estradas distintas, aponta-nos as bifurcações e não se perde nem coloca desordem na miscelânea de olhares. Ao contrário, o livro organiza-se em três partes distintas, independentes, mas perfeitamente concatenadas. Há unidade na diversidade, quando se costuram as três partes com seus pontos comuns: o amor, os relacionamentos, a vida em seu curso.

            Na primeira, ela discorre sobre o amor, sua sublimidade, suas contradições, sua força, seus mitos. Em nenhum momento, tenta conceituar ou delimitar as fronteiras entre o que seja amor, paixão ou simplesmente atração; dá, sim, munição para que o leitor formule suas próprias concepções, não o deixando, entretanto, sem noções elementares, como as das quatro fases vividas no começo de qualquer envolvimento amoroso: Atração, Encantamento, Envolvimento e Intimidade (ou compromisso), etapas variáveis de acordo com a situação, época e cultura em que se vive. Disserta, ainda, sobre o amor erótico e o amor romântico, resgatando a história de Eros e Psiquê, para ilustrar a mitificação; segue tecendo a relação entre amor e sexo, e descreve os tipos de relacionamentos, sem moldar receitas, mas tão-somente  conduzindo o leitor a reflexões.

            Na segunda parte, há 22 contos, todos inspirados ou adequados à simbologia das cartas do tarô, encenando, cada um, enredos que ilustram um tipo de amor. Em todas as histórias estão presentes os elementos constitutivos do conto, com variação no ponto de vista da narrativa, todas costuradas pelo tema do amor, suas contradições e conflitos, medos, ciúmes, frustrações, traições, tristeza, dor, encontros e desencontros. Fica clara a alternância da voz da autora e da voz de seus diversos narradores, possibilitando ao leitor a vivência com o discurso real e a experiência estética com o ficcional.

No terceiro capítulo, a autora explica ao leitor o que é o Tarô, conta sua história milenar, relaciona-o à Psicologia, discorre sobre os Arcanos Maiores e seus significados, bem como sobre a personalidade dos amantes no Tarô para conduzir à compreensão de que temos exatamente o parceiro que merecemos. Seu objetivo não é fazer apologia às cartas ou ensinar métodos de utilização, mas o de propiciar ao leitor os conhecimentos básicos para, por meio delas,  entender seu relacionamento, autoconhecer-se e descobrir o amor através dos símbolos. Sua atitude tem a honestidade de suas convicções, sem pretensão de afirmar verdades incontestáveis ou passar a fórmula da felicidade.

Assim, sem romantismo ou pieguice, o amor se revela vida e destruição, felicidade e tristeza, desvelando-se em diversas situações, ora compondo um quadro literalmente romântico, ora enveredando pelo hiperrealismo, ora encenando o insólito que caracteriza o Fantástico.


Aíla Sampaio