sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

As paixões de Shakespeare, segundo Teófilo Silva.


Teófilo Silva é cearense radicado em Brasília, leitor de Shakespeare desde a adolescência. Para compensar a aridez do Planalto, onde mora há duas décadas, criou a Sociedade Shakespeare de Brasília e passou a ministrar periódicas palestras sobre a obra do Bardo. Sua aguda visão crítica do panorama sócio-político brasileiro e seu apurado conhecimento da obra shakespeareana resultaram num livro intrigante e ousado: A paixão segundo Shakespeare (W Edições: Brasília, 2009, 368p.).

Advirto os incautos: não se trata de uma crítica do ponto de vista literário nem de mais um trabalho acadêmico acerca de Shakespeare. Teófilo mostra, em seus ensaios, as peças encenadas na realidade política e social do nosso país. Os fictícios personagens ganham rostos e nomes reais, e o cenário não é outro senão a terra brasilis, notadamente, Brasília, palco de corrupção e aberrações. Revoltado com as injustiças sociais, Teófilo, ácido observador do comportamento permissivo dos homens ‘graves’, trouxe à cena Hamlet, Horácio, Romeu, Julieta, Macbeth, Petrúquio, Catarina, Ájax, Tersites, Brutus, Otelo, Desdêmona, Ricardo, Ana, Lear, Cordélia, Falstaff, Rosalinda, Proteu, entre outros dos 1.200 personagens do teatrólogo inglês, para mostrar a perenidade e a atualidade deles. O Brasil é, hoje, um teatro medieval, a encenar práticas obscuras, tal como o fazia a Inglaterra elizabetana, que serviu de pano de fundo aos enredos do Bardo.

Teófilo mostra que a obra de Shakespeare é um conjunto (quase) uniforme, como a Bíblia, pois ela toda se volta para a comédia humana. Diz: “é como se ele tivesse a nítida convicção do que estava fazendo, desde o primeiro livro. Ele iluminou todos os recantos da alma humana em sua obra. É o homem diante da tarefa de viver, sobre os mais diversos papéis que ele desempenha na sua luta contra a morte, pelo seu desejo de vida e pelas imposições que ela provoca” (p.338). Ele cita, no decorrer dos ensaios, trechos de todas as 38 peças para ilustrar os ‘enredos’ da vida real. Criterioso, ele faz também uma análise sobre as traduções de Shakespeare para a Língua Portuguesa e fala do desafio de ler as peças no original. Critica muitas adaptações delas para o teatro, que mais parecem ‘puro entretenimento’, e não deixa de discutir as dificuldades enfrentadas pelos que se aventuram a fazer um bom trabalho.

Nos nove ensaios que compõem a obra, Teófilo mostra, com apuro estético e a simplicidade dos que têm consciência do uso da linguagem, a visão de Sheakespeare sobre as Paixões. Em “A Paixão segundo Shakespeare”, texto que dá título ao livro, ele discorre acerca dos leitores e admiradores do teatrólogo, situa-o no tempo e no espaço, apontando já a atemporalidade de sua criação. Em seguida, abre um capítulo intitulado “Paixão pelo homem”, onde enfoca aqueles que ele considera os mais fortes sentimentos humanos: ‘ Amor’ e o ‘Orgulho’, a que se seguem: “A paixão pela ordem” (O poder e A justiça), “A paixão pela vida” (A amizade), “A paixão por ele” (Freud X Shakespeare e Marx, leitor de Shakespeare), “O fim da paixão” (Entre a vida e a morte). Neste último, ele assinala que o tema da morte é bastante recorrente, fato até natural, já que quase duas dezenas das peças são tragédias, gênero predominante na época. A morte, na obra, segundo o autor de A paixão, representa o medo, o nada o absurdo, a revolta, a ironia, o desespero, a dor, a religiosidade, a transcendência e, ironicamente, a comicidade.

Corrupção, desonestidade intelectual, ciúme, maldade, ambição, sede de poder, complicadas relações entre pais e filhos, nada fugia à pena do Bardo. É ler “Rei Lear”, “Macbeth”, “Otelo”, “Os dois Fidalgos de Verona”, entre outras peças, ou ouvir Jaques, personagem da peça “Como Gostais”, quando diz “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”, para deslocar-se do século XVI para o nosso tempo. As marcas de comportamento traçadas por Shaskespeare, em seus personagens, são as mesmas marcas que se notam no homem contemporâneo, agravadas pela manipulação da mídia que impõe ‘modelos’ nocivos, ditaduras de beleza, faz apologia ao silicone, a tatuagens e desperta o espírito voyeur com programas do tipo Big Brothers da vida.
Teófilo interroga seu leitor: Por que devemos nós, brasileiros, ler Shakespeare? Responde, utilizando as palavras do Professor e crítico Harold Bloom: ‘Porque Shakespeare alarga a nossa mente, amplia a nossa capacidade de visão e existência, dando-nos uma dimensão de amplitude e profundidade’. Seus personagens saem de dentro das páginas dos livros e dos palcos para entrarem na vida, tornando-se imortais. Leitor/expectador e personagens conversam intimamente por meio da linguagem simples e da identificação que eles possibilitam.

O livro de Teófilo facilita o entendimento da obra de Shakespeare. Mais que isso: as interpretações ousadas, as associações dos enredos fictícios do século XVI às histórias reais encenadas no cenário brasileiro, lançam uma luz sobre a nossa realidade, e colocam à mostra as mazelas de uma sociedade perdida, cujos valores foram invertidos. É um grito de revolta com a política brasileira e seus mentores, assunto grave, mas tratado em grande estilo quando cotejado com a monumental obra de Sheakespeare. Difícil tratar de um assunto tão sério, de modo tão leve e sedutor como o autor o fez. Não foi à toa que Paulo Reis, no prefácio, a obra diz que ela é flamejante e dá uma bela contribuição para o aprimoramento civilizatório nacional. De fato, A paixão segundo Shakespeare é um tiro certeiro na mediocridade, “ uma verdadeira dádiva para todos os que querem um Brasil melhor”.


Apresentação do livro no lançamento em Fortaleza - Ideal Clube, 24/01/2010

A Literatura no Mundo virtual – textos apócrifos e falsas autorias na internet – Parte I

A internet tem sido uma ferramenta eficaz ao democratizar a publicação de textos literários, mas tem, por outro lado, dado espaço a imbróglios relativos à autoria. Esta pesquisa mostra a profusão de textos apócrifos no mundo virtual, bem como equívocos quanto aos créditos dados em poemas e crônicas de escritores consagrados na literatura universal. Como são muitos os casos, daremos continuidade às amostras na Parte II do artigo.

O mundo virtual ampliou os espaços da literatura, facilitou a publicação de textos literários em blogs e sites e, sem dúvida, democratizou o acesso de estudantes e internautas em geral a textos antes restritos aos livros.
Essa facilidade, entretanto, não é totalmente benéfica. Pesquisas sérias devem ser feitas em sites sérios, pois a democracia só é positiva quando está na mão de quem tem capacidade e caráter para exercê-la. O espaço virtual é terra de todos e de ninguém.

Há quem se preocupe com a credibilidade do que posta, e cita autorias e fontes; há pessoas mal intencionadas, que utilizam o ócio para fazer confusão; e há os incautos, que recebem e repassam textos sem qualquer preocupação com a autenticidade deles. Claro que ninguém é obrigado a saber de cor a autoria de todos os textos, mas, antes de repassá-los ou utilizá-los em pesquisas escolares e acadêmicas, bem como usá-los em avaliações e provas, deve-se conferir a autoria em livros ou com profissionais da área.

Não bastasse a omissão da autoria, que constitui um crime previsto na lei nº 10.695, relativa à violação de direito autoral, os escritores estão sendo vítimas de outro engodo: a atribuição de autoria. Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Dráuzio Varela e Mário Prata, por exemplo, estão vivos e podem rechaçar a atribuição, embora não possam detê-la. Já Shakeaspeare, Clarice Lispector, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Charles Chaplin, Fernando Pessoa, entre outros, circulam na internet como autores de textos que nunca escreveriam e nada podem fazer. O pior é que pessoas utilizam como fonte de pesquisa sites abertos a contribuições, como o www.pensador.info; qualquer pessoa, por mais ingênua que seja, vasculhando as páginas desse site, percebe que um mesmo texto é postado várias vezes com autorias diferentes, tal como na página da Wikipédia, onde qualquer internauta pode se cadastrar e postar o que quiser. Já foram criados blogs e comunidades no Orkut para esclarecer dúvidas quanto a autorias, contribuindo, assim, para que o espaço virtual não seja apenas um celeiro de engodos, um desserviço ao aprendizado da literatura, mas um espaço legítimo que pode divulgá-la e servir de fonte de conhecimento, com credibilidade.

Drummonds

Carlos Drummond de Andrade, nome consolidado na literatura brasileira, tem estilo discreto e comedido, avesso, entretanto, a todo conservadorismo estético. Deixou uma obra consistente, acrescida dos poemas eróticos, de igual qualidade, desengavetados após sua morte. Não bastassem esses acréscimos, interneteiros insatisfeitos se deram o direito de atribuir-lhe versos que não constam na sua bibliografia, como é o caso do poema “Viver não dói”, amplamente postado em blogs e repassado em e-mails e scraps:

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.


Vanessa Lampert, uma das pessoas sérias, no mundo virtual, que estão lutando pelo crédito aos verdadeiros autores, fez uma análise interessante desse texto e deu uma explicação bem embasada. Em seu blog, ela discorre sobre o possível passo a passo da construção do poema, a começar pela crônica “As possibilidades perdidas”, de Martha Medeiros, publicada em 20 de agosto de 2002, no site Almas gêmeas. Ela diz que Martha se inspirou em um verso do poema “Canção”, do poeta mineiro Emílio Moura, amigo e contemporâneo de Drummond: “Viver não dói. O que dói / é a vida que se não vive”, discorreu sobre a vida e concluiu com uma interrogação seguida de uma resposta: “Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais". A crônica de Martha, transformada em poema, recebeu o acréscimo de um texto da novelista inglesa Mary Cholmondeley : "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade." ("Every day I live I am more convinced that the waste of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence that will risk nothing and which, shirking pain, misses happiness as well."), com o enxerto final pinçado do livro You gotta keep dancin, de Tim Hansel, escrito logo após o acidente que ele sofreu e inspirado nas dores intermitentes que o perseguiram a partir daí. Ele diz que não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria: "Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy."

Há muitos outros textos atribuídos ao poeta itabirano. O segundo mais citado é “Conselho de um velho apaixonado”:

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer
seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção: pode ser a pessoa
mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está
esperando desde o dia em que nasceu.


Esse poema não consta em nenhum dos seus livros, nem se sabe ao certo quem é o verdadeiro autor. Também não constam em sua Obra Completa: "Desejo(s) e/ou Síntese da Felicidade” (“Desejo a você/Fruto do mato/Cheiro de jardim/Namoro no portão/Domingo sem chuva" ); “Reverência ao destino” ("Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião), que vem sempre acrescido dos versos do poema intitulado: “Eterno”, de autoria dele; e "Inconfesso Desejo” (“Queria ter coragem / Para falar deste segredo / Queria poder declarar ao mundo / Este amor / Não me falta vontade /Não me falta desejo”).

As falsas atribuições ao poeta proliferam na Net como uma epidemia. A ele creditam: "Almas Perfumadas” ( Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daqueles que conseguimos acender na Terra), de Ana Claúdia Saldanha Jácomo; "Máscara”, de Dante Milano; a frase "Não sei quando virá o amanhecer, por isso abro todas as portas" ("Not knowing when the dawn will come I open every door."), de Emily Dickinson.

"Recomeçar” (Não importa onde você parou,/em que momento da vida você cansou,/o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar) foi, inclusive, lido por Ana Maria Braga em seu programa “Mais você”, com com o título “Faxina da alma”e os créditos dados a Drummond. A criação é, no entanto, de Paulo Roberto Gaefke e, em algumas versões deturpadas, apresenta ainda os versos VII – de “Da Minha Aldeia” no final: (Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura) que são de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.


A conhecidíssima crônica “Ter ou não ter namorado” (“Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema na sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho”), de Artur da Távola, aparece na Net, variadas vezes, como de Drummond.

Pertinente seria que os internautas sem responsbilidade lessem um dos poemas do livro “Viola de Bolso”, do mineiro de Itabira: “Poupem-me, por favor ou por desprezo, se não querem poupar-me por amor”.

Veríssimos inverossímeis


Luís Fernando Veríssimo, cujos textos são sóbrios e bem humorados, na Internet, aparece como autor de divagações que mudam o seu estilo: ora ele é romântico, conselheiro, ora adere ao filão da autoajuda. Ao ler a crônica “Quase”, ele mesmo ficou surpreso ao descobrir que a obra levava seu nome e estava amplamente difundida em slides:

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. /.../ Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Em 2005, no Salão do Livro de Paris, Veríssimo recebeu uma coletânea de textos de escritores brasileiros traduzidos para o francês, das mãos da própria autora, e se surpreendeu ao ver que o seu escolhido era “Quase”, cuja tradução ficara “Presque”. Esclareceu o equívoco com a organizadora e, ao retornar ao Brasil, contou o episódio na sua coluna do Jornal Zero Hora, relatando episódios, em tom jocoso, sobre o tal texto: “O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece. O texto que encantara a senhora se chamava "Quase" e é, mesmo, muito bom. Tenho sido elogiadíssimo pelo "Quase". Pessoas me agradecem por ter escrito o "Quase". Algumas dizem que o "Quase" mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o "Quase". Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê?” (ZERO HORA, 24/3/2005). E finalizou: "Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do ‘Quase’ para agradecer a glória emprestada".

Não muito tempo depois recebeu uma carta de uma estudante catarinense, Sarah Westphal Batista da Silva, de 21 anos, contando ser a verdadeira autora. A revelação valeu uma reportagem na capa do Caderno Variedades do jornal Diário Catarinense (e também no clic RBS, o portal da RBS) feita pelo repórter Felipe Lenhart, que descobriu a jovem estudante depois de muitas navegadas pela internet.


“A felicidade pode demorar”, cujo título real é "O amor e a vida" ou "Uma reflexão sobre o amor e a vida" também não é do Luís Fernando Veríssimo, foi escrito por François de Bitencourt:

Às vezes as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer
senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado.
Às vezes nos falta esperança. Às vezes o amor nos machuca profundamente,
e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa.
Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar,
tanto quanto precisamos respirar...é nossa razão de existir.
/.../ A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...


“Tipo assim”, de Kledir Ramil, também é arbitrariamente postado como de Luís Fernando:

Tô ficando velho! Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente na saída do show do Charlie Brown Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa.
E aí, o show foi legal? /.../
Fiquei tipo assim calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea.


Um dos mais espalhados pelo mundo virtual, em nome do cronista gaúcho, é “Um dia de Modess na vida de um homem”. O texto é, de acordo com Beth Vidigal, de três jovens jornalistas – Nina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso (do site 02 Neurônio). O autor da crônica assina “Rolinha”. Já a crônica intitulada “Diga Não às Drogas”, que faz a referência aos “cantores e compositores goianos” ou aos “músicos de Goiás” circula também com o título de “Depoimento Emocionado de Luiz Fernando Veríssimo Sobre sua Experiência com as Drogas” igualmente não é dele:

“Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do "Leandro e Leonardo".
Achei legal, uma coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "amigo" e acabei comprando pela primeira vez. /.../ POR FIM NO ÚLTIMO ESTAGIO ESTAVA OUVINDO SERGINHO E SUA ÉGUA POCOTÓ. Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa”.


Betty Vigigal, em sua página Textos Apócrifos na Internet, comenta que a “Revista Veja, na edição de 9 de julho do mesmo ano, publicou uma nota na seção “Guia”, mencionando vários artigos que circulam, pela net, atribuídos a quem não os escreveu. Este foi um dos contemplados. No número seguinte, vários verdadeiros autores – de outros textos – identificaram-se. Mas esta brincadeira com a música chamada “brega” não teve a autoria reivindicada por ninguém”.
Sempre foram tantas atribuições de autoria feitas a Veríssimo que ele, já em 18 de janeiro de 2002, escreveu no Estadão, sob o título “Apócrifos”: “'Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outros grupos, com a minha assinatura, na Internet ou fora dela, não é meu. Todos os outros - inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário - são meus”"

Betty Vidigal adverte que “Quando Veríssimo diz: “Todos os outros – inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário – são meus”, refere-se, por certo, às inúmeras crônicas que escreveu e que, justamente por serem tão divertidas, tornaram-se “de domínio público” e foram transformadas em piada, em versões abreviadas que mantêm o sentido geral sem manter a sutileza dos diálogos verissimianos”.

Quintanas e Quintana

Outro gaúcho bastante agraciado com autorias falsas é o poeta Mário Quintana. O texto “Não quero alguém que morra de amor por mim”, um dos mais divulgados, inclusive em belos slides, é de Adriana Britto e tem como título “Certezas”. Leiamos uma parte dele:

Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
/.../
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.


Emílio Pacheco, pesquisador de textos apócrifos na Internet, já fez uma lista de "falsos Quintanas" no seu artigo homônimo e deu uma boa contribuição aos que querem levar a sério a bela atitude de repassar textos literários por e-mails ou scraps no Orkut. Leiamos um dos mais repetidos nas páginas virtuais: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. (...) Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”.Em forma de versos ou em prosa, esse texto circula pela internet em slides, montagens, em perfis do Orkut ou mesmo em forma de mensagens. A dupla Bruno e Marrone, inclusive, o declamou em um dos seus shows. Tornou-se comum, no mundo virtual, a colagem de textos de autores diferentes... nem sempre o sentimento da pessoa se traduz em um só poema e ela faz o recorte de versos, cola, e esquece de dar o crédito ao(s) autor(es). Nesse que citamos há pouco, há uma frase famosa de O Pequeno príncipe, de Saint-Exupery: “Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Já a frase “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação” foi retirada de um provérbio árabe. Outro enxerto foi feito há pouco tempo: “para o homem provar que é homem, não precisa ter mil mulheres, basta fazer uma feliz”.
Imbatível em quantidade de reproduções na Net é o texto que começa: “Com o tempo você vai percebendo que, para ser feliz com outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela”, que se encerra com a afirmação: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Não há absoluta certeza da autoria; há uma página na Internet em que o ‘poema’ aparece com a autoria de Kátia Cruz. Já o verso das borboletas é atribuído ao americano Walter D.Ehlers: Não corra atrás das borboletas, plante uma flor no seu jardim e todas as borboletas irão até ela. (http://sosfauna.braslink.com/reflex.htm). Uma informação, entretanto é segura: o texto não é do Mário Quintana.

Várias crônicas da Martha Medeiros circulam como se fossem de Quintana, com a forma adulterada e com colagens de frases e/ou versos alheios. Tal é o caso de: “Felicidade Realista”, “Promessas Matrimoniais”, “Sermão do Casamento” (também conhecido como "Casamento na Igreja"), “Sentir-se Amado” e “A impontualidade do Amor”. De acordo com Pacheco, essa atribuição de autoria de textos em prosa, que nada têm a ver com o estilo a Quintana, deve-se ao fato de Vinicius de Moraes ter escrito muitos nessa forma literária, e todos falavam de amor. O estilo de Quintana não é exatamente romântico; sua poesia, além de refletir o processo criador, reflete a existência, a infância, a vida de modo geral. Foge totalmente dessas características o poema constantemente repassado com o nome do gaúcho, cujo título é “A Idade Para Ser Feliz”, na verdade, escrito por Geraldo Eustáquio de Souza. Com “Amor é Síntese” ocorre o mesmo equívoco; a verdadeira autora é Mirtes Mathias. Na versão repassada na Net, o verso final aparece modificado: "E eu serei perfeito amor". Leiamos o poema na íntegra:

Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!


Outros exemplos de apócrifos atribuídos a Quintana: “Algo sobre o amor” (“Para meus amigos que estão solteiros... casados... “). “Amadurecimento” (“Aprenda a gostar de você, a cuidar de você, e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você”.); e frases/versos como: “Se for para esquentar, que seja no sol, se for para roubar, que seja um beijo...” ; “Sentir primeiro, pensar depois/ perdoar primeiro, julgar depois...”. A cada dia parece surgir um novo texto ou poema falsamente atribuído a Quintana, de forma que é difícil elaborar uma lista completa, como assegura Pacheco. Esta foi iniciada por Lúcia Kerr Jóia, da comunidade ‘Afinal, Quem é o Autor’, atualizada com a ajuda de vários colaboradores, como Jane Araújo, Westh Ney e outros. Um poema verdadeiramente de Quintana aparece na Internet modificado, a começar pelo título de “O tempo” ou “A vida”, ambos errados. Vejam a versão original:

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-ªfeira...
Quando se vê, passaram sessenta anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Em alguns sites e blogs, o poema aparece com o verso “quando se vê, perdemos o amor da nossa vida”, com o acréscimo final: “E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”. Há outras variações, mas todas não passam de adulterações da forma original.

“Deficiências” ou “Dicionário do Quintana” é, na verdade, a parte final de um texto redigido pela professora Renata Vilella, da escola mineira Flor Amarela:

Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive,
sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio,
de fome, de miséria.
E só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão.
Pois está sempre apressado para o trabalho e
quer garantir seus tostões no fim do mês.
/.../
A amizade é um amor que nunca morre.


As frases da professora foram reformuladas e colocadas em forma de versos, com o enxerto final de um verso do poeta gaúcho. Na seção "Notícias On-line" do site da escola, localizada em São Vicente-MG, ela desabafa: “Há meses recebi um e-mail dizendo que circulava na internet o texto que está escrito na minha apresentação como sendo de autoria de Mário Quintana, não levei a sério, para falar a verdade me senti até honrada, porém quando o senado federal divulgou no folder do Dia Nacional de Valorização da Pessoa com Deficiência escrevi uma mensagem para o Senador Flávio Arns, autor do projeto, pedindo que esclarecesse, mas não obtive resposta. Como o texto foi escrito no final de 1990, quando eu estava indo para o interior de Minas e Mário Quintana ainda era vivo, nem psicografado pode ter sido”.

A esses amantes dos recortes e das colagens, falseadores de versos e estilos, Quintana deve dizer, do alto de sua serena eternidade: “Eles passarão / Eu passarinho”.

Pessoa e outras pessoas

Fernando Pessoa é também constantemente perseguido pelos desocupados. A ele atribuíram parte crônica “O medo: o maior gigante da alma”, que, de fato, é do professor de literatura do Objetivo e da UNIP, Fernando Teixeira de Andrade. O fragmento que circula com a falsa autoria foi retirado deste texto:

“Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza. /.../ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".


Do mesmo modo, não é de Fernando Pessoa o soneto “A concha”, mas de Vitório Nemésio. Vejam a primeira estrofe:

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Também não é de Pessoa: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. As pessoas certificam-se da autoria na própria internet e, não tendo comprovado legitimamente, arranjam as desculpas mais ‘amarelas’. Vejam o que foi respondido na página do Multiply de Vanessa Lampert, sobre o questionamento de autoria do texto acima: “Saber se Fernando Pessoa escreveu mesmo tal ou qual coisa faz parte do amá-lo como poeta, como o grande fingidor que o foi, como alguém que, de tão gigante, transformou-se em outros, deu voz a um "humano" que habita em cada um de nós. A questão é: QUAL Pessoa escreveu isto? A "caixa" onde repousaram os escritos guardados do funcionário público lisboeta que se tornou o maior poeta de Portugal depois de Camões AINDA guarda segredos. O aumento do período que leva para uma obra tornar-se de domínio público animou recentemente os herdeiros a fazer uma nova "limpa" e editar a obra completa revisada, em Portugal. E se a citação não fosse de Pessoa (e é), tudo bem. Tantos já tentaram e continuam tentando, depois dele, "escrever coisas como versos". É claro que Vanessa retrucou essa declaração e considerou irresponsável a atitude da moça, dando-lhe a alcunha de ‘clonadora’ de textos.

Vejamos outros textos atribuídos indevidamente ao modernista português:

“A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser. Ora tudo é o que é. Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é. Confunde-nos de si com isso”.
Não se sabe quem é o autor.

“Amor não se conjuga no passado, ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente”. Autor correto: M. Paglia. Mas quem é M. Paglia?

“Do indivíduo temos que partir, ainda que seja para o abandonar”. Não se sabe o autor.

“Diógenes com uma lanterna em plena luz do dia) procurava um homem; Platão não procurava um homem”. Não se sabe o autor.

“Enquanto não superarmos/a ânsia do amor sem limites,/não podemos crescer/emocionalmente. Enquanto não atravessarmos/a dor de nossa própria solidão,/continuaremos/a nos buscar em outras metades./Para viver a dois, antes, é/necessário ser um”. Não se sabe o autor.

“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”.
Trecho de uma crônica de Luis Fernando Verissimo. Aqui, pode ter havido uma confusão com o poema Cartas de amor : “Todas as cartas de amor / são ridículas./ Não seriam cartas de amor / se não fossem ridículas”.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim, nem que eu faça a falta que elas me fazem. O importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível, e que esse momento será inesquecível” /.../. Autora: Adriana Britto.

“Navegue Navegue descubra tesouros,/mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá./Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra”./.../ Autora: Silvana Duboc . Aqui também pode ter havido uma confusão com o poema Navegar é preciso : “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / "Navegar é preciso; viver não é preciso. / Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: / Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.


“Um dia a maioria de nós irá separar-se /.../ Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,tantos risos e momentos que compartilhamos”.
Não se sabe o autor.

Tentar justificar tais imbróglios com a multiplicidade da poesia pessoana, por conta de diferentes heterônimos e estilos, não convence. Até que seja provado, não é do autor o que não consta em suas publicações em livro.

É tão séria essa questão de confiabilidade nos sites em que pesquisamos! Por isso insisto em advertir os pesquisadores (professores, estudantes, curiosos, apaixonados pela literatura) que, se não conhecem o estilo do autor (mesmo quando têm tantos estilos como o Pessoa), procurem um livro para comprovar a autoria antes de utilizarem os textos em sites, trabalhos e até provas, onde já vi impresso o texto que citarei agora, com a autoria do Fernando Pessoa:

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo…
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história…
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma…
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta…

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…



Em outro blog, o depoimento do que se diz o verdadeiro autor das três frases finais do poema, assinado com o pseudônimo de Nemo Nox, esclarece que o texto é uma montagem:

“No início de 2003, chateado com os obstáculos que encontrava e tentando ser um pouco otimista, escrevi aqui estas três frases: “Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo”. Não pensei mais nisso até que recentemente comecei a receber e-mails pedindo que eu confirmasse ser o autor do trechinho. Aparentemente, o trio de frases tomou vida própria e se espalhou pela internet lusófona com variações na pontuação e na atribuição da autoria. Começou aparecendo como título de fotolog (já encontrei uma meia dúzia com este nome) e como citação anônima em rodapé de mensagens (em vários fóruns de debate online). Depois alguém resolveu pegar um poema (possivelmente de Augusto Cury, autor de Dez Leis para Ser Feliz), colar o tal trechinho no fim e distribuir tudo como se fosse obra do Fernando Pessoa. Não demorou muito para que as minhas três frases começassem a pipocar pela rede atribuídas ao poeta português (afinal, é sempre mais bacana citar um famoso escritor luso que um quase desconhecido blogueiro brasileiro). Cheguei eu mesmo a duvidar da minha autoria. Poderia ter cometido um plágio inconsciente, recolhendo da memória alguma coisa lida no passado e achando que se tratava de material original? Revirei os poemas pessoanos em busca de pedras e castelos mas não consegui encontrar qualquer coisa remotamente parecida ao trecho em questão. Vasculhei os heterônimos e tampouco achei o guardador de pedras. Seria de qualquer forma estranho Pessoa ter citado Drummond desta forma e o fato não ser amplamente divulgado por estudiosos dos dois lados do Atlântico. Enfim, convenci-me, até que provem o contrário, que fui eu mesmo quem escreveu as tais linhas. Outra coisa engraçada é que nem me sinto orgulhoso de ter escrito isso, parece-me hoje até um pouco piegas, como aqueles cartazes motivacionais com fotos bonitas e frases otimistas. Até me admiro de não terem atribuído a autoria ao Paulo Coelho. Também tem gente que usa as frases na internet e me aponta como autor, mas para aumentar a confusão me chamam de Nemo Vox (devem achar que sou irmão do Bono) ou dizem que a citação é do livro Por um Punhado de Pixels (que nunca foi livro, sempre weblog). E agora? As frases estão soltas por aí, não vou brigar por elas, quem quiser dizer que são do Pessoa, do Veríssimo ou do Jabor, fique à vontade. Atribuições incorretas? Eu guardo todas. Um dia vou escrever uma tese”.

Os versos abaixo, divulgados seguramente como do poeta português, não são dele:

Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva,
para que possamos compreender
o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio,
quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
/.../



Na comunidade do Orkut ‘Afinal, quem é o autor?’, a jornalista Betty Vidigal descobriu tratar-se de mais uma criação de Paulo Coelho, publicada, em prosa, no livro "Manual do Guerreiro da Luz". Leiamos a versão original:

“O guerreiro da luz aprendeu que Deus usa a solidão para ensinar a convivência. Usa a raiva para mostrar o infinito valor da paz. Usa o tédio para ressaltar a importância da aventura e do abandono. Deus usa o silêncio para ensinar sobre a responsabilidade das palavras. Usa o cansaço para que se possa compreender o valor do despertar. Usa a doença para ressaltar a benção da saúde. Deus usa o fogo para ensinar sobre a água. Usa a terra para que se compreenda o valor do ar. Usa a morte para mostrar a importância da vida”.

Pouco tempo depois de o livro ter sido publicado, a Revista Época trouxe uma reportagem com o título “Alquimia literária”, declarando que Paulo Coelho era acusado de ‘transmutar’ um texto originalmente escrito pela psicóloga colombiana, Sonia Hurtado, colunista do jornal El Pais, de Cali. Ela acusou o escritor de plagiar o seu artigo intitulado “Cerrando ciclos”, publicado no dia 21 de janeiro de 2003. Segundo a Revista, o texto de Coelho foi publicado originalmente no jornal O Globo em 2004 e traduzido para o espanhol pelo semanário colombiano El Espectador, com o título “'Cerrar ciclos”' (“'Fechar ciclos”). Paulo Coelho, ao se defender, disse que encontrou o texto na internet e admitiu: “Não fui eu quem escreveu o original (infelizmente), mas resolvi adaptá-lo, e agora posso pelo menos reivindicar parte de sua autoria”. Quem quiser ler o artigo da Revista Época na íntegra: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html


Não são de Shakespeare


Não bastasse a obra monumental de Shakespeare, há ainda quem publique em seu nome textos que ele certamente não escreveu. Tal é o caso de: “O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que sofrem, muito curto para os que se alegram, mas para os que amam, o tempo é eterno”, de Henry Van Dyke, diplomata, pastor e escritor americano (1852-1933) . Confiram o texto original:"Time is too slow for those who wait, too swift for those who fear, too long for those who grieve, too short for those who rejoice, but for those who love, time is eternity”.

São apócrifos (e não de Shakespeare) os versos: “Perguntei a um sábio, / a diferença que havia / entre amor e amizade, / ele me disse essa verdade: / O amor é mais sensível e a amizade mais segura”/.../. Não é dele, igualmente, o texto “Aprendi” (ou “Depois de algum tempo”), mas de Verônica A. Shoffstal:

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. /.../E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão./.../ “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar”.

O que nos parece é que alguém leu Shakespeare e pinçou seus pensamentos, envolvendo-os num emaranhado de frases. Note-se que o último pensamento - “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar” está numa fala de “Otelo”; Apenas trocram a palavra “dúvidas” por “dádivas”.

A respeito da nova autoria, vejam o comentário que Vanessa Lempert recebeu ao desvendar a autoria do texto: “Olá, meu nome é Camila, moro na cidade de União da Vitória, interior do Paraná, tenho quinze anos e uma opinião bem crítica com relação ao texto de Willian Ferdnand Shakespeare atibuído à Veronica Shoffstall. Primeiro, a autoria de Shakespeare sobre a verdadeira versão desse texto (que tem como verdadeiro título "Depois de um tempo você aprende") é simplesmente incontestável, traz todos os tradicionais traços literários que Shakespeare usava em textos de auto- ajuda, quanto a isso não há duvidas. Segundo, a versão dita distorcida e alongada do texto, fora escrita sem o menor propósito de má-intenção, a mais ou menos um ano atrás, é de minha autoria, e não passou de uma carta que eu escrevi a uma grande amiga para homenagear uma data especial. Como ele foi parar aí e quem o encaminhou, eu não tenho a menor idéia! Porém é verdade sim que o texto não passa de uma coletânea, eu apenas fiz uma pequena reunião do que eu mais gostava sobre Paulo Coelho, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e outros que a fraca memória não me permite citar agora, com base no texto de Shakespeare, mais alguns resquícios completamente originais de lições de vida,e ficou assim” (Sic).(Camila de Lima)

Desnecessário dizer que a Camila está completamente equivocada quanto a achar sua atitude natural e quanto a autoria que ela diz como certa do Shakespeare. Nada aí é do Bardo inglês, pois ele nunca escreveu textos de autoajuda. Quem não tiver acesso a livros, pode conferir o site que a Betty Vidigal indica como sério na compilação de obras dele: http://www.psrg.cs.usyd.edu.au/~matty/Shakespeare/,

Não são deles...

O belo poema “Por tudo que me deste”, divulgado como escrito por Florbela Espanca, é de autoria do poeta, também português, Carlos Queiróz e foi publicado numa Antologia organizada em Lisboa por Vasco Graça Moura em 2004:

Por tudo que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado.
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!


Já a frase “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”, erroneamente creditada a Henfil, é de Maurício Ceolin. Henfil apenas a leu em público, na época do movimento pela Diretas Já, e a utilizou como epígrafe de um livro seu. Outras flores alvo de confusão estão no poema “No caminho com Maiákovski”, atribuída ao poeta russo, quando, de fato, foi escrito por Eduardo Alves da Costa: “Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada...”.

“Revolução da Alma” – “Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue sua alegria, sua paz sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida” - não é de Aristóteles, mas de Paulo Gaefke, e está no livro Decidi ser Feliz, publicado em 2002. “Solidão”, texto que é repassado com uma foto do Chico Buarque e seu nome impresso, teve a autoria negada por ele. Foi escrito, depois se soube, por Fátima Irene Pinto, publicado em seu livro "Palavras para Entorpecer o Coração" (p.79). O site dela é www.fatimairene.com. Leiamos pelo menos duas estrofes:

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo.
Isso é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar.
Isso é saudade.


A crônica que intitulam na Net como “Mulheres no topo” e/ou “Maçã: “As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore”, bem como o poema “Bons amigos” “Abençoados os que possuem amigos, / os que os têm sem pedir. / Porque amigo não se pede, / não se compra, nem se vende. / Amigo a gente sente! // Benditos os que sofrem por amigos, / os que falam com o olhar. / Porque amigo não se cala, / não questiona, nem se rende./ Amigo a gente entende!" não foram escritos por Machado de Assis, pelo menos, não constam em seus livros.
Mesmo os romances da primeira fase machadiana, seus contos ou crônicas, tampouco seu poemas com resquícios românticos trazem o tom ‘meloso’ dos dois textos. Profundo conhecedor da alma humana, Machado caricaturou a sociedade carioca e, por meio dela, traçou o perfil dos seus contemporâneos de modo geral. Seus enredos provocam profundas reflexões de fatos cotidianos que ressoam como uma advertência. São, pois, apócrifos os dois textos a ele atribuídos, a não ser que o verdadeiro autor apareça para assumi-los.

Vinícius e os ‘falsos amigos’


A gente não faz amigos, reconhece-os. Essa frase é emblemática no mundo virtual. Título de Fotologs, blogs, texto de mensagens e scraps de Orkut, Facebook, slides, postagem de páginas dedicadas a Vinícius de Moraes. Garth Henrichs nunca apareceu para reclamar, afinal quem é ele? Ainda vive? Mas o jornalista Paulo Sant’Ana, autor do texto que circula na internet finalizado pela frase de Henrichs, reivindica a autoria do texto atribuído ao poetinha. Vejamos a crônica:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. /.../
A gente não faz amigos, reconhece-os.


O título que com que aparece no mundo virtual varia: “Amigos”, “Meus Amigos”, ou “Meus Secretos Amigos”. Paula Santa’na, autor do texto a que acrescentaram a frase de Garth Henrichs, recebeu-o por e-mail de um amigo. Conta o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, na edição de 19 de junho de 2002: “O colunista Paulo Sant’Ana recebeu esse e-mail do jornalista Emanuel Mattos no dia de seu aniversário e, para seu espanto, identificou que o texto, assinado por Vinícius de Moraes, é de sua autoria. Surpreso, imediatamente ligou e desfez a confusão. A criação de Sant’Ana já deve ter circulado por muitas caixas de mensagens com a assinatura de Vinícius, sem que ninguém soubesse da troca de autor. Somente, é claro, o próprio Sant’Ana.”

A objetividade das frases e a ausência do lirismo que caracterizam os escritos de Vinícius já serviriam de indícios para que leitor percebesse o equívoco da autoria.
Alguém, em algum momento, decidiu que o texto seria muito mais “significativo” se fosse assinado por Vinícius de Moraes, diz o próprio Paulo. O Vinícius, entretanto, é mais ‘derramado’ e emotivo em suas declarações. Ele não costumava escrever

Tão coerentemente para e aplacador as ansiedades diárias. Sua criação é mais explicitamente cheia de delírios, insensatez e lirismo, mesmo quando ele discorria, em prosa, sobre amizade. É ler “Procura-se um Amigo” para comprovar:

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. /.../


Segundo Betty Vidigal, no dia seguinte ao da publicação da nota reproduzida acima, a seção de cartas do jornal Zero Hora trouxe uma mensagem de um leitor que afirmava que a crônica sobre amizade era de Garth Henrichs, e não de Paulo Sant’Ana. E quem seria Garth Henrichs? Segundo o leitor, “um escritor existencialista”. Vidigal diz, ainda, que tentou localizar o texto em inglês, mas nunca o encontrou. Tentando elucidar o enigma, ela diz “Imagino, então, que tenha acontecido aqui o mesmo que aconteceu com os textos atribuídos a Clarice ou Drummond: algo que apenas terminava com uma citação desses autores acaba sendo impingido a eles na totalidade. Paulo Sant’Ana deve ter encerrado a crônica citando Garth Henrichs, que alguém concluiu ser o autor do texto todo. [Ou algum internauta colou a frase no final, o que é mais provável] Esse engano é compreensível. Mas a única explicação para alguém dizer que Vinícius de Moraes o escreveu é desonestidade intelectual – sabe-se lá com que fim!“
( http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm)

A crônica é, no final das contas, intitulada “Meus Secretos Amigos” (sem o adendo final) e foi publicada no livro "O Gênio Idiota", de Paulo Sant’ana, em 1992. Acerca do assunto, Sant’ana enviou um e-mail aos blogs que pesquisavam a confusa atribuição de autoria, (por Suzete Braun, secretária dele): “"Que Vinicius, nada! Este texto é meu, foi publicado há anos neste espaço de Zero Hora. Faz parte do meu livro O Gênio Idiota. Lembro-me que esta coluna, sob o título de Meus Secretos Amigos, fez tanto sucesso que as pessoas recortavam-na e a colavam nas paredes de suas cozinhas. E incrivelmente o meu amigo Emanuel me mandou o poema como se fosse de Vinicius de Moraes, achando que tinha tudo a ver comigo. Não só tinha a ver comigo como era meu. E está lá na Internet, em página adornada, com excelente desenho ilustrativo, assinado por Vinicius de Moraes, acrescido de um regalito: in Antologia Poética”.



Considerações finais

Alguns escritores são mais constantemente contemplados com essa prática de atribuição e adulteração de textos na internet. De acordo com Marcelo Ferraz, em seu artigo “Entre a falência e a redenção: a polêmica circulação de textos literários na internet”, “esses casos de atribuição falsa são sintomáticos para medirmos a penetração simbólica de certos autores da tradição literária canônica na sua realidade de circulação digital”. Assim, Veríssimo, Quintana, Drummond e Shakespeare, entre outros, continuarão a povoar o imaginário dos que não conseguem criar textos próprios e se ocupam em ‘transmutar’ os que já estão prontos. O imbróglio, acredito, tende a ser amenizado pelo acesso de professores e camadas letradas aos sites de relacionamento, o que possibilita não a patrulha, que não é a intenção, mas a advertência de que a ferramenta da internet está criando, em vez de um espaço para a partilha de conhecimentos no campo da literatura, uma deturpação, uma falsa ideia de que as pessoas estão adquirindo mais cultura e lendo mais. No próximo artigo, mostraremos as falsas atribuições de autoria a Clarice Lispector, Jorge Luis Borges, Charles Chaplin, Victor Hugo, Arnaldo Jabor e Gabriel Garcia Marquez.




Consultar:

ALIBERTI, Rosângela: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=2593
AMAZON: http://www.amazon.com/gp/product/1564767442/104-1833697-3288713?v=gance&n=283155.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
CAIU NA REDE: http://livrocaiunarede.blogspot.com/
ESCOLA FLOR AMARELA: http://www.floramarela.com.br/
ESTADÃO: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/01/18/pol005.html
FERRAZ, Marcelo: http:// www.revistaicarahy.uff.br/revista/html/numeros/1/dliteratura/
GAEFKE, Paulo. Decidi ser Feliz. 2002
LAMPERT, Vanessa. www.autordesconhecido.blogger.com.br/,
MATHIAS MIRTHES. Bom dia amor! Juerp, 1990
MORAES, Vinícius. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=323AZL004
PACHECO, Emiliano: http://emiliopacheco.blogspot.com/2006/07/os-falsos-quintanas.html
POR UM PUNHADO DE PIXELS: http://www.nemonox.com/ppp/archives/2006_03.html
QUINTANA, Mário. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
SANT’ANA, Paulo . O gênio idiota. 1992, ed. Mercado Aberto
SILVA , Mª Julia Paes de. Qual o tempo do cuidado? Edicoes Loyola, 2004, p. 49
REVISTA ÉPOCA: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html
RIBEIRO, José Carlos Queirós Nunes, in MOURA, Vasco Graça (Org). 366 poemas que falam de amor. 2ª. Ed. Quetzal Editores: Lisboa 2004.
RÓNAI, Cora (Org). Caiu na Rede. Agir:
SOUZA, Geraldo Eustáquio: http://www.paracrescer.com.br/pasta_poemas/index_poem.htm
VIDIGAL, Betty. Textos apócrifos na internet: http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm
ZERO HORA: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=capa_online


Aíla Sampaio (para o caderno de cultura do Diário do Nordeste)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Memórias e paixões

O Manauara Milton Hatoum tem quatro romances publicados. Desses, três lhe renderam a maior premiação da literatura brasileita, o Jaboti


JORNAL O POVO - CAderno Vida & Arte - 09 Jan 2010 - 18h36min

Dois Irmãos (2000) seria sua última aposta. A repercussão que teria com o livro, que custou três anos de dedicação exclusiva, diária e em tempo integral, apontaria os rumos dali para frente. O manauara Milton Hatoum, hoje 57 anos, estava prestes a decidir por prosseguir na vida acadêmica, lecionando, ou assumir-se de vez escritor. Era tudo ou nada.

Dez anos depois, Dois Irmãos ocupa as primeiras posições entre as publicações mais importantes nesse começo de anos 2000. Traduzido para mais de 10 línguas, entre elas o árabe e o grego, com mais de 100 mil exemplares vendidos somente no Brasil, o livro permitiu ao escritor viver de literatura. Quando foi publicado no exterior, o livro recebeu destaque em jornais como o britânico The Guardian e o estadunidense The New York Times. E mais: depois de um hiato de uma década sem publicar & o último trabalho é de 1990, o romance Relato de um certo Oriente & foi justamente a obra que provou para Hatoum ser improvável ser feliz fazendo outra coisa. ``Sou muito pessimista, não esperava isso``, confessa, motivado principalmente pela dificuldade de reimpressão do primeiro trabalho, Relato... que, assim como Dois Irmãos e Cinzas do Norte (2005), foram vencedores do Prêmio Jabuti na categoria romance.

Considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira atual, Hatoum recebe com extrema simplicidade a informação que o livro integraria mais uma lista. ``Fico muitíssimo honrado``, agradece. Afirma, ainda, não ter preferência por nenhuma de suas obras, embora admita que a publicação lhe deu ``certo trabalho``. Foram 17 versões até chegar àquela editada pela Companhia das Letras e elogiada por nomes como Raduan Nassar (Lavoura Arcaica, 1975). A característica comum a todas as obras está fortemente relacionada à experiência pessoal. ``Todos os meus livros têm dados autobiográficos, emitem sinais vivos de uma suposta autobiografia. Não gosto de uma literatura artificial, distante da vida``, expõe. ``O livro foi uma história de amor, uma entrega. Paixão é o sol da literatura, é estar sem vida``.

No centro do enredo, o livro acompanha a história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Na mesma casa, localizada em bairro portuário de Manaus, moram Domingas, a empregada da família, e seu filho Nael, um menino cuja infância é moldada pela condição de filho da empregada. Na tentativa de buscar a identidade de seu pai entre os homens da casa, Nael narra os acontecimentos que lá se passam, testemunhando vingança, paixão e relações arriscadas.

É por meio de seu ponto de vista que o leitor entra em contato com Halim, o pai, sempre à espera da decisão mais acertada diante dos abismos familiares; com a desmedida dedicação da esposa Zana ao filho preferido Omar; com o trauma de Yaqub, o filho que, adolescente, foi separado da família; com a relação amorosa entre Rânia e seus irmãos; com a vida simples e cheia de renúncias da mãe Domingas.

A questão da busca pela identidade, aliás, é tema central em Dois Irmãos, em toda a obra de Hatoum e em boa parte da literatura brasileira contemporânea, segundo aponta a professora do Departamento de Literatura da Universidade de Fortaleza (Unifor), Aíla Sampaio. Como um dos romances mais importantes da primeira década do ano 2000, de acordo com a professora, Dois Irmãos contempla um trabalho estético e de potencialidades da língua comum ao trabalho de Hatoum, com a diferença de ser bem mais palatável. ``Ele se aproxima de um público maior sem perder o rigor estético``, pontua. Aíla aponta as sutilezas da obra como seu principal mérito. ``A maioria dos elementos é sugerida. Hatoum não entrega tudo de cara, o livro é um percurso, uma descoberta``, finaliza. (Angélica Feitosa)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nicolas Behr e AS SELETAS LARANJAS DA POESIA de 70




“Se eu tivesse que dizer como gostaria de ler ou escrever um poema nos dias de hoje, não hesitaria: Não adianta colocar o poema num carro alegórico. Todos vão ver o carro alegórico. Eu gosto do estilo claro, limpo, direto. Sem rodeios, às vezes até sem poesia” Nicolas Behr

“Poesia é pra ler com os dentes e mastigar bem. Com os dentes de Dante, aquilo que era poeta. Nós somos apenas bardos. Ai é só engolir, ou deglutir. Ou ruminar. E transitar sossegado entre o gado manso, evitando prêmios e famas. E administrar esse latifúndio literário onde os críticos berram e os leitores pastam”. Nicolas Behr

Introdução

A poesia produzida nos anos 70 é sintética, irreverente, crítica, e revela a inquietação de uma juventude que vivia à margem do sistema editorial do país. Em plena ditadura militar, os poetas vendiam seus poemas impressos em mimeógrafo, livretos artesanais, de bar em bar. A produção literária desse período recebeu várias denominações, entre elas: “poesia jovem dos anos 70”, “poesia marginal” e “poesia mimeógrafo”. Nicolas Behr, remanescente desse grupo (que nunca foi propriamente um grupo) mantém vivo o espírito dessa poética cáustica que constitui o motivo deste ensaio.



O que é ‘poesia marginal’?

Poesia marginal designa a produção poética caracterizada pela experimentação estética, além do abandono, por parte dos poetas, dos meios tradicionais de circulação das obras (editoras, livros, livrarias). A poesia foi levada às praças, às ruas, aos bares e às universidades. Os poemas circulavam em cópias mimeografadas, eram pendurados em "varais", jogados do alto de edifícios, distribuídos de mão em mão. Marcada pelo trabalho artesanal, praticada poetas que queriam se expressar livremente em época de ditadura, essa poética revela o espírito criativo de jovens que buscavam caminhos alternativos para divulgar sua poesia, mesclando, inadvertidamente, técnicas do concretismo e do poema-processo, experiências de vanguardas anteriores, já que defendiam o ‘fim’ do verso convencional e importavam-se com a espacialização e os efeitos visuais. Recebe influências claras do Modernismo de 1922, do Tropicalismo, e de movimentos de contracultura como o rock, o movimento hippie, histórias em quadrinhos e o cinema, sobretudo o cinema novo. Os textos são sempre pautados no senso de humor, na linguagem coloquial, espontânea, e nas temáticas cotidianas e urbanas.

Nicolas e a poesia marginal

A geração que fez a poesia dos anos 70, nos rastos do Tropicalismo, lutava pelo seu espaço e criticava o momento político do Brasil – a Ditadura Militar – que impunha censura à mídia e às artes. Contemporâneo de Chacal, Ana Cristina César, Chico Alvin, Cacaso, Ulisses Tavares e Waly Salomão, Nicolas Behr é, hoje, o representante mais atento dessa turma de poetas que, em diversas partes do Brasil, vivia a mesma realidade de 'exclusão editorial'. Em entrevista à Revista Há Vagas, nos anos 80, Alvin, fazendo um balanço sobre a produção literária da época, diz que “as experiências eram individuais, mas havia um comportamento comum em torno de uma série de problemas vitais”. Acrescenta que é uma poesia bastante realista e que “havia uma total indisponibilidade aos manifestos. Éramos contra as teorias... o movimento nunca chegou a ser organizado, havia, isso sim, uma conspiração de grupos”.
De fato, o jocoso manifesto que surgiu, escrito por Chacal, foi em tom de total irreverência. Ele traduz bem o espírito anárquico que os movia. Além de definir explicitamente o que é ser um poeta marginal – “não correr atrás de padrinhos literários”, “não sentar em fúnebres academias para milhar o biscoitinho” -, institui 11 artigos nos quais constam os direitos deles, entre os quais, a “aposentadoria por tempo indeterminado de serviço” e “abatimento no preço do papel”. Na verdade, o texto desfere ironias às editoras, às academias e à poesia institucionalizada, aos aparatos estéticos. Assim, como uma espécie de ‘sindicato’ para agregar os poetas fora do sistema, ele declara criada a POBRÁS, órgão que lutaria pelos direitos reivindicados. É nesse mesmo tom sarcástico que Behr se apropria da sigla para intitular dois poemas seus igualmente corrosivos:


POBRÁS
- poesia brasileira –
orgulhosamente apresenta
um produto que vai pro lixo:
os poetas
(Laranja seleta p.139)

POBRÁS

- poesia brasileira –
orgulhosamente apresenta
um livrinho que veio do lixo:
este
(Laranja seleta p. 152)


A figura do poeta, como a do livro, é vista por eles como descartável. Nicolas Behr faz esse deboche, mas ‘não larga o osso’, continua criando e distribuindo poesia a mancheias. Ele surgiu na poesia brasileira, em fins dos anos 70, junto aos poetas rotulados de ‘marginais’ por estarem, como dissemos, sem editora para publicar seus livros. Como todos dessa geração de 70, ele imprimia seus poemas em mimeógrafos e os vendia nos bares, nas portas de teatro, em praças públicas ou onde houvesse público para essa produção ‘fora do sistema’. Sua primeira obra apareceu em 1977, quando ele lançou, no Planalto, um livrinho mimeografado intitulado “Iogurte com farinha”. Seguiram-se: “Restos Mortais”, de 1980, que reúne os livros Iogurte com farinha, Grande circular, Caroço de goiaba, Chá com porrada e Bagaço, lançados entre 1977 e 1979; “Vinde a mim as palavrinhas”, de 2005, reúne os livros “Com a boca na botija”, “Perto do dia”, “Elevador de serviço”, “Põe sai nisso!”, “Entre quadras”, “Brasiléia desvairada”, “Saída de emergência”, “Kruh”, “303F415”, “L2 noves fora W3”, lançados entre 1979 e 1980. A criação dos anos noventa aparece em “Porque construí Braxília”, “Beijo de hiena”, “Pelas lanchonetes dos casais felizes”, “Segredo secreto”, “Viver deveria bastar”; vieram depois: “Em Primeira Pessoa”, 2005, “Umbigo”, “Menino diamantino”, “Peregrino do estranho”, “Braxília revisitada”, “ Introdução à dendrolatria” e “Laranja Seleta”, o primeiro por uma editora convencional (a Língua Geral) e, recentemente, “Beije-me”, em produção independente.

A despeito de tudo o que se fala dos jovens poetas de 70, a poesia por eles produzida não foi esvaziada ideologicamente. Embora não se enquadrassem no engajamento político-partidário da poesia produzida nos moldes prescritos pelo Centro de Cultura Popular, da União Nacional dos Estudantes (UNE), durante a década de 60, os textos aproximavam-se da banalidade cotidiana e tornaram-se um instrumento de luta, de reação aos tantos impedimentos e aos ‘quadros de infelicidade’ que cerceavam a vitalidade dos poetas, como afirmou Alvin. Saiu, pela espontaneidade da palavra poética, o grito rebelde de uma juventude podada pela repressão militar, que queria “destoar do coro dos contentes”, como anunciava Torquato; além de fazerem apologia à liberdade de ser e fazer, lançaram críticas ao momento político, eivadas de um sarcasmo às vezes dilacerante:

e eis que
da mão decepada
brotaram dedos
(Laranja seleta p.106 )


quem teve a mão decepada
levante o dedo
(Laranja seleta p.130)

A alusão à tortura é nítida, como nítido parece o poder de resistência dos jovens submetidos involuntariamente à situação. Era a vida o que os interessava. Nicolas Behr, na transversal de todas as questões do seu tempo, ergue ainda uma bandeira ecológica, ao colocar a natureza como um dos motivos constantes de sua criação, não raro por meio de jogos ambíguos, mas sempre bem-humorados. A referência clara aos desmatamentos de Brasília pode, na verdade, subtender bem mais que a desertificação da cidade; é a solidão imposta pelo lugar ermo de calor humano:

corte essa árvore!
ela atrapalha a vista
que tenho do deserto
(Laranja seleta p.117)

Independente de críticas, a relação com a natureza é metaforicamente seu eixo como homem que se desloca numa cidade cujo concreto não pode suplantar o afeto. Não é à toa que a fauna e a flora são elementos recorrentes em seus versos: Flamboyant, pé de manga rosa, borboletas, cupim, flor do pequi, fícus, o que parece um registro de sua mundividência ecológica. A simbiose homem-árvore denota explicitamente o poder do verde em sua vida, como se lê em: dento de mim / vive uma árvore // árvore interior / que me põe de pé // árvore que é quase corpo / quase troco / quase casca // quase nada (Laranja seleta p.106). A árvore é a metáfora do homem que ele é. Ou seria o contrário?

O homem e a cidade

Nascido em Cuiabá em 1958, Nicolas Behr mora em Brasília desde 1974 e lá fez sua trilha pessoal e profissional. Mantendo o estilo sintético, ele ultrapassou o estigma da poesia datada e imprimiu atemporalidade à sua poética, cujas temáticas são, essencialmente, o homem e a cidade. O homem aparece na recuperação do menino que, a Drummond, pinta sua infância: “a mãe campeia dores / que o pai junta no curral / e o menino, bezerro enjeitado, / espera a noite branca / se derramar no úbere do céu / pra mamar a via láctea” (Laranja seleta p.29)

Há, no homem, um menino que resiste à maturidade e que é reconstituído permanentemente. Ele se desdobra no tempo transcorrido, incapaz de ser recriado pela palavra (p.34), mas, ainda assim, se revela em sua multiplicidade inexorável: “velha infância que carrego // bato no peito e pergunto:/ tem alguém aí? // quantos meninos
correm dentro de mim?”(Laranja seleta p.28)

“O anzol da memória”(p.29) é permanente, bem como o perene “garimpar de lembranças”(p.27), seja para descrever a falta de concentração do menino na missa (A missa, p. 30-31), a rebeldia na escola (Ficou bonito o meu desenho, professora? p.32) ou fatos cotidianos que mostram o menino no homem, no jovem que vislumbrava o futuro cheio de planos: “ano que vem eu me caso / ano que vem eu compro um fusca / ano que vem eu termino a faculdade / ano que vem eu vou mudar de vida / e morar no andar de cima” (Laranja seleta, p.119)

A cidade é evocada constantemente, numa relação que demonstra seu deslocamento espacial e existencial entre quadras e blocos, afeto e concreto, numa relação ambígua que ora critica, ora celebra, mas sempre a evoca, tenta entender e definir seu significado: “brasília é a incapacidade / do contato afetivo / entre a laje e o concreto”. Brasília é seu lugar no mundo, lugar de desencontros e desajustes, lugar de
eixos que se cruzam / pessoas que não se encontram (p.89). A ela, ele declara:

brasília, faltam exatos 3232 dias
para o nosso acerto de contas

me deves um poema
te devo um olhar terno
...
não te reconheço
não me reconheces
(Brasília enigmática in: Laranja seleta, p.80)

O descompasso recíproco entre o poeta e a cidade, e a inevitável convivência entre ambos, levam-no a criar, qual Manuel Bandeira, sua ‘Passárgada’. Assim ele explica em “Porque construí Braxília”: “Braxília não, Braxília é sonho. A cidade que cada um de nós pode inventar e construir, sem tijolos e sem dor. A utopia dentro da utopia, como se isso fosse possível. A outra Brasília, a sua, a nossa, a velha, a real, já foi sonho sim. Já foi. Hoje esta cidade são linhas retas que substituímos por linhas sinuosas, barrocas. A imposição da régua substituída pela disposição do traço livre e solto”. De acordo com a análise de Diego Pretarca, “Além de toda a simbologia que a cidade representa, Nicolas alegoriza do seu modo (na expressão Braxília, por exemplo) em sua maneira de se relacionar com a cidade pela ótica atual, desde a promessa de felicidade e a realidade que hoje Brasília apresenta”. Com efeito, essa visão arquitetônica do lugar ideal está na desconstrução do espaço real e na liberdade de fazer a utopia possível: chega de linha reta! Ele mesmo (Nicolas) declara: “Construí Braxília porque Pasárgada fica longe demais. Braxilia é uma cidade não-capital, não-poder, não-Brasília. A utopia dentro da utopia”. Tão presente está a cidade na construção do seu pensamento, que até a musa é cantada nos moldes e traços do Planalto, como se lê em “Vozes do cerrado” (p.70):

naquela noite
suzana estava
mais w3
do que nunca
toda eixosa
cheia de l2

suzana,
vai ser superquadra
assim lá na minha cama.



Os seletos diálogos

“Laranja Seleta” (2007), a coletânea de que venho falando até agora, marca os 30 anos de criação de Nicolas Behr, fazendo uma síntese da sua criação poética. Chico Alvim, na orelha do livro, diz que “Há muitas entradas e saídas na poesia de Nicolas Behr. Como se trata de uma poesia em que a noção de movimento, de lugar de onde parte o autor em direção ao mundo, e de seu próprio caminhar é fundamental, essa ideia de situações em movimento, que se fecham e se abrem para o poeta, está muito presente”. De fato, a noção de movimento espacial e temporal é nítida e parece traduzir a inquietude de um indivíduo em permanente transição.
A obra é representativa da trajetória do poeta que, embora mantendo o estilo aparentemente simples e prosaico da geração mimeógrafo, não tem soluções formais estagnadas, dispensa o anacronismo. Além de evocar a cidade e o homem, seus textos refletem, muitas vezes, o processo criador e dialogam constantemente com textos modernistas, reafirmando o legado da poesia deles aos poetas de 70. A linguagem coloquial e os temas banais, a poesia breve, nenhuma dessas características tornam-nos originais. O que singulariza essa poética é exatamente a atitude de "desengravatar" a poesia e levá-la às ruas, às praças, às praias, aos bares, às universidades. No ambiente ambíguo de contracultura que se impunha nos grandes centros urbanos, a poesia marginal surge com a intenção de contestar, fosse pelo ““desbunde”, pelo palavrão, pela apologia do lado sórdido da vida ... Daí ser chamada também de “lixeratura”, a literatura do lixo, da sujeira”, como afirmou Nely Novaes. A juventude da época, tendo as mesmas aspirações, os mesmos anseios e frustrações, identificou-se com a forma simples e ao mesmo tempo arrojada como enfrentavam os padrões estabelecidos.

Nicolas viveu intensamente essa realidade e sempre adotou um comportamento ousado tanto em relação à vida quanto aos textos que produzia, todos eivados por posturas iconoclastas e demolidoras. Criativo e seguro do seu estilo, manteve-se fiel à poética sem compromisso com discursos elaborados e estéticas convencionais. Poucos dos seus poemas trazem títulos e nenhum utiliza a letra inicial maiúscula quando ‘exigida’ pela gramática, o que reitera a postura de vanguarda de não estabelecer hierarquia entre as palavras.


Os intertextos

A intertextualidade é, também, um recurso recorrente na produção poética dos poetas de 70, sobretudo a paráfrase e paródia, diálogos que, respectivamente, retomam e subvertem o sentido do texto base. Behr faz, constantemente, releituras de poemas emblemáticos da nossa literatura, como ocorre na clara alusão ao anjo gauche, do “Poema de sete faces”, de Drummond, que se transveste em árvore:

quando eu nasci uma árvore torta
dessas que vive no cerrado
chegou pra mim
e não disse nada

não havia nada a dizer
não havia nada a salvar
(Laranja seleta p.118)

Já em “Drummond brasiliensis” (p.96), é o poema “José” (de Drummond), o texto base da criação de Behr. O eu-poético usa sua voz, com toques irônicos, para clamar por saídas, mas todas se revelam improváveis:

“Brasília, e agora?
Com o avião na pista quer levantar vôo
Não existe vôo
Quer se afogar no Paranoá mas o lago secou
Quer falar com o presidente mas este viajou...”.

“Política literária” (p.59) pede licença, também a Drummond (com licença, Carlos), para parodiar o poema homônimo:
“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz”.

O poeta de Behr, entretanto, “tira lama do sapato” em vez de ouro, o que demonstra certo sarcasmo em relação ao poeta tradicional e à irreverência do poeta descompromissado com tendências tradicionais. Em “O horror, o horror” (Laranja seleta p. 162 ), o poema-notícia tem o mesmo prosaísmo do “Poema retirado de jornal”, de Manuel Bandeira, numa recriação da linguagem jornalística que aproxima o leitor do texto poético tanto pela ausência de formalidade no uso da língua quanto pela simplicidade temática:

“como, depois de ler nos jornais a notícia
da morte do menino que foi torturado
com óleo quente para revelar o paradeiro
do pai, escrever um poema?

como se olhar no espelho?
como dividir com vocês todos
esse ar que respiramos?
como ficar indiferente e passar à próxima página?
como sair na rua e desejar bom-dia
aos que passam?
como continuar vivendo?
E as releituras se desdobram em recriações não apenas de textos de poetas modernistas. Em “Vozes do cerrado”, o diálogo se dá com “Vozes d’África”, de Castro Alves. A evocação da cidade, o clamor para que ela se revele, é feito nos moldes em que o poeta romântico evocou Deus para mostrar a atrocidade do tráfico de escravos nos navios negreiros: “brasília! brasília! / onde estás / que não respondes? / em que bloco / em que superquadra / tu te escondes?”. (Laranja seleta p.70)
Caetano Veloso, ícone do movimento Tropicália, esteio dos poetas da geração mimeógrafo, tem seu discurso incorporado na paráfrase da canção “Sampa”. Enquanto o baiano canta sua emoção ao “cruzar a Ipiranga e a avenida São João”, Behr, mais uma vez, revela sua relação ambígua com Brasília: ao mesmo tempo em que a considera um deserto, confessa-se emocionado ao atravessar suas quadras: “alguma coisa acontece / no meu coração / que só quando cruzo / a w3 l2 sul / ou eixão”. (Laranja seleta p.71)
Em “Capim Navalha” (p.121), a confissão do eu-lírico sobre sua própria existência é feita por meio de um quádruplo diálogo. Primeiro, com o “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Comparemos os versos:

“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo...”
(Álvaro de Campos)

“eu, irrecuperavelmente eu
desgraçadamente eu
irrecuperavelmente eu”
(1ª estrofe do poema de Behr in Laranja Seleta)

Depois, o diálogo ocorre com “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro (outro heterônimo de Fernando Pessoa), com o “Poema de sete faces”, de Drummond, também parodiado por Adélia Prado em “Com licença poética”. Leiamos um fragmento dos três e mais a 2ª estrofe do poema de Behr:

“Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar”.
(Alberto Caeiro)

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”.
(Drummond)

“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada”.
(Adélia Prado)

“eu, o guardador de rebanhos alheios
eu, que não consegui escrever
o poema em linha reta
eu, o anjo torto dos outros
eu, a sua adélia prado”
(Nicolas Behr)

Nessa miscelânea de textos que se intercalam na poesia de Behr, nota-se a capacidade da assimilação de suas leituras de poetas tradicionais, distintos de vanguardas, e a influência que exerceram e exercem em sua poética. Todos os textos parafraseados servem-lhe de base para discutir seu próprio processo criador desprovido de pretensões de originalidade ou da prepotência de ter (ou querer ter) escrito uma obra prima.

Finalmente, um beijo em Brasília


O livro “Beije-me”, lançado recentemente, reafirma a relação do poeta com a cidade de concreto, que foi cenário não apenas de uma ditadura que podou a criação artística, como já afirmamos, mas de uma juventude que resistiu aos desencantos da censura e do concreto armado, criou alternativas para se manter viva e, metaforicamente, ‘arborizou’ Brasília, para que nela se pudesse respirar.

“Beije-me” é um álbum estilizado, impresso em papel couché, com fotos da capital federal ainda nascente. Nicolas cola sua história à da cidade que o viu ‘adolescer’ e transformar-se num adulto. Como ele mesmo diz, “são instantâneos de uma geração brasiliense que ousou descer dos blocos e assumir Brasília na passagem dos anos 70 para os 80. Flashes de uma moçada alegre, rebelde, criativa e roqueira”.

Esse filtro, que só o tempo concede, faz com que vejamos, através das fotos por ele selecionadas, uma forte resistência à solidão da cidade, literalmente construída, arquitetada para ser o centro do poder; jovens andam em busca do espaço para ser e fazer poesia, sob a trilha sonora de um Caetano que bradava “Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento... eu vou”. Diferente, porém, quando retomamos as palavras de Jean-Paul Sartre, incluídas por Caetano na letra, eles sempre levavam algo no bolso ou nas mãos: fosse um spray para grafitar muros, canetas para escrever em guardanapos, álcool e tinta para o mimeógrafo.

Parte do acervo iconográfico de Behr são fotografias de muros e paredes grafitados com frases que revelam bem o espírito da moçada: “Viva a arte em 80”, “Leia poesia”, “A poesia passou por aqui”, “ouvira a vaia do vento”, “Sei tua sede, parede”, “As paredes tem boca”, Vamu nessa Vanessa”, “Cadê você?”. Eros, personagem ativo nessas inscrições, a revelar a liberação sexual, talvez, faz questão de deixar sua marca nos muros, em cima de pichações já feitas: “Eros esteve aqui”. Muitas revelam protestos: “Brasil canalha”, “Terrorista é a ditadura, que mata e censura”, “Figueiredo é...”. “Aos militares: a forca/Aos perdedores: o medo/ Aos vencedores: o nada”. Outras mostram a busca por um horizonte mais ameno: “esperança, cadê você?”, “Esperamos por uma aurora”. O poema “Te amo 24 horas por segundo”, de autoria do Nicolas, aparece inteiro escrito num muro. No final da obra, há textos sobre a grafitagem, opiniões distintas sobre as inscrições nos muros que, nesse período, não constituiu um protesto vazio.

A esse recorte de memória, somam-se imagens de cartazes, panfletos, livros, disco de vinil e fitas cassetes, máquina datilografia, mimeógrafo, papel ofício... registros de uma vida devotada à arte da escrita, mesmo quando o que restava, diante da censura, era escrever o “que desse na telha”: Há foto de telha com inscrições poéticas, forma que Behr encontrou para reproduzir seu pensamento, na falta de permissão que eles chegassem ao papel.

Anos de chumbo, anos loucos, louca juventude, poesia irreverente. O que permitiria mais a época? ironia, despretensão, imediatismo, despojamento, desejo de síntese. A linguagem coloquial e eivada de pessoalidade possibilita o diálogo direto entre poeta e leitor. Nicolas sobreviveu e conta a história.



Bibliografia


ALVIN, Chico. Entrevista à Revista Há Vagas N.1. Brasília, 1983.
BEHR, Nicolas. “Brasília ou Braxília? Qual utopia inspira mais?”
Disponível em: http://www.nicolasbehr.com.br/
BEHR, Nicolas. Laranja Seleta. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007
BEHR, Nicolas. Beije-me. Brasília, 2009
BOSI, Alfredo. Cultura brasileira Temas e situações. São Paulo: Ática, 1987
CAMPEDELLI, Samira Youssef . Poesia Marginal dos Anos 70. Scipione, 1995
COELHO, Nelly Novaes http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/P/poesia_marginal.htm
HOLLANDA, Heloísa Buarque. 26 poetas hoje. São Paulo, Aeroplano, 1976.
HOLANDA, Heloísa Buarque ET alii. Poesia Jovem – anos 70. São Paulo: Abril Educação, 1982
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época: poesia marginal dos anos 70. Rio de Janeiro, Funarte, 1981


Leia mais sobre Nicolas:

FURIATI, Gilda. Brasília na poesia de Nicolas Behr: idealização, utopia e crítica. Brasília. Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira. Universidade de Brasília, 2007.
MARCELO, Carlos. Nicolas Behr – Eu engoli Brasília. Brasília. Edição do Autor, 2004. Coleção Brasilienses, v.1.
PINTO, José Roberto de Almeida. Poesia de Brasília: Duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2003


PALAVRAS DA CRÍTICA:

“A poesia de Nicolas Behr parece espontânea e simples. Nem tanto. “Achados” depois de muito rebuscar, de muito caminhar... como os artefatos do Nicanor Parra que, ao perseguir o simples e o banal, é tão sofisticado...coloquial na aparência, mas cru e sarcástico no fundo, leve e breve mas nunca simplório nos melhores momentos.” ANTONIO MIRANDA
******************************************************************


“Há muitas entradas e saídas na poesia de Nicolas Behr. Como se trata de uma poesia em que a noção de movimento, de lugar de onde parte o autor em direção ao mundo, e de seu próprio caminhar é fundamental, essa idéia de situações em movimento, que se fecham e se abrem para o poeta, está muito presente.
A poesia de Nicolas, para mim, é a poesia do homem que se move, do homem em travessia, que sai de um ponto em direção a outro. Num certo sentido é uma poesia da geometria do caminhar, de um traçado que se torna aparente na luz do movimento.
Nesse ir e vir, a poesia de um homem que se pensa, que se busca e estabelece uma interlocução permanente e desesperada com o espaço imediato e contígûo- a cidade, no caso Brasília, a qual retrata, de modo intermitente, o real em sua pseudo-aparência ou verdade, espelho em que este homem procura o contorno de si. (...)” FRANCISCO ALVIN

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“Uma característica singular de Nicolas é a referência à cidade de Brasília, onde mora até hoje embora tenha nascido em Cuiabá, como algo constante em sua produção. Na poesia de Nicolas Behr Brasília é quase um signo, um ideal temático. Os livros "Brasiléia desvairada", de 1979, "Porque construí Braxília", de 1993, são exemplos disso, a ponto de terem gerado a coletânea "Poesília – Poesia Pau-Brasília", de 2002. A cidade de Brasília criou uma categoria na poesia de Nicolas e também na poesia brasileira contemporânea, afinal Nicolas inaugura uma abordagem consistente sobre a cidade fabricada e hoje a capital do País”. DIEGO PETRARCA
NICOLAS BEHR

Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Cursou o primário com os padres jesuítas, em Diamantino, MT, onde os pais eram fazendeiros. Mudou-se para a capital aos 10 anos e queria ser geólogo. Mora em Brasília desde 1974. Em 1977 lançou seu primeiro livrinho e best seller Iogurte com Farinha, em mimeógrafo, tendo vendido 8.000 exemplares de mão-em-mão. Em agosto de 1978, após ter escrito Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada foi preso e processado pelo DOPS por “porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Até 1980 publicou ainda 10 livrinhos mimeografados. A partir desse ano passou a trabalhar como redator em agências de publicidade. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília, a primeira ONG ambientalista do DF. Em 1986 abandonou a publicidade para trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró- Natureza – onde ficou até 1990, dedicando-se, desde então, profissionalmente, ao seu antigo hobby: produção de mudas de espécies nativas do cerrado. Coautor do livro Palmeiras no Brasil. A partir de 1993 voltou a publicar seus livros de poesia, com Porque Construí Braxília. É sócio-proprietário da Pau Brasília Viveiro Eco.loja, casado desde 1986, com Alcina Ramalho e tem três filhos: Erik, Klaus e Max. Seu perfil biográfico foi traçado no vol. 1 da Coleção Brasilienses, no livro Nicolas Behr - Eu engoli Brasília escrito por Carlos Marcelo, lançado em 2004.

26 poetas hoje, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda
A antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, foi lançada em 1976, é uma coletânea da chamada "poesia marginal dos anos 70". Na época do seu lançamento, o livro causou polêmica e recebeu muitas críticas, inclusive da Academia Brasileira de Letras, por exemplo, não conseguia ver nada além de um simples valor "sociológico" naqueles "sujos" e "pornográficos" versos produzidos por ilustres desconhecidos. O livro 26 Poetas Hoje abriu as portas do mercado editorial para a maioria dos que participaram da antologia.


UM DOS POEMAS MAIS CONHECIDOS DE NICOLAS:

RECEITA

Ingredientes
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções do beatles

Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos 2 litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças
perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os
sonhos eróticos mas desta vez
deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver

parte do sangue pode ser
substituído por suco de
groselha mas os resultados
não serão os mesmos

sirva o poema simples ou com
ilusões
(Laranja seleta p. 132 )

domingo, 21 de junho de 2009

DIÁRIO DO NORDESTE - CADERNO DE CULTURA


Lya Luft uma das vozes mais expressas da ficção contemporânea (Foto: REPRODUÇÃO)


Cultura
Ensaio
Desajuste familiar nos romances de Lya Luft
AÍLA SAMPAIO
Colaboradora*
Professora da Unifor





Nas narrativas de Lya Luft, a família aparece sempre inserida em uma estrutura desajustada, pela impotência diante dos problemas, que leva a personagem a fugir de suas responsabilidades; pela morte dos pais; pela loucura de um ente familiar ou por traumas ocorridos na infância. Tal fato se dá como gerado por um determinismo: filhos de famílias desajustadas formarão famílias também desajustadas, vivenciarão relações fadadas ao fracasso e não se realizarão afetivamente. A leitura de tal aspecto é o motivo centro dessa edição.

Assim, mães morrem cedo ou são indiferentes às suas crias, pais se eximem de seu papel ou o desempenham de forma repressiva, de modo que se percebe a necessidade de um ser estranho ou agregado à estrutura familiar, que estará presente para desempenhar o papel que caberia aos pais. É o caso da Governanta Fäulen, de ´As parceiras´, que cuida das três filhas de Catarina Von Sassen, assumindo o papel de pai e mãe, já que Catarina, isolada no sótão por não se ajustar às responsabilidades impostas pelo casamento, decide criar o seu próprio mundo e dele exclui suas quatro filhas: Beatriz (Beata), Dora, Norma e Sibila. Ela [Fäulen] ´Deu às meninas uma ilusão de família, apesar do pai ausente e da mãe enferma´. (AP. p.20) O Pai (avô da narradora), um homem bruto e rude que violentara a inocente Catarina na noite de núpcias, e em visitas esporádicas à sua ´torre´, levou-a à loucura Ele aparece apenas como protagonista do ato que traumatizaria a jovem alemã, casada conveniente pela mãe aos 14 anos. Anelise e Vânia (filhas de Norma, neta de Catarina), como atendendo a um determinismo, perdem os pais muito cedo e são criadas pela tia Beata.

Estranhamento
´A asa esquerda do anjo´ se baseia no cotidiano dos descendentes de alemães de Santa Cruz do Sul. Gisela, ou Guisela, como a chama a avó, é quem conta a história de sua família, seus segredos (escondidos metaforicamente em uma portinha no porão), as mortes dolorosas e fala sobre o anjo que guarda o mausoléu dos Wolf, sobre os anseios e as culpa que a impedem de viver uma relação amorosa. A avó alemã, Frau Wolf, mantém filhos e netos sob seu comando e não perdoa a neta Anemarie, a sua predileta, quando foge com o marido da tia. Gisela sente-se excluída e não sabe conviver com o autoritarismo da matriarca da família, que, inclusive, vê a nora, mãe de Gisela, como uma intrusa na família. Depois de adulta, Gisela refaz sua trajetória em busca de sua identidade. É uma mulher sozinha, incapaz de conduzir um relacionamento amoroso.

Em ´Reunião de família´, os filhos pouco sabem sobre a mãe, a não ser que morreu bem jovem e que recomendou à empregada Berta para que nunca os abandonasse. O Pai, também sem nome, é um velho professor autoritário e retrógrado, indiferente ao crescimento dos filhos e às suas carências; pelo contrário, sua autoridade repressora é razão da maioria dos traumas de todos eles: Alice, Renato e Evelyn, numa relação que se alicerça na simples obrigação, sem qualquer liame afetivo. Berta, a empregada que sequer recebe salário, dedica sua vida àquele lar e desenvolve um ódio macerado do patrão. É ela quem detém o mistério da morte precoce da patroa.

Dois quadros
Em ´O quarto fechado´, Renata é uma mãe impotente diante dos problemas dos filhos, sobretudo porque os gêmeos Camilo e Carolina são crianças totalmente diferentes das outras. É Mamãe, a madrasta de seu ex-marido, avó postiça, portanto, das crianças, quem realmente se preocupa e cuida delas.

Já ´A sentinela´ traz uma família formada pelo pai, Mateus; a mãe, Elsa; a filha mais velha, Lilith; a filha mais nova, Nora, e Olga, que é filha de Mateus antes do casamento. Como Elsa rejeita completamente Nora, é Olga quem a orienta, quem a socorre nos momentos difíceis, já que Mateus, embora lhe tenha afeto, fica sempre do lado da esposa. Nora, quando adulta, sufoca o filho Henrique, pecando por excesso de amor, tentando dar a ele o que não teve. É que, para ela, a família não deveria ser a raiz de todos os problemas, mas ´o lugar onde a gente devia se sentir bem, entendido e amado até naquilo que os outros não aceitam, nem sequer entendem´. (p. 109) ´O ponto cego´ (1999) constrói toda a problemática familiar pela ótica de um menino de sete anos que se recusa a crescer, com medo de ficar igual aos adultos, perdendo evidentemente a própria perspectiva. A infância é ainda a sua única proteção. O Menino sem nome é também uma criança diferente, curiosa, perscrutadora e adulta, com uma percepção demais aguçada. É rejeitado pelo pai e superprotegido pela mãe, até o momento em que ela, uma mulher anulada pelo autoritarismo do marido, decide dizer ´sim´ à própria vida e vai embora sem explicação.

Sob um novo olhar
O menino passa, então, a ser cuidado pelas Tias do pai, já que a irmã é indiferente à sua fragilidade: ´As tias vinham todo dia cuidar de mim, me enchiam de agrados, me consolavam - me fazia bem chorar escutando seus passinhos ao redor da cama: alguém se importava, alguém cuidava de mim outra vez. Mas não era a mesma coisa, não era o mesmo colo, não eram o perfume e a bondade dela´. (PC p. 149) O modelo de família é praticamente o mesmo em todos os romances. Como comenta Batista (2007), todos ´mostram o casamento e o contexto familiar como motivadores dos traumas, da loucura, morte e perdas das mulheres. O patriarcado, mesmo fragilizado, ainda dita as regras, e a única opção que se oferece a essas personagens em crise é a aceitação do jogo, a acomodação aos papéis impostos. Ou, na maioria dos casos, resta-lhes a morte ou a loucura.


FIQUE POR DENTRO

Recursos de intratextualidade
É característica marcante nos romances de Lya Luft a recorrência a cenas, situações ou temas que já apareceram em outras obras suas. Seja através de referência a personagens anteriores ou pelo delineamento de posturas idênticas; seja pelas patologias comuns ou pela força de determinismos, a verdade é que os personagens se irmanam na fragilidade, no desajuste emocional, na carência afetiva, na sexualidade ambígua, mal resolvida, na dor de perdas insubstituíveis, na orfandade, no instinto de autoritarismo ou violência, enfim, se unem por um laço único que enreda toda sua ficção. Sobre o tema central de suas narrativas, ela diz: ´A família - da qual incansavelmente escrevo, por conhecer a sua importância e saborear o seu encanto - nos apresenta ternas armadilhas. É lá, sobretudo, que ainda, neste novo século, se cultiva a árvore da culpa e da indecisão´. (HT p.83). A escolha consciente da instituição familiar como centro de sua criação leva-a a um mundo de desajustes, incompreensões, dramas e fatalidades que acaba por traçar um retrato desolador da família contemporânea, motivo desse ensaio.

Insegura autoridade masculina

A Selva de 1943. Guache sobre papel, montado em tela, a 239 cm X 239 cm. Museum of Moderm Art, Nova York (Foto: REPRODUÇÂO)
Embora as narrativas de Lya Luft centralizem a figura da mulher, o homem não aparece como mero coadjuvante; desempenha papéis de relevo, seja como marido submisso, que para resguardar a infantilidade da mulher, negligencia e até fica contra os próprios filhos (´Exílio´, ´As parceiras´, ´A sentinela´), seja pelo autoritarismo (´Reunião de família´, ´O ponto cego´). A própria autora, tecendo comentários sobre os seus personagens em ´Rio do meio´, confessa sua opinião sobre o sexo masculino, mas não se isenta de identificar esses seus seres fictícios como pessoas solitárias: (Texto I)

O ponto de partida
Na primeira obra (´As parceiras´), se sobressai a figura do Avô da narradora, inicialmente, um viril trintão, compulsivo por sexo, que se casa com uma moça de 14 anos. Mesmo após sair de casa, visto que a esposa, com aversão aos seus assédios se recolhera louca no sótão, ele a visita e a violenta quando então tem vontade: ( Texto II)

O pai de Anelise, a narradora, é um médico que vive em função de Norma, sua frágil e ameninada esposa, de quem ele nada cobra em relação às filhas: (Texto III)

Já o marido de Vânia, irmã da narradora, impõe como condição para o casamento a renúncia da então noiva à maternidade, haja vista que não deseja fazer perdurar a ´raiz podre´ daquela família. Vânia aceita a imposição e se submete às vontades do marido.

A trilha do conflito
Em ´Reunião de família´ é o Professor a figura preponderante. Autoritário e violento, ele, além de não dar amor aos filhos órfãos, maltrata-os: (Texto IV)

O velho é odiado, inclusive, pela empregada, que até o responsabiliza pela morte precoce da patroa: (Texto V) Já Renato aceita passivamente o temperamento de Aretusa, e Bruno alimenta a quase-demência de Evelyn, após a perda do filho.

O ícone da solidão
Martin, de ´O quarto fechado´, é um marido impotente diante da inadaptação de Renata à vida matrimonial e aceita a separação, sem questionamentos. É o personagem masculino mais solitário da ficção de Lya. Não houve possibilidade de ele realizar-se com sua quase-irmã Ella e, com Renata, jamais teve uma estrutura familiar normal: os gêmeos eram crianças diferentes, a mulher não sabia ser esposa nem mãe, o filho Gabriel morreu bebê ainda.

O pai, de ´Exílio´, remete ao pai da narradora de ´As parceiras´. Vive em função da mulher alcóolatra e, além de deixar os dois filhos em segundo plano, pede que eles compreendam a fragilidade da mãe, que acaba por suicidar-se e desestruturar toda a família. Na mesma obra, temos a figura de um homem forte corporificada no amante da médica, um viúvo que cuida pessoalmente do filho excepcional. Esse é, talvez, o mais forte personagem masculino de Lya Luft, sobre o qual ela mesma, a escritora, comenta em ´Rio do meio´: (Texto VI)

Em ´A Sentinela´, Mateus retoma o estilo submisso à esposa e vive em função de Elsa, inclusive compactuando de sua rejeição à filha Nora. João, amante de Nora, é insubmisso, mas se fragiliza diante dos problemas vividos pela filha, consumidora de drogas.

O Pai de ´O ponto cego´ é extremamente dominador. Embora administre os bens da esposa, é ele quem dita as regras e a mantém submissa aos seus caprichos e também a sua infidelidade: (Texto VII)

Embora o pai constitua um contra-modelo para o filho, que, em função disso, se recusa a crescer, e se apresente no decorrer da narrativa como um homem temido, quando sua esposa vai embora, ele mostra suas fraquezas, rapidamente, assim, então, percebidas pelo menino: (Texto VIII)

Submissão e insubmissão
Na obra ´Histórias do tempo´, no capítulo ´Histórias de Perdas & Ganhos´, a narradora fala de uma reunião com um grupo de homens ´de quarenta a sessenta anos, bem sucedidos na profissão´, a fim de debater maturidade, perdas e ganhos. Ela diz se surpreender com os medos, os desejos e as inseguranças, dores e aflições também vivenciados por eles. Lya toca na fragilidade masculina do homem que se sente isolado dentro da família, cujos maiores espaços são da mãe e dos filhos na ótica deles.

As relações familiares estão sempre pautadas em relações de submissão ou insubmissão, como se a forma de convivência dependesse de um elemento dominador e de outro dominado, numa total ausência de equilíbrio. Isso se evidencia tanto no ângulo feminino como no masculino, quando a submissão aparece representada dentro de um contexto de ´aceitação´. A personagem feminina submissa aceita sua condição, na maioria das vezes, por não ter opção ou por prender-se a algum valor, embora demonstre, em sua aparente postura acomodada, indícios de insatisfação. Já o homem submisso o é naturalmente, por devoção, sem qualquer necessidade de libertar-se. O certo é que, na obra de Lya, ´Numa relação há sempre um que se curva e outro que comanda´, como diz, ainda lúcida, a Avó de ´O ponto cego´ (p.75) à sua filha.

´A asa esquerda do anjo´ mostra na avó o desenho do autoritarismo. Todos vivem à sua sombra, embora morando no Brasil, seguindo seus preceitos alemães. Gisela, sua neta, não se acostuma à postura submissa da mãe, e vive dividida entre a obrigação de seguir as rígidas normas da educação alemã e a vontade de ser como as outras crianças. Sua mãe não tem força para optar pela educação da filha. Assim, a menina cresce sob a censura da avó e à sombra da prima, a ´preferida e perfeita´ Anemarie, a única a romper o cerco opressivo.

Alice, a narradora de ´Reunião de família´ (1982), ao afastar-se da casa em que vive com o marido e os filhos, para reunir-se com os irmãos e o pai, demonstra explicitamente sentir falta de seus afazeres domésticos e não se desliga da rotina de sua casa.

Admite sua dependência emocional do marido autoritário e sucumbe a suas vontades próprias para não contrariá-lo. Seu marido representa uma espécie de ´salvador da pátria´, que a libertou da rudeza do pai. Ela até os compara para mostrar que o marido, embora com todos os defeitos, é bem melhor que seu genitor, consoante o trecho: (Texto IX)

TRECHOS

TEXTO I

´... todos os homens que inventei, paridos da minha fantasia, sólidos ou frágeis, grosseiros ou machucados, vitoriosos ou traídos... sempre os achei solitários, embora não me fossem apresentados como espécimes muito confiáveis. Desde criança ouço falar pouco confiáveis. Desde criança ouço falar pouco bem deles. (RM p.71) /.../ escrevo muito sobre a solidão dos homens - que é também a solidão de suas mulheres´. (RM p. 73)


TEXTO II

´O marido desistiu de lhe ensinar a arte dos bordéis, preferindo teúdas e manteúdas àquela adolescente que já lhe provocava mais arrepios de medo do que de desejo. Mudou-se para uma de suas fazendas, no casarão aparecia apenas como visitante temido. Minha avó ficou meio esquecida com as empregadas e uma governanta. Quando o marido irrompia naquela falsa tranqüilidade, não deixava de procurar a mulher. Dava um jeito de abrirem o sótão, e, entre gritos e escândalo, emprenhava Catarina outra vez´. (AP p. 15)

TEXTO III

´Nossa família era isso: os pais, felizes e alheados, falavam conosco, nos levavam para a praia nos verões. Papai indagava da escola, mas não éramos nós sua verdadeira preocupação: era mamãe. Pensei que se amavam demais, o resto do mundo não interessava...´ (AP p.28).

TEXTO IV

´No banheiro Renato foi obrigado a se ajoelhar; achei grotesco alguém pedir perdão de joelhos por urinar fora do vaso... Sujou? Agora limpe com a língua... o pai então pressionou-o com a mão poderosa e ossuda até esfregar o seu rosto no chão. (p.36) /.../ Nunca deixei de ter medo do meu pai. Acho que todos temos. A um gesto seu, mais brusco, afastamos instintivamente a cabeça, como para fugir daqueles tapas de antigamente. Pois apanhávamos até na frente de nossos amigos... Nossos castigos eram constantes e cruéis: tapas, surras, horas sentados quietos sem licença de levantar nem para beber água´. (p.35)

TEXTO V

´Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara nomijo do chão, lembra? ... Naquela ocasião Berta me contou que minha mãe morreu de desgosto, de solidão. Muitas pessoas comentavam isso, para ela o senhor também foi um carrasco. p.84... Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós, porque o senhor não tinha coração. Ela falou: ´O pai deles não tem coração´. (p.85.

TEXTO VI

´Há um personagem masculino que abordei com especial reverência. Aquele que chamei pater dolorosus, cumprindo uma paternidade pouco conhecida: segurando nos braços seu filho adolescente pouco mais que um vegetal, alimentava-o pacientemente com uma colher, limpando-lhe do queixo o mingau que escorria, enquanto os pobres olhos desarticulados o contemplavam em muda - e terrível - devoção. /.../ Não sei se voltarei a sentir a pungência que me varava cada vez que eu via com meu olhar interior, e descrevia, esse homem de uma tal grandeza. Não digam que em meus livros os homens são uns fracos´. (RM p.97)

TEXTO VII

´A vida não é fácil ao lado de meu Pai, aquele olho azul sempre avaliando e despachando. /.../ Meu pai é controlador. Sabe e vê tudo, pesa, corta e divide. Mas o meu pensamento ele não consegue regular. Ele decide a existência de minha Mãe, mas não poderá impedir sua mirada. Prevê as vitórias de minha irmã, mas não escreverá todo o destino dela´ (PC p. 47)

TEXTO VIII

´Só depois que tudo aconteceu e que essa história foi desenrolada até quase o final, compreendi que sua insegurança o fazia agir assim; por medo queria conformar as coisas todas segundo sua vontade. /.../ (Meu pai também carregava a sua dor)´ (PC p. 23)

TEXTO IX

´Aos dezoito anos casei e fui construir a minha vida com aquele que fora meu primeiro namorado. Um rapaz quieto e bondoso, muito menos severo e exigente do que meu pai. Desisti dos planos de estudar, resolvi ser uma boa dona de casa´ (p.35) /.../ Por sorte, casei-me com um homem menos exigente,que não é severo; apenas um pouco distante. Fico feliz quando noto que está contente comigo´. (p.20). (Num tom confessional.)

Carência afetiva dos filhos

Conto de Fada 1944. Óleo sobre tela. 152 cm X 92 cm. Coleção particular (Foto: REPRODUÇÂO)
É praticamente regra geral na obra de Lya a referência dos filhos aos pais, como negligentes, distantes, desapegados ou violentos. Todos, invariavelmente, apresentam sequelas dessa ausência, sejam ocasionadas pela fragilidade, pelo descaso ou pela morte da mãe; sejam provocadas pelo excesso de apego do pai à esposa, sejam pelo autoritarismo ou pelo desprezo. Leiamos, então, as palavras de Anelise, filha de Norma, a frágil filha de Catarina (´As parceiras´): (Texto X)

As marcas da infância
Gisela, de ´A asa esquerda do anjo´ tem a infância marcada pela rigidez da avó, que lhe impõe uma educação alemã, quando sua alma brasileira clama pela liberdade de ser criança. Sua mãe não é capaz de se rebelar e mantém a situação para não contrariar a sogra. Na fase adulta, Gisela revela-se uma pessoa extremamente mal resolvida.

Alice, a narradora de ´Reunião de Família´, registra a falta que fez a mãe morta tão cedo e mostra a indiferença e o desapego da pai: (Texto XI)

Ausência e carência
Em ´A sentinela´, a carência da personagem Nora é tanta que ela chega a pensar que seria melhor ter morrido no lugar da irmã, só para chamar atenção. A extrema atenção dada ao seu filho, Henrique, é um processo de transferência fruto da ausência da figura materna ´como mãe enquanto matriz, enquanto ser que gera e acolhe o filho´. A forma como Nora recebe o único bolo de chocolate mandado pela mãe, enquanto estava no internato, denuncia a necessidade do afeto materno.

Após ouvir da mãe que sempre foi uma intrusa em sua vida, ela conversa com Olga, a irmã por parte de pai e tem a seguinte avaliação (Texto XII)

Zona de conflito
O Menino de ´O ponto cego´, que se sentia rejeitado pelo pai, mas superprotegido pela mãe, na ausência desta, desabafa, então, sua carência: (Texto XIII)

A maioria dos ´filhos´, nos romances em foco, tiveram uma infância privada de amor; as mães, sempre ausentes por não terem ´condições´ de assumir a maternidade, são, na maioria dos casos, incapazes de carinho ou atitudes mais afetivas. O pai, em vez de suprir a lacuna, geralmente se ausenta ou se comporta de forma muito rígida, propiciando o desenvolvimento da insegurança dos filhos que não sentem apoio na família. A consequência desse tipo de educação é uma total carência afetiva, além da tendência natural a atrair relacionamentos igualmente confusos, bem como insatisfatórios.

Elementos recorrentes
Em todos os romances de Lya Luft, a família aparece como propulsora dos desajustes dos filhos, que tendem a viver situações idênticas, quando têm um lar. A mulher aparece, na sua ficção, sempre inserida num contexto familiar patriarcal, vivendo ´exilada, marginalizada à procura de formas de sobrevivência mediante satisfações substitutivas, ou então pela sublimação de suas perdas através da arte´, como Assinala Osana (2003 p.13). Em ´As parceiras´, a própria narradora, Anelise, se considera de uma ´família de perdedoras´. Sua irmã, Vânia, aceita, inclusive, como condição para casar-se, a opção de não ter filhos, para não ´transmitir o legado da sua miséria´, como disse Brás Cubas um século antes.

Nas outros romances, ´A asa esquerda do anjo´ e ´Reunião de família´, a personagem feminina continua submissa e insatisfeita; quando alguém rompe o cerco e se rebela, paga sempre um preço muito alto. Nos seguintes, ´A sentinela´, ´O quarto fechado´, ´Exílio´ e ´O ponto cego´, as personagens femininas, além de não serem capazes de manter os relacionamentos afetivos com o parceiro, falham como mães, seja pela incapacidade de lidar com os problemas, seja pelo peso se um passado de opressão. Acabam, inevitavelmente, reproduzindo os desajustes de que foram vítimas quando da infância.

Conclusão
Os homens aparecem como figuras secundárias, mas não desvinculadas dos dramas familiares: Em ´As parceiras´, ´Reunião de família´ e ´O ponto cego´ é o autoritarismo deles que gera toda a desarmonia. Já em ´A sentinela´ e ´Exílio´, é passividade do homem/pai que intensifica o vazio do amor familiar, já que as mães, nesses dois romances, nada têm a dar aos filhos, tal como a Renata de ´O ponto cego´.

Em todos os casos, a carência afetiva dos filhos é imensa e se reflete nos adultos em que se transformam, incapazes de amar inteiramente ou de serem generosos com o outro. A família é, pois, celeiro de autoritarismo, desarmonia e desafeto, quando não de rejeição, revelando, assim, a fragilidade do ser humano diante da vida e de si próprio.

TRECHOS

TEXTO X

´Caminho nesta solidão prateada, e penso em minha mãe, que conheci tão pouco. Quando ela casou todos acharam que lhe convinha muito aquele homem já maduro, bondoso. Ainda por cima um médico, que poderia entender e tratar melhor certas singularidades de Norma. Pois ela era um pouco infantil, desinteressada pelas coisas práticas, aparentemente incapaz de assumir uma família sua. Pareceu feliz com meu pai, viviam bastante isolados /.../ Depois do jantar tocava piano para ele na sala: era para ele que tocava, cantava, vivia /.../ (AP p.25) /.../ ´Meus pais eram bondosos e tranqüilos, mas distraídos. Talvez sentissem a brevidade do se prazo, a felicidade precária precisava ser tão protegida quanto minha mãe, que sobrevivia apenas assim, pairando pela casa, quase ausente, acompanhando um pouco a distância a vida dos filhos e os acontecimentos domésticos. Nunca podíamos correr, gritar, discutir na frente dela, tudo a perturbava, começava a chorar, recolhia-se ao quarto, me deixava louca de remorsos´. (AP p. 26)

TEXTO XI

´Cresci sem mãe; sem avós; sem tias nem primas; nosso pai não era ligado à família, falava como se fosse sozinho no mundo. Nunca tive alguém perfumado e doce para me abraçar; para ajeitar meu cobertor na hora de dormir, ou contar histórias; para me dar conselhos. Nem para cuidar de Evelyn, que era um bebê quando nossa mãe morreu, e foi criada por Berta; ou para ajudar meu irmão Renato, que só levava surras de nosso pai´. (20) /.../ ´O Professor não era um pai de verdade; desses que chegam em casa no fim do dia e a gente se alegra com sua presença; desses que pegam o filho no colo; ou os levam para passear. ... Todos chamavam meu pai de Professor. às vezes também o tratávamos assim, e ele nunca reclamou. Nossa casa era a continuação da escola: deveres e castigos; medo de errar´. (p.20)/.../ ´Naquele tempo carregava comigo uma fotografia de minha mãe; dormia com ela debaixo do travesseiro; beijava-a; chorava seguidamente sem maior razão, e me sentia muito infeliz´.(RF p.35)

TEXTO XII

´- Isso não é normal na sua idade /.../ Esse amor de criança carente na sua idade é coisa de psiquiatra. Vá se tratar, eu já disse (p.28). Nora fala que sempre se sentia desprotegida, já que o pai sempre dizia que ´Elsa era uma grande mãe e [ela] a filha ingrata´.


TEXTO XIII

´ Choro sozinho no escuro de noite e não tenho por quem chamar, pois minha mãe, que hoje sonha com outro, já não virá me confortar. (PC p. 127) j´O que vai ser de mim? Quem vai me dar colo de Mãe, quem vai me confortar e manter afastados os horrores todos? As Tias cacarejam ao meu redor, excitadas com a importância que de repente assumiram cuidando de mim, raro caso de dasarrumação do tempo´. (PC p. 151)

FRASES SOBRE LYA LUFT

´Louve-se ainda, nesta extraordinária criadora de figuras e situações que é Lya Luft, a sobriedade e a exatidão de sua língua literária - ajustada a seus motivos, como a pele ao corpo apolíneo´

Josúe Montello
Ficcionista

´A tessitura da frase de Lya Luft já nos diz de uma prosa irretocável, na qual a condição humana assume o papel de protagonista. Tudo nela é verdadeiro, principalmente quando as estruturas do real sofrem um abalo´

Rômulo A. P, Souza
Crítico literário

SAIBA MAIS

Judith. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Donizete A. Espaço e identidade em Lya Luft: Exílio. Dissertação de Metrado. UFPa, 2007.


M. Osana de Medeiros. A mulher, o lúdico e o grotesco em Lya Luft. Rio de Janeiro: Anablume, 2003

LUFT, Lya. Exílio. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

LUFT,Lya. A asa esquerda do anjo.São Paulo: Siciliano, 1991.

LUFT,Lya. O quarto fechado. São Paulo: Siciliano, 1991.

LUFT,Lya. Reunião de família. São Paulo: Siciliano, 1991.

LUFT,Lya. A sentinela. São Paulo: Siciliano, 1994.

LUFT,Lya. O rio do meio. São Paulo: Mandarim, 1996.

LUFT,Lya. O ponto cego. São Paulo: Mandarim, 1999.

LUFT,Lya. As parceiras. Rio de Janeiro: Record, 2003.

LUFT,Lya. Mar de dentro. Rio de Janeiro: Record, 2004.

ELÓDIA.Declínio do patriarcado: a família no imaginário feminino. Rio de Janeiro: Record; Rosa dos Ventos, 1998