quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Troca de autorias de textos na internet – ignorância ou desonestidade intelectual?
Dois males têm afetado muitos dos internautas que ‘gostam’ de divulgar textos em blogs e sites de relacionamento: o desconhecimento da literatura em função da falta de leitura, e a desonestidade intelectual, muitas vezes decorrente de atitudes inconsequentes ou mesmo de ignorância. Por uma razão ou outra, o mundo virtual tem se tornado uma ferramenta de disseminação de falsas autorias e adulteração de textos literários, tanto no conteúdo quanto na forma. São essas práticas nada lícitas o assunto do artigo de hoje.
CLARICE POETA?
Clarice Lispector é uma escritora conhecida pela propensão psicológica de seus enredos, pela densidade dos seus personagens. Escreveu romances, crônicas e literatura infanto-juvenil. Não satisfeitos com o legado literário que ela deixou, alguns internautas resolveram transformá-la em poeta, atribuindo-a autoria de poemas ou colocando seus escritos em forma de versos. É incontestável que são poéticas muitas passagens de seus textos, mas isso não dá o direito a ninguém de mudar a estética de suas criações ou atribuir-lhe textos que ela não criou. Vejamos o poema “Nunca mais”, e a inusitada característica de transmitir mensagens diferentes, de acordo com o modo como é lido. Se de cima para baixo, a mensagem é de despedida; se de baixo para cima, tem-se uma declaração de amor:
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
O texto é criativo, mas não é de Clarice. Como assinala Betty Vidigal, em seu artigo sobre a escritora, “Apesar dos erros de sintaxe, o texto tem o mérito de ser surpreendente”, mas não é da autora de Perto do coração selvagem. Outro texto atribuído a ela é o poema “Há momentos”, que circula livremente pela internet com o seu nome:
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém, que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
/.../
A vida não é de se brincar,
porque um belo dia se morre.
Embora alguns versos lembrem o estilo clariceano, esse texto não consta em livros da escritora. Como não consta o poema “Mude”, que é divulgado na internet ora em prosa, ora em verso, mas sempre com os créditos dados a ela. Leiamos um trecho:
Mude
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Vanessa Lampert, do blog Autores desconhecidos, desvendou a verdadeira autoria desse texto ao receber um e-mail do autor – Edson Marques -, que vale a pena ser reproduzido: “Por um erro da Agência Leo Burnett, meu poema MUDE foi utilizado num comercial da Fiat, e teve sua autoria atribuída, erradamente, a Clarice Lispector. Os herdeiros de Clarice receberam quarenta mil dólares, ilicitamente, pelo "licenciamento" de uma obra alheia (no caso, minha). Sentença transitada em julgado deu ganho de causa a mim, em Ação Cautelar. Os herdeiros recusam-se a devolver o dinheiro, e sequer se pronunciam em público sobre o caso. Detalhes em http://desafiat.weblogger.com.br . Abraços, flores, estrelas. Edson Marques”.
Outro equívoco que envolve o nome da Clarice diz respeito ao poema “Alta tensão”, que aparece com o título “Gosto dos venenos mais lentos”:
eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.
O poema é da Bruna Lombardi e está em seu primeiro livro, O perigo do dragão, publicado em 1984.
A frase “Não tenho mais tempo algum,/ser feliz me consome...” também não é da Clarice, mas da poeta mineira Adélia Prado. Tal é a situação do texto que se inicia com “Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre”, que não consta em livros dela; é, pelo menos até agora, mais um apócrifo. Não bastassem essas atribuições equivocadas, Clarice também tem sido vítima de adulterações na forma de seus textos.
Há, no Jornal da Poesia, uma página dedicada a poemas dela, com um adendo do editor, Soares Feitosa: “Os poemas desta página são resultado do arranjo em versos, feito pelo padre Antônio Damázio [...], de textos em prosa da extraordinária escritora Clarice Lispector. Nesta saudável mania de todo-mundo-copiar-todo-mundo-sem-citar-a-fonte, tem umas "pages" por aí publicando estes textos sem lhes indicar a parceria do padre e como se fossem poesia originariamente feita por Clarice. É bom que se diga que Clarice, apesar de escrever de forma não versificada, era poeta verdadeira, pois como diz Benedicto Ferri de Barros não basta ao texto estar quebrado em linhas para ser poesia. Clarice fazia poesia sem quebrar as linhas”.
Concordo com o poeta Feitosa quanto à beleza poética dos textos clariceanos, mas acho que, mesmo numa época em que as fronteiras entre os gêneros se estreitam, mesmo que Clarice tenha escrito prosa poética, é inadmissível modificar a forma de textos alheios. Por que não transcrevê-los em prosa, tal como o texto foi criado?
Créditos incorretos: Aristóteles Onassis, Audrey Hepburn, Rita Lee, Florbela Espanca, Victor Hugo, Henfil, Maiákovski, Aristóteles, Chico Buarque, Machado de Assis, Albert Einstein, Bob Marley, Cora Coralina
Uma das maiores surpresas que ocorreram em minhas viagens pelo mundo virtual foi ler um poema de Aristóteles Onassis, texto considerado perfeito em alguns blogs. Jamais o imaginei dono de versos como os de “Talvez”, que recebi em forma de slides com belas imagens da Grécia:
Talvez eu venha a envelhecer rápido demais. Mas lutarei para que cada dia tenha valido a pena.
Talvez eu sofra inúmeras desilusões no decorrer da minha vida. Mas farei com que elas percam a importância diante dos gestos de amor que encontrei.
Talvez eu não tenha forças para realizar todos os meus ideais. Mas jamais irei me considerar um derrotado.
Talvez em algum instante eu sofra uma terrível queda. Mas não ficarei por muito tempo olhando para o chão.
Talvez um dia eu sofra alguma injustiça. Mas jamais irei assumir o papel de vítima.
O inusitado presente me colocou em busca de informações que tivessem credibilidade e não demorei a descobrir que o poema, citado aqui apenas em parte, é da poeta e publicitária paulista Sônia Carvalho, não é legado do magnata grego.
Outra atribuição enganosa foi feita em um texto muito difundido por e-mail: “O poder armado”, publicado no Jornal do Brasil em 6 de fevereiro de 2001, pela jornalista cearense Heloneida Studart. O relato sobre a situação das mulheres no Brasil não é, pois, da Rita Lee, como aparece em muitos sites.
A confusão pode ter-se dado em função do último parágrafo, quando a jornalista cita explicitamente parte da letra de uma música “Pagu” da roqueira: “Viva Rita Lee, que canta: "nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda e meu peito não é de silicone... sou mais macho que muito homem” (“Pagu” – Rita Lee e Zélia Zélia Duncan). Se a troca da autoria deu-se por desatenção ou por má fé não dá para saber, mas Betty Vidigal chama atenção para o fato de o nome da Rita Lee ter sido retirado da versão que circula com o nome dela como autora e assinala a mudança do título para “Mais Macho que Muito Homem”, o que supõe premeditação.
Além da questão espacial e temporal que distancia as duas, temos a questão do estilo: Rita Lee é mais irreverente, não tem a formalidade de Heloneida, que é jornalista e, à época, era deputada, líder da bancada do PT no Rio e presidente da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos.
“Dicas de beleza”, por sua vez, é de humorista e apresentador de TV americano, Sam Levenson, não é da atriz Audrey Hepburn, como divulgam os incautos:
1 - Para ter lábios atraentes, diga palavras doces.
2 - Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas.
3 - Para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos.
4 - Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança
passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia.
5 - Para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho.
“Os votos”, também conhecido como “Desejo primeiro que você ame”, longo poema do qual transcrevemos a primeira estrofe, não é do o escritor francês - Victor Hugo - que escreveu o antológico Os Miseráveis. Somente quem nunca leu um livro dele poderia acreditar nisso. O texto foi criado, na verdade, por Sérgio Jockymann:
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
O belo poema “Por tudo que me deste”, divulgado como escrito por Florbela Espanca, é de autoria do poeta, também português, Carlos Queiróz e foi publicado numa Antologia organizada em Lisboa por Vasco Graça Moura em 2004:
Por tudo que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado.
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!
Já a frase “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”, erroneamente creditada a Henfil, é de Maurício Ceolin. Henfil apenas a leu em público, na época do movimento pelas ‘Diretas Já’, e a utilizou como epígrafe de um livro seu. Outra confusão de autoria que levou tempo para ser esclarecida se refere ao poema “No caminho com Maiákovski”, atribuído ao poeta russo, quando, de fato, foi escrito por Eduardo Alves da Costa, certamente leitor dele: “Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada...”.
“Revolução da alma” – “Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue sua alegria, sua paz sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida” - não é do filósofo grego Aristóteles, como acreditam muitos que ‘se dizem’ discípulos de suas ideias em páginas da net, mas de Paulo Gaefke, e está no livro Decidi ser Feliz, publicado em 2002.
“Solidão”, texto que é repassado com uma foto do Chico Buarque e seu nome impresso, teve a autoria negada por ele. Foi escrito, depois se soube, por Fátima Irene Pinto, publicado em seu livro Palavras para Entorpecer o Coração (p.79). O site dela é www.fatimairene.com. Leiamos pelo menos duas estrofes:
Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo.
Isso é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar.
Isso é saudade.
A crônica que intitulam na Net como “Mulheres no topo” e/ou “Maçã: “As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir.”, bem como o poema “Bons amigos” “Abençoados os que possuem amigos, / os que os têm sem pedir. / Porque amigo não se pede, / não se compra, nem se vende. / Amigo a gente sente! // Benditos os que sofrem por amigos, / os que falam com o olhar.” não foram escritos por Machado de Assis, pelo menos, não constam em seus livros.
Mesmo os romances da primeira fase machadiana, seus contos ou crônicas, tampouco seu poemas com resquícios românticos têm o estilo dos dois textos. Profundo conhecedor da alma humana, Machado caricaturou a sociedade carioca e, por meio dela, traçou o perfil dos seus contemporâneos de modo geral. Seus enredos provocam profundas reflexões de fatos cotidianos que ressoam como uma advertência. São, pois, apócrifos os dois textos a ele atribuídos, a não ser que o verdadeiro autor apareça para assumi-los.
Mas os absurdos não param por aqui. No site http://www.dihitt.com.br/noticia/albert-einstein-e-a-poesia-, há uma postagem intitulada Einstein e a poesia, seguida da informação: “Sua genialidade transcendeu a barreira da insensibilidade da ciencia e o fez poeta também. Aqui um trecho de sua poesia. As inúmeras cartas que escreveu revelam seu amor pela literatura” (Sic). Em seguida, vem o texto:
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
/.../
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Essa atribuição talvez tenha se dado em função da descoberta da existência do “Diário de namorada de Einstein, que revela o homem além do cientista”, cujo artigo foi publicado em 2004, no Jornal da Ciência. Leiamos:
“Após a morte de Einstein em 1955, Fantova vendeu suas cartas e poemas, juntamente com uma pasta de fotografias, para Griffin, que as doou para a Biblioteca Firestone. As cartas, que foram abertas em 1996, não foram publicadas, apesar de estudiosos as terem visto na Firestone. A maioria foi escrita durante suas férias em Long Island, e estão cheias de queixas sobre dores, segundo Calaprice.
Os poemas, vários deles incluídos no diário de Fantova, são alegres, cheios de trocadilhos ruins e piadas às custas do próprio Einstein. Um que lamentava a ausência de Fantova diz:
(Cansado do longo silêncio/Isto é para lhe mostrar claramente quão forte/Os pensamentos em você sempre estarão vívidos/No pequeno sótão de minha cabeça.)”
(Exhausted from a silence long / This is to show you clear how strong / The thoughts of you will always sit / Up in my brain's little attic. )
O estilo é completamente diferente do do texto que circula pela internet, que aparece sempre sem referência bibliográfica.
O texto “Os ventos que às vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar... Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre...” não foi escrito por Bob Marley como aparece em muitas páginas. O verdadeiro autor continua desconhecido. Igualmente ocorre com “Dificil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer”. Não há fontes comprobatórias de autoria da maioria dos textos que circulam com o nome do cantor jamaicano. O que não se entende é como belos arranjos como “A maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la” e “Às Vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!” possam ser atribuídos a outros ou circulem como apócrifos.
Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins, poeta goiana conhecida pela versificação simples com temáticas cotidianas que abordam, sobretudo, os becos de sua terra. Não se sabe por que, se pela aproximação do estilo ou por ignorância, atribuíram-na o poema intitulado “Não sei”, que também tem sido postado com o título “Saber Viver”:
Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
CHAPLIN
Charles Chaplin foi ator, diretor, dançariro, roteirista e músico. Sem dúvida um cineasta dos mais criativos da era do cinema mudo. Além de escrever, produzir e dirigir seus filmes, atuava neles e financiava-os. Tanto talento e tanta criação levaram alguns internautas a atribuir-lhe a autoria de diversos textos e fazê-los circular pela internet via e-mail, scraps, mensagens, blogs e sites (não oficiais, claro). Quem entrar na página PENSADOR.INFO (http://www.pensador.info/charles_chaplin_sobre_a_vida/) encontrará um acervo enorme, a começar pelo “Ciclo da vida”, que está no perfil de muita gente aparentemente informada no Orkut:
A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Esse texto aparece com diferentes títulos: "O Ciclo da Vida ao Contrário" / "A vida segundo Chaplin" / "A Vida ao contrário" e é de autoria de Sean Morey. Mirian, do site Com outros olhos, após exaustiva pesquisa, chegou a essa conclusão. mais:http://comoutrosolhos.multiply.com/journal/item/52
Também o poema "A vida é uma peça de teatro", que circula, às vezes, com o título “Viva intensamente”, não é de Chaplin.
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios...
Por isso, cante, ria, dance, chore
e viva intensamente cada momento de sua vida...
Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos"
Textos que contém as palavras-chave: palhaço, teatro, sorrir (e seus derivados) são, quase sempre associados a Chaplin; dão a atribuição por conta própria, com base apenas nesse léxico, sem consultar as fontes. Tal é o caso de “Ei! Sorria”: “Ei! Sorria... Mas não se esconda atrás desse sorriso... / Mostre aquilo que você é, sem medo. / Existem pessoas que sonham com o seu sorriso, assim como eu. / Viva! Tente! A vida não passa de uma tentativa. / Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos” e “Preciso de alguém”: “Preciso de alguém que me olhe nos olhos quando falo. / Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência. / Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso” ambos de Cristiana Passinato.
Já “Quando me amei de verdade”: “Quando me amei de verdade, / compreendi que em qualquer circunstância, / eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato./ E então, pude relaxar. / Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima” tem a autoria de Kim e Alison McMillen.
A letra da música "Smile", lindamente traduzida por João de Barro (Braguinha), é de John Turner e Geoffrey Parsons; só a melodia é de Chaplin. Djavan gravou no seu CD "Malásia", de 1996 e no CD "Djavan Novelas, Temas de Novelas de Rede Globo": “Sorri / Quando a dor te torturar / E a saudade atormentar Os teus dias tristonhos, vazios” e os créditos estão assim colocados: Composição: Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha. A tradução que circula pela internete é: “Sorria, embora seu coração esteja doendo / Sorria, mesmo que ele esteja partido / Quando há nuvens no céu / Você sobreviverá...”
Outro texto bastante conhecido é “Cada pessoa que passa”, que também aparece com o título “Acaso”:
"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha,
é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.
Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só,
porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso."
Embora o texto seja bastante divulgado na Net, não há como comprovar de que filme livro/artigo foi retirado. Já o atribuíram também a Saint-Exupéry e a Mario Quintana, e há quem afirme que é de Khalil Gibran. De acordo com Mirian, pesquisadora de autorias, “uma vez perguntaram numa comunidade de Chaplin se esta citação era mesmo dele, como resposta, postaram o link de um blog com a citação atribuída a Chaplin. Ora, pesquisar autorias não é tão fácil assim, ainda mais quando há muitos sites atribuindo incorretamente, não se pode confiar na maioria /.../ Outro responde que tanto faz de quem seja, pois a citação é linda. Outro diz que deve ser dos dois, de Chaplin e Saint-Exupéry”. Embora o texto resuma um pouco da lição que o Pequeno Príncipe aprende quando chega ao 7° planeta visitado, ele não consta no livro. Só quem não leu pode afirmar isso.
Já o poema: “Vida” é, na verdade, de Augusto Branco (Pseudônimo) e consta no livro Viva apaixonadamente, cujo registro é 449.877 - Livro: 845 - Folha: 37 e está também postado em seu site A Grandeza
(Fonte: http://agrandeza.blogspot.com/2008/09/j-perdoei-erros-quase-imperdoveis.html, acesso: 26/10/09, data da publicação no blog: 18/09/08)
Leiamos uma estrofe do texto:
Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.
Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.
/.../
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.
De acordo com o verdadeiro autor, ele foi atribuído a Chaplin, pelo fato de ele ter usado uma suposta frase de Chaplin no final do texto: “a vida é muito pra ser insignificante”. Consultando o site oficial de Chaplin, em inglês e os livros a que se tem acesso - O Pensamento Vivo de Chaplin, Livro Clipping: Chaplin por ele mesmo e Chaplin: Vida e Pensamento, todos da editora Martin Claret, não foram encontrados nenhum dos textos até agora citados.
Mirian afirma que pensou, inicialmente, que "Vida" fosse uma adaptação do texto "Curriculum Vitae" (Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo...) também registrado na Biblioteca Nacional por Juliana Spadotto, por considerá-los muito parecidos. No site http://www.fantasiasdaalma.com.br/cantinho_amigos/experiencia.html, entretanto, consta que há uma versão do mesmo texto, com eu-lírico masculino, de autoria de Félix Coronel, publicada no livro "Como é que é?" (2003, p. 18, segundo o site "Fantasias da Alma", ou páginas 25-7, segundo o site de Rosangela Aliberti). A confusão é real: “Curriculum Vitae” é atribuído a Juliana Spadotto e a Félix Coronel; Félix Coronel publicou um livro contendo o texto, e Juliana Spadotto conseguiu os direitos autorais do texto em 2004. Mirian conclui: “O texto atribuído a Chaplin, mas que pertence a Augusto Branco, tem semelhanças com o texto de autor desconhecido que, por sua vez, tem semelhanças com o texto de Juliana Spadotto / Félix Coronel, tanto no estilo quanto nos objetivos, mas, por causa da liberdade que os internautas têm de fazer o que quiserem com os textos de qualquer pessoa e colocar em seus perfis, a internet se tornou um telefone sem fio e por causa de uma simples citação (que ninguém sabe se é de Chaplin, mas acreditam que seja dele só porque viram em milhares de sites na internet) o texto todo passou a ser atribuído a ele, fato confirmado pelo próprio Augusto”.
A falsa despedida de Gabriel Garcia Márquez.
“O monólogo da marionete” circulou na internet como “Poema de despedida de Gabriel García Márquez”, ou seja, uma despedida do escritor Gabriel García Márquez, quando se soube acometido de um câncer linfático. Leiamos uma parte do texto:
Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de pano e me desse um pedaço de vida, talvez eu não dissesse tudo que penso, mas com certeza pensaria tudo que digo. / Daria valor às coisas não pelo que custam, mas pelo significam. / Dormiria pouco e sonharia mais, por que para cada minuto em que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. / Andaria quando os outros param, despertaria quando os outros dormem, ouviria quando os outros falam, e como aproveitaria um sorvete de chocolate...! /.../ São tantas as coisas que aprendi de vocês. Mas não terão muita serventia, porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente, estarei morrendo...”
Ele próprio negou a autoria e desdenhou da qualidade do texto, que começou a aparecer em sites de autoajuda desde julho de 1999, como “uma colaboração de García Márquez a um programa de menores maltratados”.
Em 29 de maio de 2000, o jornal peruano La Republica publicou “La Marioneta” como sendo “um poema de despedida que García Márquez enviou a seus amigos mais próximos, devido ao agravamento de sua doença. Em 30 de maio, todos os jornais do México reproduziam a notícia. O La Crónica dizia, em manchete: “Gabriel García Marques canta uma canção para a vida”.
Em 31 de maio, García Márquez declarou: “Lo que realmente me puede matar es la vergüenza de que alguién me crea capaz de haber escrito un texto tan cursi, tán malo”. Foi então que apareceu o verdadeiro autor, o ventríloco Johnny Welch, que se pronunciou ao jornal mexicano Reforma (http://www.reforma.com/cultura/articulo/011476/) em 1º de junho de 2000, magoado: “A mí me duele profundamente que el señor García Márquez diga que él no se atrevería a escribir una cosa tan cursi, pero respeto su opinión. Yo no soy un letrado o una persona que haya estudiado Filosofía y Letras, soy un ser humano con la necesidad de comunicar lo que siente y lo hago con el corazón”. Johnny Welch vive no México, onde publicou dois livros, Lo que Me ha Enseñado la Vida - obra em que consta o texto com o título “Si yo tuviera vida” - e Hilos de Vida
Betty Vidigal, em sua perquirição para compreender a falsa atribuição, descobriu que o Jornal La República declarou que o texto publicado havia sido enviado pelo escritor Abel Posse, embaixador da Argentina no Peru. Vidigal foi mais fundo: “soube-se que Abel Posse recebeu o texto por e-mail da escritora Elizabeth Burgos, radicada em Paris. Ela, por sua vez, recebeu-o de Rosario Sosa, a quem não conhece. O e-mail tinha partido da Bélgica. Rosário Sosa, ao receber o “poema”, enviado por Donato di Santo, da Itália, enviou-o a 17 pessoas, entre as quais estava o presidente do Chile, Ricardo Lagos”. Ou seja a distribuição via e-mail é que foi responsável pela ampla divulgação do texto, como ocorre na maioria dos casos semelhantes.
“Instantes” não é de Jorge Luís Borges nem de Nadine Stair
O poema “Instantes”, do qual transcrevemos a primeira e a última estrofe em língua portuguesa, não é de Jorge Luis Borges nem de Nadine Stair. Esse foi um dos casos de falsa autoria que mais envolveu investigações:
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. /.../
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo
No artigo de José Nêumanne Pinto, postado no Jornal de Poesia, http://www.secrel.com.br/jpoesia/autoria.html#instantes, ele diz que “o escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente responsável por sua divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e o publicado em português, em Porto Alegre.”
Na Folha de São Paulo, em 17 de dezembro de 1995, Scliar relata como conheceu o poema - na Argentina, em 1987, com o nome de Jorge Luís Borges. De volta ao Brasil, publicou-o no jornal Zero Hora: “A repercussão foi extraordinária ... imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos Aires, contestando a autoria de INSTANTES”; diz, finalmente, que o poema não foi escrito por Borges, mas por Nadine Stair, poeta norte-america.
Maria Kodama, viúva de Borges, ficou surpresa com a repercussão do texto nos meios de comunicação em geral e tratou de negar a autoria publicamente. O texto foi originariamente publicado em inglês, com o título de Daisies (margaridas). Mas o texto também não foi escrito por Nadine Stain. Vidigal continua: “Byron Crawford, colunista do Louisville Courier-Journal, descobriu uma sobrinha de Nadine Strain, segundo a qual sua tia não deixou outros escritos: a Música é que era sua paixão. Cega na velhice (como Borges), e vivendo em um asilo, Nadine pedia para ser levada ao piano todos os dias e tocava enquanto os outros faziam suas refeições”.
A mais antiga publicação de “Instantes” está na Revista Seleções do Reader's Digest, edição de outubro de 1953, e seu autor é Don Herold (1889-1966), escritor e humorista, autor de cerca de uma dúzia de livros. O texto se inicia com a frase “Of course, you can't unfry an egg, but there is no law against thinking about it.” (É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso). “Só então ele começa a desfiar as considerações sobre viver a vida outra vez, tirando-lhes, com essa introdução, o tom lamurioso”, diz Vidigal. A frase final (Pero ya ven, tengo 85 años... y sé que me estoy muriendo) não em nenhuma outra versão em inglês, só aparece nas de língua espanhola exatamente as que colocam Borges como autor. Mais uma ‘brincadeira’ do mundo virtual!
Martha Medeiros e Neruda – nada a ver
A cronista Martha Medeiros é uma das maiores vítimas de adulteração de textos. São dela: “A massacrante felicidade dos outros”, “A voz do silêncio”, “A Impontualidade do Amor”, “Amores mal resolvidos” – (o título correto é: “Até a Rapa”), “Eu te amo não diz tudo” ou “Saber Amar”, “Felicidade realista”, “O que faz bem à saúde / Previna-se”, “Os olhos da cara” – aparece também com o título “Juventude eterna”, com enxertos não se sabe de quem -, “Para que serve uma relação?”, “Promessas matrimoniais”, “Sacanagem” ou “O amor só acontece antes dos 30”, “Saudade” – (o título correto é: “A dor que dói mais”), “Sentir-se amado”, “Sermão do casamento” - (o título correto é: “Casamento na Igreja”). Nenhuma, entretanto, foi tão copiada quanto - "Morre lentamente", cujo título correto: "A morte devagar", que, em vários sites, blogs e PPS aparece em forma de versos, com o nome do poeta chileno Pablo Neruda:
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Também não são de Neruda os poemas “Dos e/ou Dois”, Dois.../ Apenas dois./ Dois seres.../ Dois objetos patéticos./ Cursos paralelos /Frente a frente.../ ...Sempre... / ...A se olharem.../ Pensar talvez: / “Paralelos que se encontram no infinito...” / No entanto sós por enquanto./ Eternamente dois apenas” – O texto é belo, mas não se sabe quem é o verdadeiro autor. Igualmente belo é “Ainda não estou preparado para perder-te”: que dizem ser de Gian Franco Pagliari, mas não há confirmação:
"Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado pra crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.
/.../
E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Por quê?
Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.
Ainda te Necessito."
“Saudade é a solidão acompanhada”: “Saudade é solidão acompanhada, / é quando o amor ainda não foi embora, / mas o amado já... / Saudade é amar um passado que ainda não passou, / é recusar um presente que nos machuca, / é não ver o futuro que nos convida” é, na verdade, uma fala do personagem-poeta Afonso Henriques, na novela Fera Ferida escrita por: Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, mas aparece em vários sites com o nome do poeta chileno.
Consultar
Byron Crawford tem uma coluna no http://www.courier-journal.com/cjextra/columns/crawford/crawford.html
Internet." (“Quem Colheria Mais Margaridas, Um Estudo de Plágio e Embromação na Internet” (http://www.benjaminrossen.com/index_frameset_daisies.htm)
[ Moacyr Scliar - VERSOS INFAMES: A FRAGILIDADE DA FALSIFICAÇÃO – Folha de São Paulo, 17/12/95, e http://www.geocities.com/Athens/Agora/3382/textos.htm#text1
JORNAL DA CIÊNCIA http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?i
POLICROMIAS – um collorarium de peças literárias
Foi com satisfação que recebi e aceitei o convite da poeta Giselda Medeiros, presidente de honra e diretora de publicação da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras – AJEB – para apresentar este 6º volume da Coletânea Policromias, uma edição comemorativa do 40º aniversário da Associação.
Não poderia haver nome mais adequado do que Policromias para traduzir a multiplicidade de textos que compõem o volume. São variadas nuanças, numa diversidade de gêneros e estilos, como a compor um quadro de tonalidades e matizes, não de cores, mas de palavras que analisam, perquirem, contam, recontam, bordam histórias, falam de glórias e tecem sentimentos, encantos e desencantos, segredos e esperas.
O cronista angolano Carmo Neto diz que criar é um exercício de liberdade. De fato, quando se juntam experiências diversas desse exercício, tem-se o texto como fruição, como projeto estético ou como apenas catarse. Pouco importam intenções ou rótulos, a necessidade de quem escreve é também a de quem lê.
Nesse mesmo raciocínio sobre a criação, Walter Benjamim, ao referir-se a textos narrativos, disse: “O narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história”. O filósofo parece ter proferido essas palavras pensando na crônica; ou, talvez, pensasse na epístola, gênero praticamente desaparecido, que, não despretenciosamente, abre essa miscelânea literária. Falo da Carta de Beatriz Alcântara, cuja emoção nos arrebata e faz seguirmos com a narradora o tempestuoso percurso para enterrar os ossos dos avôs. Com ela, enfrentamos a procela e respiramos gratificados quando a missão é cumprida e resta a trivial realidade de um computador deixado ligado na tomada. Heloísa Barros Leal também incursiona pelo mesmo gênero, como Haroldo Lyra, com outras proposições.
A crônica, o mais simples e sublime exercício de partilha de experiências e observações, possibilita rápidas viagens aos universos criados pelos dedos de Evan Bessa, Zenaide Marçal, Nirvanda Medeiros, Ione Arruda, Ilnah Soares, Germano Muniz, Margarida Alencar, Rosa Firmo, Stella Furtado, Zinah Alexandrino, João de Deus, Vicente Alencar e Rosa Virgínia Carneiro, muitas vezes se confundindo com prosa poética. Talvez seja essa a forma de composição mais praticada na atualidade, “porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível”, como afirma Ivan Lessa. Vou além: a crônica satisfaz nossa ânsia de comunicação com o outro, não requer recursos estéticos, não enseja belicosos trabalhos de linguagem, constrói-se na simplicidade da nossa própria visão de mundo e nos dá a oportunidade de ser pessoais, sem sermos piegas, de celebrar o instante que passa, sem deixá-lo ir completamente.
O conto é outro exercício ficcional praticado pelos ajebianos e, nesta coletânea, vem representado pela criação de Regina Barros Leal, Evan Bessa, Ednilo Soárez e Celina Côrte Pinheiro. O ensaio também ocupa espaço nestas páginas; poetas e contistas saem da sua condição de criadores do texto literário para analisá-los ou discorrerem sobre a realidade circundante. Ebe Braga Frota fala sobre a educação como fator de progresso social; Giselda discorre sobre a trova; Maria Luisa Bonfim escreve sobre os poemas de Pablo Neruda; Francisco Carvalho analisa a poesia de Neide Azevedo; Maria Amélia Barros Leal investiga o universo ficcional de Moreira Campos e Claudio Queiroz percorre a ficção de Dostoiévski. O discurso, gênero essencialmente oratório, tem registro com peças de autoria de José Augusto Bezerra, João de Deus, Maria do Carmo Fontenelle e Eduardo Fontes.
Já a poesia, a composição escrita que mais se comunica com a alma, domina as páginas da coletânea, em versos de muitos contistas, cronistas e ensaístas já citados, bem como na inspiração de Rejane Costa Barros, Nilze Costa e Silva, Argentina Andrade, Lúcia Helena Pereira, Ana Paula de Medeiros, Manoel César, Regine Limaverde, Tereza Porto, Bernadete Sampaio, Clara Leda, Mary Ann Leitão Karan, Salete Passos Urano, Sabrina Melo, Viviane Fernandes, Maria Helena Macedo, Pereira de Albuquerque, Vital Arruda, J. Udine, Moacir Gadelha, Sérgio Macedo, Sílvio dos Santos Filho e Waldir Rodrigues. A eles se agregam os Poemas vencedores do IV Concurso Literário Professora Edith Braga, realizado pela AJEB-CE, em 2009, especialmente os três primeiros lugares conquistados por Sabrina Melo, Arleni Portelada e Francisco Bento Leitão Filho. Todos sabem, como Valtaire, que “O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela”, ou seja, sabem da missão de descortinar o mundo que não se mostra a qualquer um, somente àqueles que trazem nos olhos a poesia que dorme nos seres e nas coisas.
Nesse corollarium de peças literárias, não há hierarquia nem juízo de valor. A moeda é a criação advinda da necessidade de confirmar a própria existência. Escrever sempre será um ato de liberdade e afinação com a vida; sempre será a projeção de um grito de dor ou prazer... ou apenas um grito que se quer ouvido. Parabéns à poeta Giselda pela organização da coletânea e a todos os participantes que, não tenho dúvida, entendem a vida pelo diálogo entre as palavras e os silêncios.
Obrigada!
Aíla Sampaio
Apresentação do livro Detalhes do Tempo, de Manoel César

Foi com muita alegria que aceitei o convite para apresentar o novo livro de poemas do Manoel César, porque entendo que só se convida alguém para ser madrinha de um filho quando há irmandade de sonhos. Ao sorver página a página a sua poesia, senti sua alma de pássaro, sua ânsia de voo que se concretiza nas palavras, pelas palavras, suas companheiras e confidentes, e entendi que só nos completamos no outro. Não há poesia sem leitor. Irmã de viagens oníricas pelo território das letras, me coloco agora diante desse Manoel e de todos vocês, como porta-voz dessa poética, para partilhar as impressões que me foram deixadas pela leitura de fiz. Não há sedas para serem rasgadas, tampouco rendas para adornar. Há o meu olhar atento vasculhando desvãos e entrelinhas.
DETALHES DO TEMPO é uma coletânea que agrega poemas de três livros anteriores do poeta – A poesia ainda existe, Sintagmas da solidão e Mágicas palavras – a peças inéditas. Embora sua última publicação tenha sido feita em 1988, ou seja, há 22 anos, não se pode dizer que sua poesia é sazonal. Vê-se um continuum em seus versos, a nos dizer que sua criação é perene, despreocupada com padrões ou rótulos, mas cheia de ilações filosóficas que traduzem sua inquietação diante do mundo em que vive. Sazonal é seu desejo de publicar, mas esse é apenas mais um detalhe do tempo, que ele faz questão de explorar.
Sua reverência a poetas como Mário Quintana, Álvares de Azevedo, Manuel Bandeira, Vinícius de Morais, Francisco Carvalho, Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Florbela Espanca, Cassiano Ricardo, Jáder de Carvalho, entre outros, atesta sua vivência com o lirismo e sua facilidade de engendrar artimanhas para atravessar textos com seus olhos sensíveis. Sobretudo na parte do “Canto aos amigos de fé”, ele saúda os poetas por meio de versos que incorporam o estilo de cada um, lançando mão do recurso da intertextualidade para revelá-los e sorver-lhe a liberdade criadora que inspira sua poética. Ao brincar de enconde-esconde com a vida, ele joga com as palavras e diz: “Minha casa tem tristeza / tristeza sem par / as aves aqui não cantam / mas a solidão / me dá lições de voar”, reverenciando Gonçalves Dias ao parodiar sua decantada Canção do exílio.
Sua poesia constrói-se essencialmente nos alicerces de duas fontes inspiradoras: o silêncio e a solidão. Não se pense, entretanto, que sob a pele das palavras que desnudam sua alma há amargura ou morbidez. A saudade que emana de sua solidão é um canto ao passado bem vivido, mas inexorável, é um diálogo com o tempo transcorrido, na tentativa de reviver a infância; ele passeia por cidades, ruas e praças redivivas em sua lembrança. Cantar a solidão é seu modo “desafogar o coração” para “suplantar a dor existencial de ser”. Em vez de algoz, ele a considera solidária do silêncio, tal como seu afeto e sua ternura. Estar só, para o poeta, é povoar-se de silêncio para encontrar, no seu íntimo, a poesia buscada no “instante / na emoção relâmpado”.
Ele brinca num exercício metalinguístico: Minha solidão / se reduz a dois versos livres... / e eu insisti tanto para que tu entendesses a poesia moderna (p.23). A reflexão metalinguística é uma constante, o que mostra sua consciência estética no processo criador que não se restringe à pura inspiração: No mundo restrito / da minha palavra / um poema é assassinado / pela ponta da minha / esfero / gráfica.
Ele pratica os versos curtos e livres, elaborando uma poesia sintética, mas prenhe de sentidos. Brinca com as palavras, retomando características da poesia concreta e da neoconcreta, como a mostrar que acompanha a travessia das experiências estéticas do poema, sem, entretanto, deixá-lo mudo às inquietações da existência, como a passagem inevitável do tempo, o medo da velhice, a morte e a violência. Nessa fusão de silêncio e solidão, vertentes incontestáveis de sua criação, ele canta todas as dores que lhe perpassam: “Em silêncio / as plantas crescem / na solidão das madrugadas / minha angústia aumenta mais / que suas raízes / que crescem sem saber / da violência deste (i)mundo” (p.117). Sua confiança no tempo revela-se sua aliada: “Vou ler e chorar / chorar e ler / o tempo vai passar / e vou voltar a viver”, e faz sua poética de solidão e angústia também uma poética de esperança, jamais de desilusão. Há no homem, um menino que não morre nunca, como se lê em seu “Poeminha de natal”: O tempo passa... / mas todo ano / ainda penso / Que Papai Noel / vem me visitar / presenteando-me / com um passeio / de volta à infância” (p.239).
Na parte VI da seleção de sua primeira obra – A poesia ainda existe -, a preocupação social se avulta em elocubrações como: “A história de João / não é feita de histórias / e sim de salário mínimo”, onde se entrevê um sopro de Ferreira Gullar com sua poesia neoconcreta. A denúncia contra a indiferença “ao caminhar das formiguinhas” e sua revolta diante das desigualdades denotam o compromisso do homem com a sociedade em que vive. O enterro de um catador de lixo, morto de dengue por descaso médico, a fome do homem do sertão, a miséria do mundo e a falta de paz são leitmotivs constantes de sua criação.
Já em “Íntimo da solidão do silêncio”, ele canta sua musa, o amor sensual, vivido: “Quando sinto / todo aquele mundo / encantador e misterioso / que escondes sob o vestido / sinto que a vida / vale a dor de ser vivida”. O amor, a mulher, os amigos, os poetas, o silêncio e a solidão parecem povoar seu imaginário e sedimentar seu processo criador, seu estar no mundo. A observação e a memória dialogam permanentemente em seu olhar atento para o ‘lá dentro’ das coisas.
Mas não nos esqueçamos de que toda poesia é cilada. Se revela e desvela o poeta, também engana. Leitor de Pessoa, Manoel sabe que o poeta é um fingidor, finge até as suas verdades: “Nunca pense / na razão direta / do que meu poema diz / estou sempre no avesso”. Desvendar a alma de um poeta não é simplesmente ler sua poesia, mas compreender a redescoberta da vida pela palavra. Assim, o poeta é esperança, a despeito dos revezes. Aprendeu a amar a vida “pelo silêncio e pela solidão que ela o concede”, fazendo suas as palavras de Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”. Eu vou mais longe, Manuel: Só quem conhece os detalhes do tempo pode reinventar a vida e reinventar-se. Sua poesia nos dá essa lição.
Aíla Sampaio – 09/06/2010
Apresentação da Antologia do Prêmio de Literatura Unifor - 2009
Uma das tarefas mais gratificantes para o profissional de Educação é participar de um evento em torno da Literatura, uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, como nos diz o escritor peruano Vargas Llosa. Um concurso Literário é sempre uma porta que se abre para ampliar os espaços da criação, visando exatamente à valorização da arte da palavra escrita.
Uma verdadeira universidade entende que o seu papel não se limita à mera formação profissional, mas se estende à formação do cidadão, que tem na leitura do texto literário uma atividade insubstituível, pois uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuanças, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.
Essa Antologia, que traz as 20 crônicas selecionadas no III Prêmio de Literatura UNIFOR, é uma comprovação de que a Universidade de Fortaleza tem visão de mundo humanística e investe no estímulo à produção artística em seu País. Assim, assumindo um relevante papel ante novos e experientes escritores, ela se coloca com responsabilidade na formação de uma sociedade não deformada pela visão estreita de que, num futuro próximo, só precisaremos de computadores, telas e microfones, não de livros.
Convido-os, pois, à leitura das crônicas aqui publicadas, todas de excelente qualidade estética, e, por meio delas, à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a literatura o antídoto mais perfeito para cumprir essa função. Sem ela, o que faremos com a nossa esperança de dias melhores? Onde colocaremos nossas lágrimas, nossos risos, nossa percepção sobre o que nos cerca? Bendita seja a nave que nos conduz a esse mundo feito de palavras, onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces.
Aíla Sampaio
(Coordenadora da Comissão Julgadora)
Uma verdadeira universidade entende que o seu papel não se limita à mera formação profissional, mas se estende à formação do cidadão, que tem na leitura do texto literário uma atividade insubstituível, pois uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuanças, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.
Essa Antologia, que traz as 20 crônicas selecionadas no III Prêmio de Literatura UNIFOR, é uma comprovação de que a Universidade de Fortaleza tem visão de mundo humanística e investe no estímulo à produção artística em seu País. Assim, assumindo um relevante papel ante novos e experientes escritores, ela se coloca com responsabilidade na formação de uma sociedade não deformada pela visão estreita de que, num futuro próximo, só precisaremos de computadores, telas e microfones, não de livros.
Convido-os, pois, à leitura das crônicas aqui publicadas, todas de excelente qualidade estética, e, por meio delas, à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a literatura o antídoto mais perfeito para cumprir essa função. Sem ela, o que faremos com a nossa esperança de dias melhores? Onde colocaremos nossas lágrimas, nossos risos, nossa percepção sobre o que nos cerca? Bendita seja a nave que nos conduz a esse mundo feito de palavras, onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces.
Aíla Sampaio
(Coordenadora da Comissão Julgadora)
A PAISAGEM SOCIAL E HUMANA DE RAQUEL DE QUEIROZ

Na véspera do aniversário de 100 anos de nascimento da escritora Rachel de Queiroz, não se pode deixar de falar dela, sobretudo na terra em que ela nasceu e que fez cenário de várias das suas obras. A Bienal, ocorrida em abril, teve o seu nome como estro principal, com várias mesas e eventos sobre as suas obras. A TVC, no próximo dia 17, presta-lhe justa homenagem com a estreia da minissérie “1915 - O ano em que a terra queimou”, com 20 capítulos (de 5 minutos) baseados no romance O Quinze. Nesta edição, fazemos um percurso por sua produção literária, focalizando sua história e, sobretudo, seus três mais conhecidos romances: O Quinze, Dôra, Doralina e Memorial de Maria Moura.
RAQUEL E SEUS PRIMEIROS PASSOS
A menina que nasceu em Fortaleza, no dia 17 de novembro de 1910, começou a escrever muito cedo, certamente influenciada pelas muitas leituras que fazia na biblioteca de seu pai. À frente do seu tempo, driblou o preconceito contra as mulheres e, reservada sob o pseudônimo de Rita de Queluz, começou a publicar no Jornal "O Ceará", em 1927. Primeiramente, enviou uma carta ironizando o concurso "Rainha dos Estudantes", promovido pelo jornal. O diretor do veículo, Júlio Ibiapina, amigo de seu pai, surpreendeu-se com o sucesso da carta e a convidou para ser colaboradora. Entre outros textos, ela publicou o folhetim "História de um nome" — sobre as várias encarnações ‘de uma tal Rachel’ e organizou a página de literatura do jornal, o que lhe deu experiência e a fez respeitada num mundinho dominado pelos homens.
Depois de morar no Rio de Janeiro e em Belém do Pará, voltou com a família para Quixadá, onde exercitou suas leituras e plantou suas raízes. Formou-se professora aos 15 anos. Antes de completar os 20, convalescendo de uma congestão pulmonar na fazenda Não me deixes, ela escreveu o romance O Quinze, cujo título já explicita que o enredo remete a acontecimentos do ano 15 do século XX, quando o nordeste viveu uma avassaladora seca. Filha de fazendeiros, ela, criança, assistiu à procissão de retirantes passar à sua porta; viu-os esquálidos, famintos, mendigando comida, e guardou-os no arquivo da memória para transformá-los, anos depois, em seres de papel.
Lançando-se no cenário nacional em 1930, em plena efusão do romance moderno nordestino, ela encontrou espaço e fixou seu nome no regionalismo brasileiro, colocando-se ao lado de José Américo de Almeida e Graciliano Ramos, seus contemporâneos e autores de romances igualmente emblemáticos sobre a seca: A Bagaceira e Vidas Secas.
Após o fim do seu primeiro casamento e a perda de sua única filha, seguiu para o Rio de Janeiro, onde se casou pela segunda vez e desempenhou atividades como jornalista, romancista, tradutora, cronista e teatróloga. Em 1977, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Fixou residência fora do Ceará, mas nunca esqueceu sua terra, que ela fez questão de eternizar nos enredos de suas obras ficcionais.
Após o livro de estreia, publicou, em 1932, o romance João Miguel, a que se seguiram: Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), O galo de ouro (1950) e Memorial de Maria Moura (1992). Escreveu também as peças de teatro Lampião (1953), e A beata Maria do Egito (1958); os volumes de crônicas A donzela e a moura torta (1948), Cem crônicas escolhidas (1958), O caçador de Tatu (1967) e Mapinguari (1964-1976); e os livros infantis O menino mágico (1969), Cafute Pena-de-Prata (1986) e Andira (1992).
No dia 4 de novembro de 2003, enquanto dormia em sua rede, no seu apartamento carioca, deixou a vida. Esse símbolo de sua nordestinidade a acompanhou até o fim, pois, a pedido seu, o féretro que conduziu seu corpo foi forrado com uma rede, não dando, pois, por encerrado, seu amor às suas raízes.
A EXPERIÊNCIA DA FOME EM O QUINZE
O Quinze, publicado em 1930, tem no enredo a paisagem social e humana de um nordeste massacrado pela seca. O drama de retirantes como Chico Bento, Cordulina e filhos é o foco principal, mas outras questões submergem, como a situação da mulher na sociedade do início do século XIX. Conceição rompe com o modelo estabelecido para o sexo feminino, quando renuncia, a despeito do contexto adverso de sua época, ao destino de toda mulher sua contemporânea: o casamento e a maternidade.
O enredo, considerado por Bosi (1997, p.447) como neo-realista, é estruturado em dois planos: o drama do vaqueiro Chico Bento e sua família retirante; e a relação afetiva de Conceição, professora culta, de família tradicional, e Vicente, que, embora seu primo, é um rude proprietário de terras e criador de gado. Embora haja essas duas linhas condutoras da história, com personagens relevantes, a protagonista é a própria seca, responsável por todo o desenrolar das ações.
A narrativa investe na oralidade, demonstrando que o ciclo ficcional é brasileiro na base das fundações (ADONIAS apud COUTINHO, 1996, p. 277). É, também, psicológica, pois, na medida em que informa as ações dos personagens, expõe interrogações e dúvidas sobre o que poderia ter passado pela cabeça deles. Assim, o leitor convive com os fatos e com sua repercussão nos seres que os vivenciam.
A fome decorrente da seca é a grande vilã da história que tece o percurso trágico do vaqueiro, de sua mulher e seus filhos. Em função da falta de trabalho, a família é obrigada a imigrar para a cidade grande em busca de sobrevivência. A partir daí, se dá a tragicidade do destino: eles buscam sobrevivência, mas o que encontram é uma saga de dores e perdas, pois, as consequências da marcha são piores do que as já vivenciadas na região seca. De fato, ao deixarem a fazenda onde sempre viveram, deixam o habitat natural e suas raízes, com pouco dinheiro e muita esperança de chegar ao Norte, onde pensam conseguir emprego na extração da borracha.
Outra perda é a da dignidade, que, para o homem nordestino, não está nas suas posses, mas na sua conduta, no exemplo que transmite os valores morais aos filhos, por mais humilde que ele seja. Chico Bento, em decorrência da miséria em que se vê, mata uma cabra que encontra pelo caminho. Sua fome e a de seus filhos falam mais alto, e ele esfacela o animal, sem qualquer questionamento sobre o ato de se apropriar do alheio. O dono da caba aparece e, além de tomar-lhe a carne, chama-o de ladrão, humilha-o, sem querer ouvir justificativas. Dá-lhes apenas as tripas para saciarem a fome, nivelando-os, pois, aos bichos que comem vísceras jogadas no lixo: “Chico Bento perto olhava-a, com as mãos trêmulas, a garganta áspera, os olhos afogueados. - Cachorro! Ladrão! Matar minha cabrinha! Desgraçado! (...) - Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de carne, um taquinho ao menos que dê um caldo para a mulher mais os meninos! Foi pra eles que eu matei! Já caíram com fome! - Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como você fez, dar-se tripas é até demais!” (QUEIROZ, 1930, p. 68-69).
Talvez a tragédia maior esteja no esfacelamento da família inicialmente composta de sete membros. O menino Josias, de 10 anos, num momento de fome, comeu mandioca crua, envenenando-se. Agonizou em morte lenta, sem que nada se pudesse fazer para aliviá-lo: "Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz" (QUEIROZ, 1930, p. 42).
Pedro, o mais velho, de 12 anos, à revelia dos pais, fugiu com comboeiros de cachaça, quando entraram na cidade de Acarape: "Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?".
Chico Bento chega ao Campo de Concentração, em Fortaleza, apenas em companhia de Cordulina, sua mulher, e dos outros três filhos. O objetivo é conseguir uma passagem para o norte. Conceição, neta da fazendeira que era patroa do casal, os encontra em meio à multidão de famintos; depois de ajudá-los, arranjando uma passagem de navio para que eles viajem para São Paulo, a moça fica com o menino mais novo, Duquinha, de 2 anos, que está doente e é seu afilhado. Os dois – Chico e Cordulina - viajam em companhia dos dois filhos restantes, cuja identidade sequer é mencionada.
A fome é o elemento desencadeador do trágico, das perdas: A pobre Cordulina fica sem três dos seus filhos, chora durante dias, mas ainda tem ânimo para tentar a vida em São Paulo, eldorado dos retirantes nordestinos. Ela personifica a mulher submissa, sem instrução, que sofre, mas mantém a vida atrelada à do marido. Alienada, vive as dores calada, entregando à sorte o seu fado. Chico Bento é o tradicional vaqueiro pobre que vive a cuidar do que pertence a outros. Nada tem de seu para oferecer à família, senão a miséria do próprio destino. Para ele, a perda dos filhos não constitui tragédia, mas uma contingência. Vejamos a fala dele: “- Minha comadre, quando eu saí do meu canto era determinado a me embarcar para o norte. Com a morte do Josias e a fugida do outro, a mulher desanimou e pegou numa choradeira todo dia, com medo de perder o resto... Eu queria primeiro que a senhora desse uns conselhos a ela; e ao depois que me arranjasse umas passagenzinhas pro vapor. Esse negócio de morrer menino é besteira... Morre quando chega o dia, ou quando Deus Nosso Senhor é servido de tirar..”. (QUEIROZ, 1930, p. 107).
A experiência da fome, embora coloque o homem em condição animalesca, não retira de Chico Bento os princípios arraigados. Leia-se a passagem em que ele encontra companheiros retirantes em situação de total miséria: “Um dos homens levantou-se com a faca escorrendo sangue, as mãos tintas de vermelho, um fartum sangrento envolvendo-o todo: - De mal-dos-chifres. Nós já achamos ela doente. E vamos aproveitar, mode não dar para os urubus” (QUEIROZ, 1930, p.42-43). Chico encarna a figura do homem nordestino, que pode se conformar com as dores da perda de entes queridos – cuja designação atibui a Deus -, mas nunca com a perda da dignidade. Ele não perde a sua generosidade, a sua capacidade de ver o outro como um ser humano.
Diante da cena, ele reparte os alimentos que leva para matar a fome da família, e não recua ante as indagações de sua mulher: “- Chico, que é que se come amanhã? A generosidade matuta que vem na massa do sangue, e Florência no altruísmo singelo do vaqueiro se perturbou: - Sei lá! Deus ajuda! Eu é que não haveria de deixar esses desgraçados roerem osso podre...” (QUEIROZ, 1930, p. 43).
Embora não haja, na história, a divisão clichê de "pessoas pobres e boas" e de "pessoas ricas e más", há a denúncia da corrupção, mostrando que existem os que se aproveitam da desgraça dos outros para levar vantagem: “- Desgraçado: quando acaba, andam espalhando que o governo ajuda os pobres... Não ajuda nem a morrer! O Zacarias segredou: - Ajudar, o governo ajuda. O propósito é que é um ratuino... Anda vendendo as passagens a quem der mais...” (QUEIROZ, 1930, p. 33). Chico, entretanto, mesmo se revoltando, não permite que a miséria abale sua generosidade nem sua fé. As adversidades não retiram dele a esperança de dias melhores: parte num vapor sem pensar no passado, mas vislumbrando tão somente o futuro.
OS ROMANCES E AS MUITAS HISTÓRIAS
O segundo romance de Raquel é o mais social e político de todos, Caminho de Pedras, publicado em 1937, cuja trama transcorre no início do Estado Novo do ditador Getúlio Vargas. Paralela à luta política dos militantes, tem-se a história de Noemi, que deixa o marido, o ex-comunista João Jaques, por conta de uma paixão proibida, e se permite fazer suas próprias escolhas, enfrentando todos os percalços que a vida lhe irá impor, inclusive a perda de um filho ainda criança. Assume a luta política de seu segundo marido, Roberto, preso político e, no final, ainda idealista, grávida, torna-se símbolo da participação feminina na vida pública e sinal de esperança pela vida que cresce em seu ventre. São nítidas as críticas e as denúncias ao Integralismo e ao autoritarismo do Estado Novo de Getúlio Vargas.
Já João Miguel tem como cenário o presídio de uma cidade do interior nordestino e, como protagonista, um homem simples: João Miguel. Alcoolizado, ele comete inesperadamente um crime e é logo preso; toda a sua história transcorre dentro do presídio, onde recebe a visita de Santa, companheira que o abandona por um cabo. Lá também está recluso o coronel Nonato, criminoso de outra classe social, preso somente pro ser da oposição política. A cadeia é um espaço circunstancial que se coaduna perfeitamente com a ação. O relato apresenta, predominantemente, os conflitos pessoais de João atrás das grades e finda com a sua liberdade e a falta de rumo depois de tanto tempo encarcerado.
Essa obra foi motivo de desentendimento entre Raquel e membros do Partido Comunista a que ela era filiada, na época, já que eles não admitiam que o personagem assassino fosse um homem do povo. A escritora, sentindo cerceado o seu processo criador, rompeu com o partido e não modificou o enredo conforme fora orientada por eles.
As três Marias, romance de formação, focaliza, inicialmente, a vida de três moças num internato feminino de orientação católica: Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória. É Maria Augusta (Guta) quem narra a história, os dramas e medos de cada uma. Fora do colégio, ela vive a adaptação ao mundo exterior, não se acostuma à vida e em casa, com a madrasta metódica, e se lança às duras experiências que a levam à maturidade como pessoa e como mulher. Afloram questões sociais e evidencia-se a análise psicológica dos personagens.
Maria Augusta (Guta) representa a inquietação da mulher em busca de seu espaço, de sua identidade. Enquanto Maria da Glória se dedica à família e Maria José se volta para a religião, ela se lança na vida, e, após relacionamentos amorosos mal sucedidos e um aborto, continua seus destino num processo sofrido de ajustamento ao mundo.
O galo de ouro foi publicado em folhetins na revista O Cruzeiro, em 1950, e editado como romance no ano de 1985. A ação, ambientada na Ilha do Governador, é diversa das dos demais: em todos os quarenta capítulos, convive-se com o submundo carioca de terreiros de macumba, mães de santo, bicheiros e policiais, o que, afinal, traça uma realidade tão áspera como a do chão nordestino que a escritora privilegia em suas tramas.
DÔRA E SEU PERCURSO DE DORES
Em 1975, Rachel publicou Dôra, Doralina, cuja ambientação inicial é o interior do Ceará, precisamente a fazenda Soledade, localizada em um município fictício denominado Aroeiras. Dividida em três partes, Livro de Senhora, Livro da Companhia e Livro do Comandante, a saga de Maria das Dores, ou Dôra, como prefere ser chamada, se desloca da fazenda Soledade para Fortaleza, depois para o Rio de Janeiro, fechando o ciclo ao retornar, no final, à fazenda. A história de dores e perdas é contada pela protagonista que, inicialmente frágil e dependente, torna-se uma mulher livre, emancipada, até apaixonar-se pelo Comandante de um navio, a quem se submete por opção e amor.
Dôra é uma personagem marcada pala dor. Perde o pai muito criança e é criada pela mãe – uma mulher dominadora, seca, que em vez do amor maternal lhe oferece a indiferença. Elas não se amam, mal se suportam numa competitividade pouco natural. Dôra talvez desejasse ter a força da mãe; ela a admira, acha-a robusta, rosada, enquanto se sente “um fiapo de gente” e tem, em casa, a posição de uma hóspede. Do outro lado, Senhora, quem sabe, desejasse a juventude da filha; não queria dividir com ela sequer as recordações do marido. Firmava-se numa postura de superioridade como se Dôra, por ser a mais nova e igualmente dona da fazenda, ameaçasse a sua posição.
Laurindo escolheu Dôra para casar-se pela idade e, principalmente, como diziam as más línguas de Aroeiras, porque, escolhendo Senhora, ele teria direito apenas a um pedaço daquela terra. Mas era Senhora, imediatamente, a dona do poder e, por isso, ele precisava ter as duas. Senhora aceitava, porque lhe era cômodo; tinha o seu homem, que era o homem da sua filha, com quem sempre parecia competir, mas permanecia com a sua liberdade e não perdia a proteção do título de viúva. Mas Dôra sabia que merecia mais do que aquele amor de conveniência; casou-se com ele por falta de opção, para mostrar à mãe que existia quem a desejasse. O casamento, entretanto, foi uma decepção; sequer o filho que geraram chegou a nascer.
É a decepção que dá impulso para que Dôra lute e consiga a sua liberdade. A Companhia de Teatro foi o passo seguro para a sua independência. Deseja um amor e não qualquer um, como o daqueles homens que se aventura a conhecer. Sabe conviver com o espírito malandro de Seu Brandini, sem que isso a incomode; torna-se atriz, enfrentando as adversidades da profissão, e não perde a sua essência de mulher correta, com princípios bem definidos, embora não queira se ater a nenhum questionamento a respeito do certo e do errado. A fase da Companhia é de liberdade e aprendizagem. O passado permanece como uma pontada bem do lado, que ela vai driblando sem anestesia.
Com o Comandante, Dôra abre mão da independência conquistada em nome do amor. A moça que enfrentava a altivez de Senhora e que não se submetia aos desmandos do primeiro marido, renuncia à profissão que confessadamente lhe agradava e se entrega de corpo e alma a um homem machista, contraventor, com vícios e ímpetos de violência. Ela cala, mas o seu silêncio é expressivo, conveniente. Ele lhe deu o amor que o pai não pode dar e que fez tanta falta, o mesmo amor que a mãe e o primeiro marido lhe negaram. Dôra jogou tudo para o alto, porque todo o resto ficava pequeno diante da sensação de amar com loucura e ser correspondida. Ela não se despersonalizou, porque soube pesar bem os seus desejos e, se cedeu, foi por ser forte. Se ela se tornou submissa e passiva, foi conscientemente.
Com a perda definitiva desse amor, uma metade foi extraviada. Mas ela não foi destruída; doeu tanto que ficou dormente. A sua chance de se reedificar foi no reencontro de suas raízes, foi assumindo o lugar que Senhora lhe tirou, enquanto viva. Reconstruindo a fazenda, ela tomou posse do condado de sua mãe e passou a ter a posição que outrora, inconscientemente, ambicionou. Só, mas com a certeza de ter-se dado a chance de conhecer a vida e o amor verdadeiro. Ela é a própria personificação da dor, porque a conheceu na carne; sobretudo porque viveu e, como dizia o Comandante, “a vida é toda um doer”.
MARIA MOURA – SÍNTESE DAS PERSONAGENS FEMININAS
Memorial de Maria Moura, a última criação ficcional de Raquel, surgiu em 1992,e trouxe uma trama ambientada no sertão, em meados de 1850, protagonizada por Maria Moura, a menina explorada sexualmente pelo padrasto que se transforma na líder de um bando, obstinada por construir seu império.
Sobre o processo criador, a própria autora declarou: “Eu estava fazendo um trabalho com minha irmã Maria Luíza sobre a seca do Nordeste. Fomos procurar livros antigos e descobrimos que a primeira grande seca registrada oficialmente aconteceu em Pernambuco em 1602. Nessa seca, uma mulher chamada Maria de Oliveira tornou-se conhecida, porque, juntamente com os filhos e uns cabras, saiu assaltando fazendas. Pois eu fiquei com essa mulher na cabeça. Uma mulher que saía com os filhos e um bando de homens assaltando fazendas era a Lampiona da época, pensei. Ao mesmo tempo, eu sempre admirei muito a Rainha Elisabeth I da Inglaterra, que morreu no início do século XVII. Li várias biografias dela, a ponto de me sentir uma espécie de amiga íntima, dessas que conhecem todos os pensamentos e sofrimentos. A certa altura, pensei: ‘Essas mulheres se parecem de algum modo’. E comecei a misturar as duas. Estava pronto o esqueleto do romance. A partir daí fui desenvolvendo os episódios”.
O livro tem narrativa polifônica: ora fala a personagem Marialva, ora o Beato Romano, Padre José Maria, Irineu e Tonho, ora Marialva; na maioria das vezes, a própria Moura conta sua saga ao leitor. A participação desses diversos narradores rompe a linearidade do enredo e faz com que se misturem as forças e as fraquezas, as virtudes e os defeitos, traçando um painel humano que obedece apenas à lei da sobrevivência, mesmo que isso implique a renúncia aos valores padronizados pela religião e pela sociedade.
Nas primeiras páginas, o leitor se depara com três núcleos que configuram histórias distintas que vão se entrelaçando: o de Maria Moura, dos primos inimigos dela e o do Padre José Maria (Beato Romão). Depois, surgem Marialva, Valentim e sua família. A narração dos últimos capítulos é feita por Moura e pelo Beato.
Maria Moura, depois de conquistar sua independência e seu poder de fogo na casa grande que constrói na Serra dos padres, conhece o amor, mas, ao ter que optar entre ele e sua fortaleza, decide por eliminá-lo. Cirino despertou seu coração, mas traiu sua confiança e ela não pôde perdoá-lo. Chorou furiosa, mas não abriu mão de sua hegemonia, embora admitisse estar apaixonada: O meu mal era aquela grande fraqueza por ele que eu sentia. Eu gostava de comigo chamar aquilo de amor. Mas não era amor, era pior. Não era cio(...) E eu me imaginando tão forte, tão braba. Era afronta - Era para acabar comigo(...) aquele coisinha ruim(...) solapar os alicerces do meu castelo! (...) por amor dos trinta dinheiro de Judas! E eu adorar um desgraçado desses, abri para ele o meu quarto, a minha cama, o meu corpo. Foi humilhação demais. Se ainda soubesse rezar, rezava, tão desesperada me sentia. (...) Como é que vou acabar com o Cirino, sem acabar comigo?(...) Como posso arrancar o coração para fora? Ninguém pode fazer isso e continuar vivo. E se me matasse com ele?(...) Não. Eu quero morrer na minha grandeza. Manda matá-lo, mas, a partir daí, já não encontra motivo para viver. Lança-se numa aventura praticamente suicida.
A Rachel de tantas faces, a do teatro, a da crônica, a de literatura e a do romance, é uma só: a menina que terminou Conceição quando, na madura idade, fez Maria Moura; é a mulher nordestina que celebrou sua terra, mas que teve como chão perene, na verdade, a condição humana. Rachel de Queiroz atingiu, com a criação de Dôra, a plenitude da personagem feminina iniciada em Conceição (protagonista de O Quinze) e finalizada em Maria Moura (protagonista do Memorial de Maria Moura), como afirmou Lourdinha L. Barbosa (1999). Suas personagens são tão fortes, tão frágeis, tão “humanas” como todas as grandes mulheres do mundo.
BIBLOGRAFIA PARA CONSULTA
BARBOSA, Maria de Lourdes Leite. Protagonistas de Rachel de Queiroz: Caminhos e descaminhos. São Paulo: Pontes, 1999.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1997.
COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo de Faria. A literatura no Brasil.
São Paulo: Global Editora, 1996.
QUEIROZ, Rachel de. Dôra, Doralina. 18a. ed. São Paulo: Siciliano, 1992
QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 1930.
QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004.
Aíla Sampaio – Professora da Unifor - E-mail: ailasampaio@unifor.br
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
As paixões de Shakespeare, segundo Teófilo Silva.

Teófilo Silva é cearense radicado em Brasília, leitor de Shakespeare desde a adolescência. Para compensar a aridez do Planalto, onde mora há duas décadas, criou a Sociedade Shakespeare de Brasília e passou a ministrar periódicas palestras sobre a obra do Bardo. Sua aguda visão crítica do panorama sócio-político brasileiro e seu apurado conhecimento da obra shakespeareana resultaram num livro intrigante e ousado: A paixão segundo Shakespeare (W Edições: Brasília, 2009, 368p.).
Advirto os incautos: não se trata de uma crítica do ponto de vista literário nem de mais um trabalho acadêmico acerca de Shakespeare. Teófilo mostra, em seus ensaios, as peças encenadas na realidade política e social do nosso país. Os fictícios personagens ganham rostos e nomes reais, e o cenário não é outro senão a terra brasilis, notadamente, Brasília, palco de corrupção e aberrações. Revoltado com as injustiças sociais, Teófilo, ácido observador do comportamento permissivo dos homens ‘graves’, trouxe à cena Hamlet, Horácio, Romeu, Julieta, Macbeth, Petrúquio, Catarina, Ájax, Tersites, Brutus, Otelo, Desdêmona, Ricardo, Ana, Lear, Cordélia, Falstaff, Rosalinda, Proteu, entre outros dos 1.200 personagens do teatrólogo inglês, para mostrar a perenidade e a atualidade deles. O Brasil é, hoje, um teatro medieval, a encenar práticas obscuras, tal como o fazia a Inglaterra elizabetana, que serviu de pano de fundo aos enredos do Bardo.
Teófilo mostra que a obra de Shakespeare é um conjunto (quase) uniforme, como a Bíblia, pois ela toda se volta para a comédia humana. Diz: “é como se ele tivesse a nítida convicção do que estava fazendo, desde o primeiro livro. Ele iluminou todos os recantos da alma humana em sua obra. É o homem diante da tarefa de viver, sobre os mais diversos papéis que ele desempenha na sua luta contra a morte, pelo seu desejo de vida e pelas imposições que ela provoca” (p.338). Ele cita, no decorrer dos ensaios, trechos de todas as 38 peças para ilustrar os ‘enredos’ da vida real. Criterioso, ele faz também uma análise sobre as traduções de Shakespeare para a Língua Portuguesa e fala do desafio de ler as peças no original. Critica muitas adaptações delas para o teatro, que mais parecem ‘puro entretenimento’, e não deixa de discutir as dificuldades enfrentadas pelos que se aventuram a fazer um bom trabalho.
Nos nove ensaios que compõem a obra, Teófilo mostra, com apuro estético e a simplicidade dos que têm consciência do uso da linguagem, a visão de Sheakespeare sobre as Paixões. Em “A Paixão segundo Shakespeare”, texto que dá título ao livro, ele discorre acerca dos leitores e admiradores do teatrólogo, situa-o no tempo e no espaço, apontando já a atemporalidade de sua criação. Em seguida, abre um capítulo intitulado “Paixão pelo homem”, onde enfoca aqueles que ele considera os mais fortes sentimentos humanos: ‘ Amor’ e o ‘Orgulho’, a que se seguem: “A paixão pela ordem” (O poder e A justiça), “A paixão pela vida” (A amizade), “A paixão por ele” (Freud X Shakespeare e Marx, leitor de Shakespeare), “O fim da paixão” (Entre a vida e a morte). Neste último, ele assinala que o tema da morte é bastante recorrente, fato até natural, já que quase duas dezenas das peças são tragédias, gênero predominante na época. A morte, na obra, segundo o autor de A paixão, representa o medo, o nada o absurdo, a revolta, a ironia, o desespero, a dor, a religiosidade, a transcendência e, ironicamente, a comicidade.
Corrupção, desonestidade intelectual, ciúme, maldade, ambição, sede de poder, complicadas relações entre pais e filhos, nada fugia à pena do Bardo. É ler “Rei Lear”, “Macbeth”, “Otelo”, “Os dois Fidalgos de Verona”, entre outras peças, ou ouvir Jaques, personagem da peça “Como Gostais”, quando diz “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”, para deslocar-se do século XVI para o nosso tempo. As marcas de comportamento traçadas por Shaskespeare, em seus personagens, são as mesmas marcas que se notam no homem contemporâneo, agravadas pela manipulação da mídia que impõe ‘modelos’ nocivos, ditaduras de beleza, faz apologia ao silicone, a tatuagens e desperta o espírito voyeur com programas do tipo Big Brothers da vida.
Teófilo interroga seu leitor: Por que devemos nós, brasileiros, ler Shakespeare? Responde, utilizando as palavras do Professor e crítico Harold Bloom: ‘Porque Shakespeare alarga a nossa mente, amplia a nossa capacidade de visão e existência, dando-nos uma dimensão de amplitude e profundidade’. Seus personagens saem de dentro das páginas dos livros e dos palcos para entrarem na vida, tornando-se imortais. Leitor/expectador e personagens conversam intimamente por meio da linguagem simples e da identificação que eles possibilitam.
O livro de Teófilo facilita o entendimento da obra de Shakespeare. Mais que isso: as interpretações ousadas, as associações dos enredos fictícios do século XVI às histórias reais encenadas no cenário brasileiro, lançam uma luz sobre a nossa realidade, e colocam à mostra as mazelas de uma sociedade perdida, cujos valores foram invertidos. É um grito de revolta com a política brasileira e seus mentores, assunto grave, mas tratado em grande estilo quando cotejado com a monumental obra de Sheakespeare. Difícil tratar de um assunto tão sério, de modo tão leve e sedutor como o autor o fez. Não foi à toa que Paulo Reis, no prefácio, a obra diz que ela é flamejante e dá uma bela contribuição para o aprimoramento civilizatório nacional. De fato, A paixão segundo Shakespeare é um tiro certeiro na mediocridade, “ uma verdadeira dádiva para todos os que querem um Brasil melhor”.
Apresentação do livro no lançamento em Fortaleza - Ideal Clube, 24/01/2010
A Literatura no Mundo virtual – textos apócrifos e falsas autorias na internet – Parte I
A internet tem sido uma ferramenta eficaz ao democratizar a publicação de textos literários, mas tem, por outro lado, dado espaço a imbróglios relativos à autoria. Esta pesquisa mostra a profusão de textos apócrifos no mundo virtual, bem como equívocos quanto aos créditos dados em poemas e crônicas de escritores consagrados na literatura universal. Como são muitos os casos, daremos continuidade às amostras na Parte II do artigo.
O mundo virtual ampliou os espaços da literatura, facilitou a publicação de textos literários em blogs e sites e, sem dúvida, democratizou o acesso de estudantes e internautas em geral a textos antes restritos aos livros.
Essa facilidade, entretanto, não é totalmente benéfica. Pesquisas sérias devem ser feitas em sites sérios, pois a democracia só é positiva quando está na mão de quem tem capacidade e caráter para exercê-la. O espaço virtual é terra de todos e de ninguém.
Há quem se preocupe com a credibilidade do que posta, e cita autorias e fontes; há pessoas mal intencionadas, que utilizam o ócio para fazer confusão; e há os incautos, que recebem e repassam textos sem qualquer preocupação com a autenticidade deles. Claro que ninguém é obrigado a saber de cor a autoria de todos os textos, mas, antes de repassá-los ou utilizá-los em pesquisas escolares e acadêmicas, bem como usá-los em avaliações e provas, deve-se conferir a autoria em livros ou com profissionais da área.
Não bastasse a omissão da autoria, que constitui um crime previsto na lei nº 10.695, relativa à violação de direito autoral, os escritores estão sendo vítimas de outro engodo: a atribuição de autoria. Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Dráuzio Varela e Mário Prata, por exemplo, estão vivos e podem rechaçar a atribuição, embora não possam detê-la. Já Shakeaspeare, Clarice Lispector, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Charles Chaplin, Fernando Pessoa, entre outros, circulam na internet como autores de textos que nunca escreveriam e nada podem fazer. O pior é que pessoas utilizam como fonte de pesquisa sites abertos a contribuições, como o www.pensador.info; qualquer pessoa, por mais ingênua que seja, vasculhando as páginas desse site, percebe que um mesmo texto é postado várias vezes com autorias diferentes, tal como na página da Wikipédia, onde qualquer internauta pode se cadastrar e postar o que quiser. Já foram criados blogs e comunidades no Orkut para esclarecer dúvidas quanto a autorias, contribuindo, assim, para que o espaço virtual não seja apenas um celeiro de engodos, um desserviço ao aprendizado da literatura, mas um espaço legítimo que pode divulgá-la e servir de fonte de conhecimento, com credibilidade.
Drummonds
Carlos Drummond de Andrade, nome consolidado na literatura brasileira, tem estilo discreto e comedido, avesso, entretanto, a todo conservadorismo estético. Deixou uma obra consistente, acrescida dos poemas eróticos, de igual qualidade, desengavetados após sua morte. Não bastassem esses acréscimos, interneteiros insatisfeitos se deram o direito de atribuir-lhe versos que não constam na sua bibliografia, como é o caso do poema “Viver não dói”, amplamente postado em blogs e repassado em e-mails e scraps:
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.
Vanessa Lampert, uma das pessoas sérias, no mundo virtual, que estão lutando pelo crédito aos verdadeiros autores, fez uma análise interessante desse texto e deu uma explicação bem embasada. Em seu blog, ela discorre sobre o possível passo a passo da construção do poema, a começar pela crônica “As possibilidades perdidas”, de Martha Medeiros, publicada em 20 de agosto de 2002, no site Almas gêmeas. Ela diz que Martha se inspirou em um verso do poema “Canção”, do poeta mineiro Emílio Moura, amigo e contemporâneo de Drummond: “Viver não dói. O que dói / é a vida que se não vive”, discorreu sobre a vida e concluiu com uma interrogação seguida de uma resposta: “Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais". A crônica de Martha, transformada em poema, recebeu o acréscimo de um texto da novelista inglesa Mary Cholmondeley : "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade." ("Every day I live I am more convinced that the waste of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence that will risk nothing and which, shirking pain, misses happiness as well."), com o enxerto final pinçado do livro You gotta keep dancin, de Tim Hansel, escrito logo após o acidente que ele sofreu e inspirado nas dores intermitentes que o perseguiram a partir daí. Ele diz que não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria: "Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy."
Há muitos outros textos atribuídos ao poeta itabirano. O segundo mais citado é “Conselho de um velho apaixonado”:
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer
seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção: pode ser a pessoa
mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está
esperando desde o dia em que nasceu.
Esse poema não consta em nenhum dos seus livros, nem se sabe ao certo quem é o verdadeiro autor. Também não constam em sua Obra Completa: "Desejo(s) e/ou Síntese da Felicidade” (“Desejo a você/Fruto do mato/Cheiro de jardim/Namoro no portão/Domingo sem chuva" ); “Reverência ao destino” ("Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião), que vem sempre acrescido dos versos do poema intitulado: “Eterno”, de autoria dele; e "Inconfesso Desejo” (“Queria ter coragem / Para falar deste segredo / Queria poder declarar ao mundo / Este amor / Não me falta vontade /Não me falta desejo”).
As falsas atribuições ao poeta proliferam na Net como uma epidemia. A ele creditam: "Almas Perfumadas” ( Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daqueles que conseguimos acender na Terra), de Ana Claúdia Saldanha Jácomo; "Máscara”, de Dante Milano; a frase "Não sei quando virá o amanhecer, por isso abro todas as portas" ("Not knowing when the dawn will come I open every door."), de Emily Dickinson.
"Recomeçar” (Não importa onde você parou,/em que momento da vida você cansou,/o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar) foi, inclusive, lido por Ana Maria Braga em seu programa “Mais você”, com com o título “Faxina da alma”e os créditos dados a Drummond. A criação é, no entanto, de Paulo Roberto Gaefke e, em algumas versões deturpadas, apresenta ainda os versos VII – de “Da Minha Aldeia” no final: (Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura) que são de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
A conhecidíssima crônica “Ter ou não ter namorado” (“Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema na sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho”), de Artur da Távola, aparece na Net, variadas vezes, como de Drummond.
Pertinente seria que os internautas sem responsbilidade lessem um dos poemas do livro “Viola de Bolso”, do mineiro de Itabira: “Poupem-me, por favor ou por desprezo, se não querem poupar-me por amor”.
Veríssimos inverossímeis
Luís Fernando Veríssimo, cujos textos são sóbrios e bem humorados, na Internet, aparece como autor de divagações que mudam o seu estilo: ora ele é romântico, conselheiro, ora adere ao filão da autoajuda. Ao ler a crônica “Quase”, ele mesmo ficou surpreso ao descobrir que a obra levava seu nome e estava amplamente difundida em slides:
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. /.../ Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Em 2005, no Salão do Livro de Paris, Veríssimo recebeu uma coletânea de textos de escritores brasileiros traduzidos para o francês, das mãos da própria autora, e se surpreendeu ao ver que o seu escolhido era “Quase”, cuja tradução ficara “Presque”. Esclareceu o equívoco com a organizadora e, ao retornar ao Brasil, contou o episódio na sua coluna do Jornal Zero Hora, relatando episódios, em tom jocoso, sobre o tal texto: “O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece. O texto que encantara a senhora se chamava "Quase" e é, mesmo, muito bom. Tenho sido elogiadíssimo pelo "Quase". Pessoas me agradecem por ter escrito o "Quase". Algumas dizem que o "Quase" mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o "Quase". Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê?” (ZERO HORA, 24/3/2005). E finalizou: "Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do ‘Quase’ para agradecer a glória emprestada".
Não muito tempo depois recebeu uma carta de uma estudante catarinense, Sarah Westphal Batista da Silva, de 21 anos, contando ser a verdadeira autora. A revelação valeu uma reportagem na capa do Caderno Variedades do jornal Diário Catarinense (e também no clic RBS, o portal da RBS) feita pelo repórter Felipe Lenhart, que descobriu a jovem estudante depois de muitas navegadas pela internet.
“A felicidade pode demorar”, cujo título real é "O amor e a vida" ou "Uma reflexão sobre o amor e a vida" também não é do Luís Fernando Veríssimo, foi escrito por François de Bitencourt:
Às vezes as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer
senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado.
Às vezes nos falta esperança. Às vezes o amor nos machuca profundamente,
e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa.
Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar,
tanto quanto precisamos respirar...é nossa razão de existir.
/.../ A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...
“Tipo assim”, de Kledir Ramil, também é arbitrariamente postado como de Luís Fernando:
Tô ficando velho! Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente na saída do show do Charlie Brown Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa.
E aí, o show foi legal? /.../
Fiquei tipo assim calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea.
Um dos mais espalhados pelo mundo virtual, em nome do cronista gaúcho, é “Um dia de Modess na vida de um homem”. O texto é, de acordo com Beth Vidigal, de três jovens jornalistas – Nina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso (do site 02 Neurônio). O autor da crônica assina “Rolinha”. Já a crônica intitulada “Diga Não às Drogas”, que faz a referência aos “cantores e compositores goianos” ou aos “músicos de Goiás” circula também com o título de “Depoimento Emocionado de Luiz Fernando Veríssimo Sobre sua Experiência com as Drogas” igualmente não é dele:
“Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do "Leandro e Leonardo".
Achei legal, uma coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "amigo" e acabei comprando pela primeira vez. /.../ POR FIM NO ÚLTIMO ESTAGIO ESTAVA OUVINDO SERGINHO E SUA ÉGUA POCOTÓ. Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa”.
Betty Vigigal, em sua página Textos Apócrifos na Internet, comenta que a “Revista Veja, na edição de 9 de julho do mesmo ano, publicou uma nota na seção “Guia”, mencionando vários artigos que circulam, pela net, atribuídos a quem não os escreveu. Este foi um dos contemplados. No número seguinte, vários verdadeiros autores – de outros textos – identificaram-se. Mas esta brincadeira com a música chamada “brega” não teve a autoria reivindicada por ninguém”.
Sempre foram tantas atribuições de autoria feitas a Veríssimo que ele, já em 18 de janeiro de 2002, escreveu no Estadão, sob o título “Apócrifos”: “'Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outros grupos, com a minha assinatura, na Internet ou fora dela, não é meu. Todos os outros - inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário - são meus”"
Betty Vidigal adverte que “Quando Veríssimo diz: “Todos os outros – inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário – são meus”, refere-se, por certo, às inúmeras crônicas que escreveu e que, justamente por serem tão divertidas, tornaram-se “de domínio público” e foram transformadas em piada, em versões abreviadas que mantêm o sentido geral sem manter a sutileza dos diálogos verissimianos”.
Quintanas e Quintana
Outro gaúcho bastante agraciado com autorias falsas é o poeta Mário Quintana. O texto “Não quero alguém que morra de amor por mim”, um dos mais divulgados, inclusive em belos slides, é de Adriana Britto e tem como título “Certezas”. Leiamos uma parte dele:
Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
/.../
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.
Emílio Pacheco, pesquisador de textos apócrifos na Internet, já fez uma lista de "falsos Quintanas" no seu artigo homônimo e deu uma boa contribuição aos que querem levar a sério a bela atitude de repassar textos literários por e-mails ou scraps no Orkut. Leiamos um dos mais repetidos nas páginas virtuais: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. (...) Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”.Em forma de versos ou em prosa, esse texto circula pela internet em slides, montagens, em perfis do Orkut ou mesmo em forma de mensagens. A dupla Bruno e Marrone, inclusive, o declamou em um dos seus shows. Tornou-se comum, no mundo virtual, a colagem de textos de autores diferentes... nem sempre o sentimento da pessoa se traduz em um só poema e ela faz o recorte de versos, cola, e esquece de dar o crédito ao(s) autor(es). Nesse que citamos há pouco, há uma frase famosa de O Pequeno príncipe, de Saint-Exupery: “Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Já a frase “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação” foi retirada de um provérbio árabe. Outro enxerto foi feito há pouco tempo: “para o homem provar que é homem, não precisa ter mil mulheres, basta fazer uma feliz”.
Imbatível em quantidade de reproduções na Net é o texto que começa: “Com o tempo você vai percebendo que, para ser feliz com outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela”, que se encerra com a afirmação: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Não há absoluta certeza da autoria; há uma página na Internet em que o ‘poema’ aparece com a autoria de Kátia Cruz. Já o verso das borboletas é atribuído ao americano Walter D.Ehlers: Não corra atrás das borboletas, plante uma flor no seu jardim e todas as borboletas irão até ela. (http://sosfauna.braslink.com/reflex.htm). Uma informação, entretanto é segura: o texto não é do Mário Quintana.
Várias crônicas da Martha Medeiros circulam como se fossem de Quintana, com a forma adulterada e com colagens de frases e/ou versos alheios. Tal é o caso de: “Felicidade Realista”, “Promessas Matrimoniais”, “Sermão do Casamento” (também conhecido como "Casamento na Igreja"), “Sentir-se Amado” e “A impontualidade do Amor”. De acordo com Pacheco, essa atribuição de autoria de textos em prosa, que nada têm a ver com o estilo a Quintana, deve-se ao fato de Vinicius de Moraes ter escrito muitos nessa forma literária, e todos falavam de amor. O estilo de Quintana não é exatamente romântico; sua poesia, além de refletir o processo criador, reflete a existência, a infância, a vida de modo geral. Foge totalmente dessas características o poema constantemente repassado com o nome do gaúcho, cujo título é “A Idade Para Ser Feliz”, na verdade, escrito por Geraldo Eustáquio de Souza. Com “Amor é Síntese” ocorre o mesmo equívoco; a verdadeira autora é Mirtes Mathias. Na versão repassada na Net, o verso final aparece modificado: "E eu serei perfeito amor". Leiamos o poema na íntegra:
Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
Outros exemplos de apócrifos atribuídos a Quintana: “Algo sobre o amor” (“Para meus amigos que estão solteiros... casados... “). “Amadurecimento” (“Aprenda a gostar de você, a cuidar de você, e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você”.); e frases/versos como: “Se for para esquentar, que seja no sol, se for para roubar, que seja um beijo...” ; “Sentir primeiro, pensar depois/ perdoar primeiro, julgar depois...”. A cada dia parece surgir um novo texto ou poema falsamente atribuído a Quintana, de forma que é difícil elaborar uma lista completa, como assegura Pacheco. Esta foi iniciada por Lúcia Kerr Jóia, da comunidade ‘Afinal, Quem é o Autor’, atualizada com a ajuda de vários colaboradores, como Jane Araújo, Westh Ney e outros. Um poema verdadeiramente de Quintana aparece na Internet modificado, a começar pelo título de “O tempo” ou “A vida”, ambos errados. Vejam a versão original:
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-ªfeira...
Quando se vê, passaram sessenta anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Em alguns sites e blogs, o poema aparece com o verso “quando se vê, perdemos o amor da nossa vida”, com o acréscimo final: “E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”. Há outras variações, mas todas não passam de adulterações da forma original.
“Deficiências” ou “Dicionário do Quintana” é, na verdade, a parte final de um texto redigido pela professora Renata Vilella, da escola mineira Flor Amarela:
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive,
sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio,
de fome, de miséria.
E só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão.
Pois está sempre apressado para o trabalho e
quer garantir seus tostões no fim do mês.
/.../
A amizade é um amor que nunca morre.
As frases da professora foram reformuladas e colocadas em forma de versos, com o enxerto final de um verso do poeta gaúcho. Na seção "Notícias On-line" do site da escola, localizada em São Vicente-MG, ela desabafa: “Há meses recebi um e-mail dizendo que circulava na internet o texto que está escrito na minha apresentação como sendo de autoria de Mário Quintana, não levei a sério, para falar a verdade me senti até honrada, porém quando o senado federal divulgou no folder do Dia Nacional de Valorização da Pessoa com Deficiência escrevi uma mensagem para o Senador Flávio Arns, autor do projeto, pedindo que esclarecesse, mas não obtive resposta. Como o texto foi escrito no final de 1990, quando eu estava indo para o interior de Minas e Mário Quintana ainda era vivo, nem psicografado pode ter sido”.
A esses amantes dos recortes e das colagens, falseadores de versos e estilos, Quintana deve dizer, do alto de sua serena eternidade: “Eles passarão / Eu passarinho”.
Pessoa e outras pessoas
Fernando Pessoa é também constantemente perseguido pelos desocupados. A ele atribuíram parte crônica “O medo: o maior gigante da alma”, que, de fato, é do professor de literatura do Objetivo e da UNIP, Fernando Teixeira de Andrade. O fragmento que circula com a falsa autoria foi retirado deste texto:
“Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza. /.../ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
Do mesmo modo, não é de Fernando Pessoa o soneto “A concha”, mas de Vitório Nemésio. Vejam a primeira estrofe:
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Também não é de Pessoa: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. As pessoas certificam-se da autoria na própria internet e, não tendo comprovado legitimamente, arranjam as desculpas mais ‘amarelas’. Vejam o que foi respondido na página do Multiply de Vanessa Lampert, sobre o questionamento de autoria do texto acima: “Saber se Fernando Pessoa escreveu mesmo tal ou qual coisa faz parte do amá-lo como poeta, como o grande fingidor que o foi, como alguém que, de tão gigante, transformou-se em outros, deu voz a um "humano" que habita em cada um de nós. A questão é: QUAL Pessoa escreveu isto? A "caixa" onde repousaram os escritos guardados do funcionário público lisboeta que se tornou o maior poeta de Portugal depois de Camões AINDA guarda segredos. O aumento do período que leva para uma obra tornar-se de domínio público animou recentemente os herdeiros a fazer uma nova "limpa" e editar a obra completa revisada, em Portugal. E se a citação não fosse de Pessoa (e é), tudo bem. Tantos já tentaram e continuam tentando, depois dele, "escrever coisas como versos". É claro que Vanessa retrucou essa declaração e considerou irresponsável a atitude da moça, dando-lhe a alcunha de ‘clonadora’ de textos.
Vejamos outros textos atribuídos indevidamente ao modernista português:
“A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser. Ora tudo é o que é. Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é. Confunde-nos de si com isso”. Não se sabe quem é o autor.
“Amor não se conjuga no passado, ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente”. Autor correto: M. Paglia. Mas quem é M. Paglia?
“Do indivíduo temos que partir, ainda que seja para o abandonar”. Não se sabe o autor.
“Diógenes com uma lanterna em plena luz do dia) procurava um homem; Platão não procurava um homem”. Não se sabe o autor.
“Enquanto não superarmos/a ânsia do amor sem limites,/não podemos crescer/emocionalmente. Enquanto não atravessarmos/a dor de nossa própria solidão,/continuaremos/a nos buscar em outras metades./Para viver a dois, antes, é/necessário ser um”. Não se sabe o autor.
“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”. Trecho de uma crônica de Luis Fernando Verissimo. Aqui, pode ter havido uma confusão com o poema Cartas de amor : “Todas as cartas de amor / são ridículas./ Não seriam cartas de amor / se não fossem ridículas”.
“Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim, nem que eu faça a falta que elas me fazem. O importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível, e que esse momento será inesquecível” /.../. Autora: Adriana Britto.
“Navegue Navegue descubra tesouros,/mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá./Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra”./.../ Autora: Silvana Duboc . Aqui também pode ter havido uma confusão com o poema Navegar é preciso : “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / "Navegar é preciso; viver não é preciso. / Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: / Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.
“Um dia a maioria de nós irá separar-se /.../ Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,tantos risos e momentos que compartilhamos”. Não se sabe o autor.
Tentar justificar tais imbróglios com a multiplicidade da poesia pessoana, por conta de diferentes heterônimos e estilos, não convence. Até que seja provado, não é do autor o que não consta em suas publicações em livro.
É tão séria essa questão de confiabilidade nos sites em que pesquisamos! Por isso insisto em advertir os pesquisadores (professores, estudantes, curiosos, apaixonados pela literatura) que, se não conhecem o estilo do autor (mesmo quando têm tantos estilos como o Pessoa), procurem um livro para comprovar a autoria antes de utilizarem os textos em sites, trabalhos e até provas, onde já vi impresso o texto que citarei agora, com a autoria do Fernando Pessoa:
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo…
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história…
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma…
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta…
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
Em outro blog, o depoimento do que se diz o verdadeiro autor das três frases finais do poema, assinado com o pseudônimo de Nemo Nox, esclarece que o texto é uma montagem:
“No início de 2003, chateado com os obstáculos que encontrava e tentando ser um pouco otimista, escrevi aqui estas três frases: “Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo”. Não pensei mais nisso até que recentemente comecei a receber e-mails pedindo que eu confirmasse ser o autor do trechinho. Aparentemente, o trio de frases tomou vida própria e se espalhou pela internet lusófona com variações na pontuação e na atribuição da autoria. Começou aparecendo como título de fotolog (já encontrei uma meia dúzia com este nome) e como citação anônima em rodapé de mensagens (em vários fóruns de debate online). Depois alguém resolveu pegar um poema (possivelmente de Augusto Cury, autor de Dez Leis para Ser Feliz), colar o tal trechinho no fim e distribuir tudo como se fosse obra do Fernando Pessoa. Não demorou muito para que as minhas três frases começassem a pipocar pela rede atribuídas ao poeta português (afinal, é sempre mais bacana citar um famoso escritor luso que um quase desconhecido blogueiro brasileiro). Cheguei eu mesmo a duvidar da minha autoria. Poderia ter cometido um plágio inconsciente, recolhendo da memória alguma coisa lida no passado e achando que se tratava de material original? Revirei os poemas pessoanos em busca de pedras e castelos mas não consegui encontrar qualquer coisa remotamente parecida ao trecho em questão. Vasculhei os heterônimos e tampouco achei o guardador de pedras. Seria de qualquer forma estranho Pessoa ter citado Drummond desta forma e o fato não ser amplamente divulgado por estudiosos dos dois lados do Atlântico. Enfim, convenci-me, até que provem o contrário, que fui eu mesmo quem escreveu as tais linhas. Outra coisa engraçada é que nem me sinto orgulhoso de ter escrito isso, parece-me hoje até um pouco piegas, como aqueles cartazes motivacionais com fotos bonitas e frases otimistas. Até me admiro de não terem atribuído a autoria ao Paulo Coelho. Também tem gente que usa as frases na internet e me aponta como autor, mas para aumentar a confusão me chamam de Nemo Vox (devem achar que sou irmão do Bono) ou dizem que a citação é do livro Por um Punhado de Pixels (que nunca foi livro, sempre weblog). E agora? As frases estão soltas por aí, não vou brigar por elas, quem quiser dizer que são do Pessoa, do Veríssimo ou do Jabor, fique à vontade. Atribuições incorretas? Eu guardo todas. Um dia vou escrever uma tese”.
Os versos abaixo, divulgados seguramente como do poeta português, não são dele:
Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva,
para que possamos compreender
o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio,
quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
/.../
Na comunidade do Orkut ‘Afinal, quem é o autor?’, a jornalista Betty Vidigal descobriu tratar-se de mais uma criação de Paulo Coelho, publicada, em prosa, no livro "Manual do Guerreiro da Luz". Leiamos a versão original:
“O guerreiro da luz aprendeu que Deus usa a solidão para ensinar a convivência. Usa a raiva para mostrar o infinito valor da paz. Usa o tédio para ressaltar a importância da aventura e do abandono. Deus usa o silêncio para ensinar sobre a responsabilidade das palavras. Usa o cansaço para que se possa compreender o valor do despertar. Usa a doença para ressaltar a benção da saúde. Deus usa o fogo para ensinar sobre a água. Usa a terra para que se compreenda o valor do ar. Usa a morte para mostrar a importância da vida”.
Pouco tempo depois de o livro ter sido publicado, a Revista Época trouxe uma reportagem com o título “Alquimia literária”, declarando que Paulo Coelho era acusado de ‘transmutar’ um texto originalmente escrito pela psicóloga colombiana, Sonia Hurtado, colunista do jornal El Pais, de Cali. Ela acusou o escritor de plagiar o seu artigo intitulado “Cerrando ciclos”, publicado no dia 21 de janeiro de 2003. Segundo a Revista, o texto de Coelho foi publicado originalmente no jornal O Globo em 2004 e traduzido para o espanhol pelo semanário colombiano El Espectador, com o título “'Cerrar ciclos”' (“'Fechar ciclos”). Paulo Coelho, ao se defender, disse que encontrou o texto na internet e admitiu: “Não fui eu quem escreveu o original (infelizmente), mas resolvi adaptá-lo, e agora posso pelo menos reivindicar parte de sua autoria”. Quem quiser ler o artigo da Revista Época na íntegra: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html
Não são de Shakespeare
Não bastasse a obra monumental de Shakespeare, há ainda quem publique em seu nome textos que ele certamente não escreveu. Tal é o caso de: “O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que sofrem, muito curto para os que se alegram, mas para os que amam, o tempo é eterno”, de Henry Van Dyke, diplomata, pastor e escritor americano (1852-1933) . Confiram o texto original:"Time is too slow for those who wait, too swift for those who fear, too long for those who grieve, too short for those who rejoice, but for those who love, time is eternity”.
São apócrifos (e não de Shakespeare) os versos: “Perguntei a um sábio, / a diferença que havia / entre amor e amizade, / ele me disse essa verdade: / O amor é mais sensível e a amizade mais segura”/.../. Não é dele, igualmente, o texto “Aprendi” (ou “Depois de algum tempo”), mas de Verônica A. Shoffstal:
“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. /.../E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão./.../ “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar”.
O que nos parece é que alguém leu Shakespeare e pinçou seus pensamentos, envolvendo-os num emaranhado de frases. Note-se que o último pensamento - “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar” está numa fala de “Otelo”; Apenas trocram a palavra “dúvidas” por “dádivas”.
A respeito da nova autoria, vejam o comentário que Vanessa Lempert recebeu ao desvendar a autoria do texto: “Olá, meu nome é Camila, moro na cidade de União da Vitória, interior do Paraná, tenho quinze anos e uma opinião bem crítica com relação ao texto de Willian Ferdnand Shakespeare atibuído à Veronica Shoffstall. Primeiro, a autoria de Shakespeare sobre a verdadeira versão desse texto (que tem como verdadeiro título "Depois de um tempo você aprende") é simplesmente incontestável, traz todos os tradicionais traços literários que Shakespeare usava em textos de auto- ajuda, quanto a isso não há duvidas. Segundo, a versão dita distorcida e alongada do texto, fora escrita sem o menor propósito de má-intenção, a mais ou menos um ano atrás, é de minha autoria, e não passou de uma carta que eu escrevi a uma grande amiga para homenagear uma data especial. Como ele foi parar aí e quem o encaminhou, eu não tenho a menor idéia! Porém é verdade sim que o texto não passa de uma coletânea, eu apenas fiz uma pequena reunião do que eu mais gostava sobre Paulo Coelho, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e outros que a fraca memória não me permite citar agora, com base no texto de Shakespeare, mais alguns resquícios completamente originais de lições de vida,e ficou assim” (Sic).(Camila de Lima)
Desnecessário dizer que a Camila está completamente equivocada quanto a achar sua atitude natural e quanto a autoria que ela diz como certa do Shakespeare. Nada aí é do Bardo inglês, pois ele nunca escreveu textos de autoajuda. Quem não tiver acesso a livros, pode conferir o site que a Betty Vidigal indica como sério na compilação de obras dele: http://www.psrg.cs.usyd.edu.au/~matty/Shakespeare/,
Não são deles...
O belo poema “Por tudo que me deste”, divulgado como escrito por Florbela Espanca, é de autoria do poeta, também português, Carlos Queiróz e foi publicado numa Antologia organizada em Lisboa por Vasco Graça Moura em 2004:
Por tudo que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado.
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!
Já a frase “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”, erroneamente creditada a Henfil, é de Maurício Ceolin. Henfil apenas a leu em público, na época do movimento pela Diretas Já, e a utilizou como epígrafe de um livro seu. Outras flores alvo de confusão estão no poema “No caminho com Maiákovski”, atribuída ao poeta russo, quando, de fato, foi escrito por Eduardo Alves da Costa: “Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada...”.
“Revolução da Alma” – “Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue sua alegria, sua paz sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida” - não é de Aristóteles, mas de Paulo Gaefke, e está no livro Decidi ser Feliz, publicado em 2002. “Solidão”, texto que é repassado com uma foto do Chico Buarque e seu nome impresso, teve a autoria negada por ele. Foi escrito, depois se soube, por Fátima Irene Pinto, publicado em seu livro "Palavras para Entorpecer o Coração" (p.79). O site dela é www.fatimairene.com. Leiamos pelo menos duas estrofes:
Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo.
Isso é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar.
Isso é saudade.
A crônica que intitulam na Net como “Mulheres no topo” e/ou “Maçã: “As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore”, bem como o poema “Bons amigos” “Abençoados os que possuem amigos, / os que os têm sem pedir. / Porque amigo não se pede, / não se compra, nem se vende. / Amigo a gente sente! // Benditos os que sofrem por amigos, / os que falam com o olhar. / Porque amigo não se cala, / não questiona, nem se rende./ Amigo a gente entende!" não foram escritos por Machado de Assis, pelo menos, não constam em seus livros.
Mesmo os romances da primeira fase machadiana, seus contos ou crônicas, tampouco seu poemas com resquícios românticos trazem o tom ‘meloso’ dos dois textos. Profundo conhecedor da alma humana, Machado caricaturou a sociedade carioca e, por meio dela, traçou o perfil dos seus contemporâneos de modo geral. Seus enredos provocam profundas reflexões de fatos cotidianos que ressoam como uma advertência. São, pois, apócrifos os dois textos a ele atribuídos, a não ser que o verdadeiro autor apareça para assumi-los.
Vinícius e os ‘falsos amigos’
A gente não faz amigos, reconhece-os. Essa frase é emblemática no mundo virtual. Título de Fotologs, blogs, texto de mensagens e scraps de Orkut, Facebook, slides, postagem de páginas dedicadas a Vinícius de Moraes. Garth Henrichs nunca apareceu para reclamar, afinal quem é ele? Ainda vive? Mas o jornalista Paulo Sant’Ana, autor do texto que circula na internet finalizado pela frase de Henrichs, reivindica a autoria do texto atribuído ao poetinha. Vejamos a crônica:
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. /.../
A gente não faz amigos, reconhece-os.
O título que com que aparece no mundo virtual varia: “Amigos”, “Meus Amigos”, ou “Meus Secretos Amigos”. Paula Santa’na, autor do texto a que acrescentaram a frase de Garth Henrichs, recebeu-o por e-mail de um amigo. Conta o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, na edição de 19 de junho de 2002: “O colunista Paulo Sant’Ana recebeu esse e-mail do jornalista Emanuel Mattos no dia de seu aniversário e, para seu espanto, identificou que o texto, assinado por Vinícius de Moraes, é de sua autoria. Surpreso, imediatamente ligou e desfez a confusão. A criação de Sant’Ana já deve ter circulado por muitas caixas de mensagens com a assinatura de Vinícius, sem que ninguém soubesse da troca de autor. Somente, é claro, o próprio Sant’Ana.”
A objetividade das frases e a ausência do lirismo que caracterizam os escritos de Vinícius já serviriam de indícios para que leitor percebesse o equívoco da autoria.
Alguém, em algum momento, decidiu que o texto seria muito mais “significativo” se fosse assinado por Vinícius de Moraes, diz o próprio Paulo. O Vinícius, entretanto, é mais ‘derramado’ e emotivo em suas declarações. Ele não costumava escrever
Tão coerentemente para e aplacador as ansiedades diárias. Sua criação é mais explicitamente cheia de delírios, insensatez e lirismo, mesmo quando ele discorria, em prosa, sobre amizade. É ler “Procura-se um Amigo” para comprovar:
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. /.../
Segundo Betty Vidigal, no dia seguinte ao da publicação da nota reproduzida acima, a seção de cartas do jornal Zero Hora trouxe uma mensagem de um leitor que afirmava que a crônica sobre amizade era de Garth Henrichs, e não de Paulo Sant’Ana. E quem seria Garth Henrichs? Segundo o leitor, “um escritor existencialista”. Vidigal diz, ainda, que tentou localizar o texto em inglês, mas nunca o encontrou. Tentando elucidar o enigma, ela diz “Imagino, então, que tenha acontecido aqui o mesmo que aconteceu com os textos atribuídos a Clarice ou Drummond: algo que apenas terminava com uma citação desses autores acaba sendo impingido a eles na totalidade. Paulo Sant’Ana deve ter encerrado a crônica citando Garth Henrichs, que alguém concluiu ser o autor do texto todo. [Ou algum internauta colou a frase no final, o que é mais provável] Esse engano é compreensível. Mas a única explicação para alguém dizer que Vinícius de Moraes o escreveu é desonestidade intelectual – sabe-se lá com que fim!“
( http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm)
A crônica é, no final das contas, intitulada “Meus Secretos Amigos” (sem o adendo final) e foi publicada no livro "O Gênio Idiota", de Paulo Sant’ana, em 1992. Acerca do assunto, Sant’ana enviou um e-mail aos blogs que pesquisavam a confusa atribuição de autoria, (por Suzete Braun, secretária dele): “"Que Vinicius, nada! Este texto é meu, foi publicado há anos neste espaço de Zero Hora. Faz parte do meu livro O Gênio Idiota. Lembro-me que esta coluna, sob o título de Meus Secretos Amigos, fez tanto sucesso que as pessoas recortavam-na e a colavam nas paredes de suas cozinhas. E incrivelmente o meu amigo Emanuel me mandou o poema como se fosse de Vinicius de Moraes, achando que tinha tudo a ver comigo. Não só tinha a ver comigo como era meu. E está lá na Internet, em página adornada, com excelente desenho ilustrativo, assinado por Vinicius de Moraes, acrescido de um regalito: in Antologia Poética”.
Considerações finais
Alguns escritores são mais constantemente contemplados com essa prática de atribuição e adulteração de textos na internet. De acordo com Marcelo Ferraz, em seu artigo “Entre a falência e a redenção: a polêmica circulação de textos literários na internet”, “esses casos de atribuição falsa são sintomáticos para medirmos a penetração simbólica de certos autores da tradição literária canônica na sua realidade de circulação digital”. Assim, Veríssimo, Quintana, Drummond e Shakespeare, entre outros, continuarão a povoar o imaginário dos que não conseguem criar textos próprios e se ocupam em ‘transmutar’ os que já estão prontos. O imbróglio, acredito, tende a ser amenizado pelo acesso de professores e camadas letradas aos sites de relacionamento, o que possibilita não a patrulha, que não é a intenção, mas a advertência de que a ferramenta da internet está criando, em vez de um espaço para a partilha de conhecimentos no campo da literatura, uma deturpação, uma falsa ideia de que as pessoas estão adquirindo mais cultura e lendo mais. No próximo artigo, mostraremos as falsas atribuições de autoria a Clarice Lispector, Jorge Luis Borges, Charles Chaplin, Victor Hugo, Arnaldo Jabor e Gabriel Garcia Marquez.
Consultar:
ALIBERTI, Rosângela: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=2593
AMAZON: http://www.amazon.com/gp/product/1564767442/104-1833697-3288713?v=gance&n=283155.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
CAIU NA REDE: http://livrocaiunarede.blogspot.com/
ESCOLA FLOR AMARELA: http://www.floramarela.com.br/
ESTADÃO: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/01/18/pol005.html
FERRAZ, Marcelo: http:// www.revistaicarahy.uff.br/revista/html/numeros/1/dliteratura/
GAEFKE, Paulo. Decidi ser Feliz. 2002
LAMPERT, Vanessa. www.autordesconhecido.blogger.com.br/,
MATHIAS MIRTHES. Bom dia amor! Juerp, 1990
MORAES, Vinícius. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=323AZL004
PACHECO, Emiliano: http://emiliopacheco.blogspot.com/2006/07/os-falsos-quintanas.html
POR UM PUNHADO DE PIXELS: http://www.nemonox.com/ppp/archives/2006_03.html
QUINTANA, Mário. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
SANT’ANA, Paulo . O gênio idiota. 1992, ed. Mercado Aberto
SILVA , Mª Julia Paes de. Qual o tempo do cuidado? Edicoes Loyola, 2004, p. 49
REVISTA ÉPOCA: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html
RIBEIRO, José Carlos Queirós Nunes, in MOURA, Vasco Graça (Org). 366 poemas que falam de amor. 2ª. Ed. Quetzal Editores: Lisboa 2004.
RÓNAI, Cora (Org). Caiu na Rede. Agir:
SOUZA, Geraldo Eustáquio: http://www.paracrescer.com.br/pasta_poemas/index_poem.htm
VIDIGAL, Betty. Textos apócrifos na internet: http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm
ZERO HORA: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=capa_online
Aíla Sampaio (para o caderno de cultura do Diário do Nordeste)
O mundo virtual ampliou os espaços da literatura, facilitou a publicação de textos literários em blogs e sites e, sem dúvida, democratizou o acesso de estudantes e internautas em geral a textos antes restritos aos livros.
Essa facilidade, entretanto, não é totalmente benéfica. Pesquisas sérias devem ser feitas em sites sérios, pois a democracia só é positiva quando está na mão de quem tem capacidade e caráter para exercê-la. O espaço virtual é terra de todos e de ninguém.
Há quem se preocupe com a credibilidade do que posta, e cita autorias e fontes; há pessoas mal intencionadas, que utilizam o ócio para fazer confusão; e há os incautos, que recebem e repassam textos sem qualquer preocupação com a autenticidade deles. Claro que ninguém é obrigado a saber de cor a autoria de todos os textos, mas, antes de repassá-los ou utilizá-los em pesquisas escolares e acadêmicas, bem como usá-los em avaliações e provas, deve-se conferir a autoria em livros ou com profissionais da área.
Não bastasse a omissão da autoria, que constitui um crime previsto na lei nº 10.695, relativa à violação de direito autoral, os escritores estão sendo vítimas de outro engodo: a atribuição de autoria. Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Dráuzio Varela e Mário Prata, por exemplo, estão vivos e podem rechaçar a atribuição, embora não possam detê-la. Já Shakeaspeare, Clarice Lispector, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Charles Chaplin, Fernando Pessoa, entre outros, circulam na internet como autores de textos que nunca escreveriam e nada podem fazer. O pior é que pessoas utilizam como fonte de pesquisa sites abertos a contribuições, como o www.pensador.info; qualquer pessoa, por mais ingênua que seja, vasculhando as páginas desse site, percebe que um mesmo texto é postado várias vezes com autorias diferentes, tal como na página da Wikipédia, onde qualquer internauta pode se cadastrar e postar o que quiser. Já foram criados blogs e comunidades no Orkut para esclarecer dúvidas quanto a autorias, contribuindo, assim, para que o espaço virtual não seja apenas um celeiro de engodos, um desserviço ao aprendizado da literatura, mas um espaço legítimo que pode divulgá-la e servir de fonte de conhecimento, com credibilidade.
Drummonds
Carlos Drummond de Andrade, nome consolidado na literatura brasileira, tem estilo discreto e comedido, avesso, entretanto, a todo conservadorismo estético. Deixou uma obra consistente, acrescida dos poemas eróticos, de igual qualidade, desengavetados após sua morte. Não bastassem esses acréscimos, interneteiros insatisfeitos se deram o direito de atribuir-lhe versos que não constam na sua bibliografia, como é o caso do poema “Viver não dói”, amplamente postado em blogs e repassado em e-mails e scraps:
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.
Vanessa Lampert, uma das pessoas sérias, no mundo virtual, que estão lutando pelo crédito aos verdadeiros autores, fez uma análise interessante desse texto e deu uma explicação bem embasada. Em seu blog, ela discorre sobre o possível passo a passo da construção do poema, a começar pela crônica “As possibilidades perdidas”, de Martha Medeiros, publicada em 20 de agosto de 2002, no site Almas gêmeas. Ela diz que Martha se inspirou em um verso do poema “Canção”, do poeta mineiro Emílio Moura, amigo e contemporâneo de Drummond: “Viver não dói. O que dói / é a vida que se não vive”, discorreu sobre a vida e concluiu com uma interrogação seguida de uma resposta: “Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais". A crônica de Martha, transformada em poema, recebeu o acréscimo de um texto da novelista inglesa Mary Cholmondeley : "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade." ("Every day I live I am more convinced that the waste of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence that will risk nothing and which, shirking pain, misses happiness as well."), com o enxerto final pinçado do livro You gotta keep dancin, de Tim Hansel, escrito logo após o acidente que ele sofreu e inspirado nas dores intermitentes que o perseguiram a partir daí. Ele diz que não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria: "Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy."
Há muitos outros textos atribuídos ao poeta itabirano. O segundo mais citado é “Conselho de um velho apaixonado”:
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer
seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção: pode ser a pessoa
mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está
esperando desde o dia em que nasceu.
Esse poema não consta em nenhum dos seus livros, nem se sabe ao certo quem é o verdadeiro autor. Também não constam em sua Obra Completa: "Desejo(s) e/ou Síntese da Felicidade” (“Desejo a você/Fruto do mato/Cheiro de jardim/Namoro no portão/Domingo sem chuva" ); “Reverência ao destino” ("Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião), que vem sempre acrescido dos versos do poema intitulado: “Eterno”, de autoria dele; e "Inconfesso Desejo” (“Queria ter coragem / Para falar deste segredo / Queria poder declarar ao mundo / Este amor / Não me falta vontade /Não me falta desejo”).
As falsas atribuições ao poeta proliferam na Net como uma epidemia. A ele creditam: "Almas Perfumadas” ( Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daqueles que conseguimos acender na Terra), de Ana Claúdia Saldanha Jácomo; "Máscara”, de Dante Milano; a frase "Não sei quando virá o amanhecer, por isso abro todas as portas" ("Not knowing when the dawn will come I open every door."), de Emily Dickinson.
"Recomeçar” (Não importa onde você parou,/em que momento da vida você cansou,/o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar) foi, inclusive, lido por Ana Maria Braga em seu programa “Mais você”, com com o título “Faxina da alma”e os créditos dados a Drummond. A criação é, no entanto, de Paulo Roberto Gaefke e, em algumas versões deturpadas, apresenta ainda os versos VII – de “Da Minha Aldeia” no final: (Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura) que são de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
A conhecidíssima crônica “Ter ou não ter namorado” (“Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema na sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho”), de Artur da Távola, aparece na Net, variadas vezes, como de Drummond.
Pertinente seria que os internautas sem responsbilidade lessem um dos poemas do livro “Viola de Bolso”, do mineiro de Itabira: “Poupem-me, por favor ou por desprezo, se não querem poupar-me por amor”.
Veríssimos inverossímeis
Luís Fernando Veríssimo, cujos textos são sóbrios e bem humorados, na Internet, aparece como autor de divagações que mudam o seu estilo: ora ele é romântico, conselheiro, ora adere ao filão da autoajuda. Ao ler a crônica “Quase”, ele mesmo ficou surpreso ao descobrir que a obra levava seu nome e estava amplamente difundida em slides:
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. /.../ Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Em 2005, no Salão do Livro de Paris, Veríssimo recebeu uma coletânea de textos de escritores brasileiros traduzidos para o francês, das mãos da própria autora, e se surpreendeu ao ver que o seu escolhido era “Quase”, cuja tradução ficara “Presque”. Esclareceu o equívoco com a organizadora e, ao retornar ao Brasil, contou o episódio na sua coluna do Jornal Zero Hora, relatando episódios, em tom jocoso, sobre o tal texto: “O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece. O texto que encantara a senhora se chamava "Quase" e é, mesmo, muito bom. Tenho sido elogiadíssimo pelo "Quase". Pessoas me agradecem por ter escrito o "Quase". Algumas dizem que o "Quase" mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o "Quase". Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê?” (ZERO HORA, 24/3/2005). E finalizou: "Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do ‘Quase’ para agradecer a glória emprestada".
Não muito tempo depois recebeu uma carta de uma estudante catarinense, Sarah Westphal Batista da Silva, de 21 anos, contando ser a verdadeira autora. A revelação valeu uma reportagem na capa do Caderno Variedades do jornal Diário Catarinense (e também no clic RBS, o portal da RBS) feita pelo repórter Felipe Lenhart, que descobriu a jovem estudante depois de muitas navegadas pela internet.
“A felicidade pode demorar”, cujo título real é "O amor e a vida" ou "Uma reflexão sobre o amor e a vida" também não é do Luís Fernando Veríssimo, foi escrito por François de Bitencourt:
Às vezes as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer
senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado.
Às vezes nos falta esperança. Às vezes o amor nos machuca profundamente,
e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa.
Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar,
tanto quanto precisamos respirar...é nossa razão de existir.
/.../ A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...
“Tipo assim”, de Kledir Ramil, também é arbitrariamente postado como de Luís Fernando:
Tô ficando velho! Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente na saída do show do Charlie Brown Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa.
E aí, o show foi legal? /.../
Fiquei tipo assim calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea.
Um dos mais espalhados pelo mundo virtual, em nome do cronista gaúcho, é “Um dia de Modess na vida de um homem”. O texto é, de acordo com Beth Vidigal, de três jovens jornalistas – Nina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso (do site 02 Neurônio). O autor da crônica assina “Rolinha”. Já a crônica intitulada “Diga Não às Drogas”, que faz a referência aos “cantores e compositores goianos” ou aos “músicos de Goiás” circula também com o título de “Depoimento Emocionado de Luiz Fernando Veríssimo Sobre sua Experiência com as Drogas” igualmente não é dele:
“Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do "Leandro e Leonardo".
Achei legal, uma coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "amigo" e acabei comprando pela primeira vez. /.../ POR FIM NO ÚLTIMO ESTAGIO ESTAVA OUVINDO SERGINHO E SUA ÉGUA POCOTÓ. Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa”.
Betty Vigigal, em sua página Textos Apócrifos na Internet, comenta que a “Revista Veja, na edição de 9 de julho do mesmo ano, publicou uma nota na seção “Guia”, mencionando vários artigos que circulam, pela net, atribuídos a quem não os escreveu. Este foi um dos contemplados. No número seguinte, vários verdadeiros autores – de outros textos – identificaram-se. Mas esta brincadeira com a música chamada “brega” não teve a autoria reivindicada por ninguém”.
Sempre foram tantas atribuições de autoria feitas a Veríssimo que ele, já em 18 de janeiro de 2002, escreveu no Estadão, sob o título “Apócrifos”: “'Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outros grupos, com a minha assinatura, na Internet ou fora dela, não é meu. Todos os outros - inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário - são meus”"
Betty Vidigal adverte que “Quando Veríssimo diz: “Todos os outros – inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário – são meus”, refere-se, por certo, às inúmeras crônicas que escreveu e que, justamente por serem tão divertidas, tornaram-se “de domínio público” e foram transformadas em piada, em versões abreviadas que mantêm o sentido geral sem manter a sutileza dos diálogos verissimianos”.
Quintanas e Quintana
Outro gaúcho bastante agraciado com autorias falsas é o poeta Mário Quintana. O texto “Não quero alguém que morra de amor por mim”, um dos mais divulgados, inclusive em belos slides, é de Adriana Britto e tem como título “Certezas”. Leiamos uma parte dele:
Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
/.../
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.
Emílio Pacheco, pesquisador de textos apócrifos na Internet, já fez uma lista de "falsos Quintanas" no seu artigo homônimo e deu uma boa contribuição aos que querem levar a sério a bela atitude de repassar textos literários por e-mails ou scraps no Orkut. Leiamos um dos mais repetidos nas páginas virtuais: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. (...) Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”.Em forma de versos ou em prosa, esse texto circula pela internet em slides, montagens, em perfis do Orkut ou mesmo em forma de mensagens. A dupla Bruno e Marrone, inclusive, o declamou em um dos seus shows. Tornou-se comum, no mundo virtual, a colagem de textos de autores diferentes... nem sempre o sentimento da pessoa se traduz em um só poema e ela faz o recorte de versos, cola, e esquece de dar o crédito ao(s) autor(es). Nesse que citamos há pouco, há uma frase famosa de O Pequeno príncipe, de Saint-Exupery: “Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Já a frase “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação” foi retirada de um provérbio árabe. Outro enxerto foi feito há pouco tempo: “para o homem provar que é homem, não precisa ter mil mulheres, basta fazer uma feliz”.
Imbatível em quantidade de reproduções na Net é o texto que começa: “Com o tempo você vai percebendo que, para ser feliz com outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela”, que se encerra com a afirmação: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Não há absoluta certeza da autoria; há uma página na Internet em que o ‘poema’ aparece com a autoria de Kátia Cruz. Já o verso das borboletas é atribuído ao americano Walter D.Ehlers: Não corra atrás das borboletas, plante uma flor no seu jardim e todas as borboletas irão até ela. (http://sosfauna.braslink.com/reflex.htm). Uma informação, entretanto é segura: o texto não é do Mário Quintana.
Várias crônicas da Martha Medeiros circulam como se fossem de Quintana, com a forma adulterada e com colagens de frases e/ou versos alheios. Tal é o caso de: “Felicidade Realista”, “Promessas Matrimoniais”, “Sermão do Casamento” (também conhecido como "Casamento na Igreja"), “Sentir-se Amado” e “A impontualidade do Amor”. De acordo com Pacheco, essa atribuição de autoria de textos em prosa, que nada têm a ver com o estilo a Quintana, deve-se ao fato de Vinicius de Moraes ter escrito muitos nessa forma literária, e todos falavam de amor. O estilo de Quintana não é exatamente romântico; sua poesia, além de refletir o processo criador, reflete a existência, a infância, a vida de modo geral. Foge totalmente dessas características o poema constantemente repassado com o nome do gaúcho, cujo título é “A Idade Para Ser Feliz”, na verdade, escrito por Geraldo Eustáquio de Souza. Com “Amor é Síntese” ocorre o mesmo equívoco; a verdadeira autora é Mirtes Mathias. Na versão repassada na Net, o verso final aparece modificado: "E eu serei perfeito amor". Leiamos o poema na íntegra:
Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
Outros exemplos de apócrifos atribuídos a Quintana: “Algo sobre o amor” (“Para meus amigos que estão solteiros... casados... “). “Amadurecimento” (“Aprenda a gostar de você, a cuidar de você, e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você”.); e frases/versos como: “Se for para esquentar, que seja no sol, se for para roubar, que seja um beijo...” ; “Sentir primeiro, pensar depois/ perdoar primeiro, julgar depois...”. A cada dia parece surgir um novo texto ou poema falsamente atribuído a Quintana, de forma que é difícil elaborar uma lista completa, como assegura Pacheco. Esta foi iniciada por Lúcia Kerr Jóia, da comunidade ‘Afinal, Quem é o Autor’, atualizada com a ajuda de vários colaboradores, como Jane Araújo, Westh Ney e outros. Um poema verdadeiramente de Quintana aparece na Internet modificado, a começar pelo título de “O tempo” ou “A vida”, ambos errados. Vejam a versão original:
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-ªfeira...
Quando se vê, passaram sessenta anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Em alguns sites e blogs, o poema aparece com o verso “quando se vê, perdemos o amor da nossa vida”, com o acréscimo final: “E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”. Há outras variações, mas todas não passam de adulterações da forma original.
“Deficiências” ou “Dicionário do Quintana” é, na verdade, a parte final de um texto redigido pela professora Renata Vilella, da escola mineira Flor Amarela:
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive,
sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio,
de fome, de miséria.
E só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão.
Pois está sempre apressado para o trabalho e
quer garantir seus tostões no fim do mês.
/.../
A amizade é um amor que nunca morre.
As frases da professora foram reformuladas e colocadas em forma de versos, com o enxerto final de um verso do poeta gaúcho. Na seção "Notícias On-line" do site da escola, localizada em São Vicente-MG, ela desabafa: “Há meses recebi um e-mail dizendo que circulava na internet o texto que está escrito na minha apresentação como sendo de autoria de Mário Quintana, não levei a sério, para falar a verdade me senti até honrada, porém quando o senado federal divulgou no folder do Dia Nacional de Valorização da Pessoa com Deficiência escrevi uma mensagem para o Senador Flávio Arns, autor do projeto, pedindo que esclarecesse, mas não obtive resposta. Como o texto foi escrito no final de 1990, quando eu estava indo para o interior de Minas e Mário Quintana ainda era vivo, nem psicografado pode ter sido”.
A esses amantes dos recortes e das colagens, falseadores de versos e estilos, Quintana deve dizer, do alto de sua serena eternidade: “Eles passarão / Eu passarinho”.
Pessoa e outras pessoas
Fernando Pessoa é também constantemente perseguido pelos desocupados. A ele atribuíram parte crônica “O medo: o maior gigante da alma”, que, de fato, é do professor de literatura do Objetivo e da UNIP, Fernando Teixeira de Andrade. O fragmento que circula com a falsa autoria foi retirado deste texto:
“Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza. /.../ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
Do mesmo modo, não é de Fernando Pessoa o soneto “A concha”, mas de Vitório Nemésio. Vejam a primeira estrofe:
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Também não é de Pessoa: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. As pessoas certificam-se da autoria na própria internet e, não tendo comprovado legitimamente, arranjam as desculpas mais ‘amarelas’. Vejam o que foi respondido na página do Multiply de Vanessa Lampert, sobre o questionamento de autoria do texto acima: “Saber se Fernando Pessoa escreveu mesmo tal ou qual coisa faz parte do amá-lo como poeta, como o grande fingidor que o foi, como alguém que, de tão gigante, transformou-se em outros, deu voz a um "humano" que habita em cada um de nós. A questão é: QUAL Pessoa escreveu isto? A "caixa" onde repousaram os escritos guardados do funcionário público lisboeta que se tornou o maior poeta de Portugal depois de Camões AINDA guarda segredos. O aumento do período que leva para uma obra tornar-se de domínio público animou recentemente os herdeiros a fazer uma nova "limpa" e editar a obra completa revisada, em Portugal. E se a citação não fosse de Pessoa (e é), tudo bem. Tantos já tentaram e continuam tentando, depois dele, "escrever coisas como versos". É claro que Vanessa retrucou essa declaração e considerou irresponsável a atitude da moça, dando-lhe a alcunha de ‘clonadora’ de textos.
Vejamos outros textos atribuídos indevidamente ao modernista português:
“A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser. Ora tudo é o que é. Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é. Confunde-nos de si com isso”. Não se sabe quem é o autor.
“Amor não se conjuga no passado, ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente”. Autor correto: M. Paglia. Mas quem é M. Paglia?
“Do indivíduo temos que partir, ainda que seja para o abandonar”. Não se sabe o autor.
“Diógenes com uma lanterna em plena luz do dia) procurava um homem; Platão não procurava um homem”. Não se sabe o autor.
“Enquanto não superarmos/a ânsia do amor sem limites,/não podemos crescer/emocionalmente. Enquanto não atravessarmos/a dor de nossa própria solidão,/continuaremos/a nos buscar em outras metades./Para viver a dois, antes, é/necessário ser um”. Não se sabe o autor.
“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”. Trecho de uma crônica de Luis Fernando Verissimo. Aqui, pode ter havido uma confusão com o poema Cartas de amor : “Todas as cartas de amor / são ridículas./ Não seriam cartas de amor / se não fossem ridículas”.
“Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim, nem que eu faça a falta que elas me fazem. O importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível, e que esse momento será inesquecível” /.../. Autora: Adriana Britto.
“Navegue Navegue descubra tesouros,/mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá./Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra”./.../ Autora: Silvana Duboc . Aqui também pode ter havido uma confusão com o poema Navegar é preciso : “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / "Navegar é preciso; viver não é preciso. / Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: / Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.
“Um dia a maioria de nós irá separar-se /.../ Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,tantos risos e momentos que compartilhamos”. Não se sabe o autor.
Tentar justificar tais imbróglios com a multiplicidade da poesia pessoana, por conta de diferentes heterônimos e estilos, não convence. Até que seja provado, não é do autor o que não consta em suas publicações em livro.
É tão séria essa questão de confiabilidade nos sites em que pesquisamos! Por isso insisto em advertir os pesquisadores (professores, estudantes, curiosos, apaixonados pela literatura) que, se não conhecem o estilo do autor (mesmo quando têm tantos estilos como o Pessoa), procurem um livro para comprovar a autoria antes de utilizarem os textos em sites, trabalhos e até provas, onde já vi impresso o texto que citarei agora, com a autoria do Fernando Pessoa:
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo…
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história…
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma…
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta…
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
Em outro blog, o depoimento do que se diz o verdadeiro autor das três frases finais do poema, assinado com o pseudônimo de Nemo Nox, esclarece que o texto é uma montagem:
“No início de 2003, chateado com os obstáculos que encontrava e tentando ser um pouco otimista, escrevi aqui estas três frases: “Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo”. Não pensei mais nisso até que recentemente comecei a receber e-mails pedindo que eu confirmasse ser o autor do trechinho. Aparentemente, o trio de frases tomou vida própria e se espalhou pela internet lusófona com variações na pontuação e na atribuição da autoria. Começou aparecendo como título de fotolog (já encontrei uma meia dúzia com este nome) e como citação anônima em rodapé de mensagens (em vários fóruns de debate online). Depois alguém resolveu pegar um poema (possivelmente de Augusto Cury, autor de Dez Leis para Ser Feliz), colar o tal trechinho no fim e distribuir tudo como se fosse obra do Fernando Pessoa. Não demorou muito para que as minhas três frases começassem a pipocar pela rede atribuídas ao poeta português (afinal, é sempre mais bacana citar um famoso escritor luso que um quase desconhecido blogueiro brasileiro). Cheguei eu mesmo a duvidar da minha autoria. Poderia ter cometido um plágio inconsciente, recolhendo da memória alguma coisa lida no passado e achando que se tratava de material original? Revirei os poemas pessoanos em busca de pedras e castelos mas não consegui encontrar qualquer coisa remotamente parecida ao trecho em questão. Vasculhei os heterônimos e tampouco achei o guardador de pedras. Seria de qualquer forma estranho Pessoa ter citado Drummond desta forma e o fato não ser amplamente divulgado por estudiosos dos dois lados do Atlântico. Enfim, convenci-me, até que provem o contrário, que fui eu mesmo quem escreveu as tais linhas. Outra coisa engraçada é que nem me sinto orgulhoso de ter escrito isso, parece-me hoje até um pouco piegas, como aqueles cartazes motivacionais com fotos bonitas e frases otimistas. Até me admiro de não terem atribuído a autoria ao Paulo Coelho. Também tem gente que usa as frases na internet e me aponta como autor, mas para aumentar a confusão me chamam de Nemo Vox (devem achar que sou irmão do Bono) ou dizem que a citação é do livro Por um Punhado de Pixels (que nunca foi livro, sempre weblog). E agora? As frases estão soltas por aí, não vou brigar por elas, quem quiser dizer que são do Pessoa, do Veríssimo ou do Jabor, fique à vontade. Atribuições incorretas? Eu guardo todas. Um dia vou escrever uma tese”.
Os versos abaixo, divulgados seguramente como do poeta português, não são dele:
Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva,
para que possamos compreender
o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio,
quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
/.../
Na comunidade do Orkut ‘Afinal, quem é o autor?’, a jornalista Betty Vidigal descobriu tratar-se de mais uma criação de Paulo Coelho, publicada, em prosa, no livro "Manual do Guerreiro da Luz". Leiamos a versão original:
“O guerreiro da luz aprendeu que Deus usa a solidão para ensinar a convivência. Usa a raiva para mostrar o infinito valor da paz. Usa o tédio para ressaltar a importância da aventura e do abandono. Deus usa o silêncio para ensinar sobre a responsabilidade das palavras. Usa o cansaço para que se possa compreender o valor do despertar. Usa a doença para ressaltar a benção da saúde. Deus usa o fogo para ensinar sobre a água. Usa a terra para que se compreenda o valor do ar. Usa a morte para mostrar a importância da vida”.
Pouco tempo depois de o livro ter sido publicado, a Revista Época trouxe uma reportagem com o título “Alquimia literária”, declarando que Paulo Coelho era acusado de ‘transmutar’ um texto originalmente escrito pela psicóloga colombiana, Sonia Hurtado, colunista do jornal El Pais, de Cali. Ela acusou o escritor de plagiar o seu artigo intitulado “Cerrando ciclos”, publicado no dia 21 de janeiro de 2003. Segundo a Revista, o texto de Coelho foi publicado originalmente no jornal O Globo em 2004 e traduzido para o espanhol pelo semanário colombiano El Espectador, com o título “'Cerrar ciclos”' (“'Fechar ciclos”). Paulo Coelho, ao se defender, disse que encontrou o texto na internet e admitiu: “Não fui eu quem escreveu o original (infelizmente), mas resolvi adaptá-lo, e agora posso pelo menos reivindicar parte de sua autoria”. Quem quiser ler o artigo da Revista Época na íntegra: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html
Não são de Shakespeare
Não bastasse a obra monumental de Shakespeare, há ainda quem publique em seu nome textos que ele certamente não escreveu. Tal é o caso de: “O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que sofrem, muito curto para os que se alegram, mas para os que amam, o tempo é eterno”, de Henry Van Dyke, diplomata, pastor e escritor americano (1852-1933) . Confiram o texto original:"Time is too slow for those who wait, too swift for those who fear, too long for those who grieve, too short for those who rejoice, but for those who love, time is eternity”.
São apócrifos (e não de Shakespeare) os versos: “Perguntei a um sábio, / a diferença que havia / entre amor e amizade, / ele me disse essa verdade: / O amor é mais sensível e a amizade mais segura”/.../. Não é dele, igualmente, o texto “Aprendi” (ou “Depois de algum tempo”), mas de Verônica A. Shoffstal:
“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. /.../E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão./.../ “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar”.
O que nos parece é que alguém leu Shakespeare e pinçou seus pensamentos, envolvendo-os num emaranhado de frases. Note-se que o último pensamento - “Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar” está numa fala de “Otelo”; Apenas trocram a palavra “dúvidas” por “dádivas”.
A respeito da nova autoria, vejam o comentário que Vanessa Lempert recebeu ao desvendar a autoria do texto: “Olá, meu nome é Camila, moro na cidade de União da Vitória, interior do Paraná, tenho quinze anos e uma opinião bem crítica com relação ao texto de Willian Ferdnand Shakespeare atibuído à Veronica Shoffstall. Primeiro, a autoria de Shakespeare sobre a verdadeira versão desse texto (que tem como verdadeiro título "Depois de um tempo você aprende") é simplesmente incontestável, traz todos os tradicionais traços literários que Shakespeare usava em textos de auto- ajuda, quanto a isso não há duvidas. Segundo, a versão dita distorcida e alongada do texto, fora escrita sem o menor propósito de má-intenção, a mais ou menos um ano atrás, é de minha autoria, e não passou de uma carta que eu escrevi a uma grande amiga para homenagear uma data especial. Como ele foi parar aí e quem o encaminhou, eu não tenho a menor idéia! Porém é verdade sim que o texto não passa de uma coletânea, eu apenas fiz uma pequena reunião do que eu mais gostava sobre Paulo Coelho, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e outros que a fraca memória não me permite citar agora, com base no texto de Shakespeare, mais alguns resquícios completamente originais de lições de vida,e ficou assim” (Sic).(Camila de Lima)
Desnecessário dizer que a Camila está completamente equivocada quanto a achar sua atitude natural e quanto a autoria que ela diz como certa do Shakespeare. Nada aí é do Bardo inglês, pois ele nunca escreveu textos de autoajuda. Quem não tiver acesso a livros, pode conferir o site que a Betty Vidigal indica como sério na compilação de obras dele: http://www.psrg.cs.usyd.edu.au/~matty/Shakespeare/,
Não são deles...
O belo poema “Por tudo que me deste”, divulgado como escrito por Florbela Espanca, é de autoria do poeta, também português, Carlos Queiróz e foi publicado numa Antologia organizada em Lisboa por Vasco Graça Moura em 2004:
Por tudo que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado.
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!
Já a frase “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”, erroneamente creditada a Henfil, é de Maurício Ceolin. Henfil apenas a leu em público, na época do movimento pela Diretas Já, e a utilizou como epígrafe de um livro seu. Outras flores alvo de confusão estão no poema “No caminho com Maiákovski”, atribuída ao poeta russo, quando, de fato, foi escrito por Eduardo Alves da Costa: “Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada...”.
“Revolução da Alma” – “Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue sua alegria, sua paz sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida” - não é de Aristóteles, mas de Paulo Gaefke, e está no livro Decidi ser Feliz, publicado em 2002. “Solidão”, texto que é repassado com uma foto do Chico Buarque e seu nome impresso, teve a autoria negada por ele. Foi escrito, depois se soube, por Fátima Irene Pinto, publicado em seu livro "Palavras para Entorpecer o Coração" (p.79). O site dela é www.fatimairene.com. Leiamos pelo menos duas estrofes:
Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo.
Isso é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar.
Isso é saudade.
A crônica que intitulam na Net como “Mulheres no topo” e/ou “Maçã: “As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore”, bem como o poema “Bons amigos” “Abençoados os que possuem amigos, / os que os têm sem pedir. / Porque amigo não se pede, / não se compra, nem se vende. / Amigo a gente sente! // Benditos os que sofrem por amigos, / os que falam com o olhar. / Porque amigo não se cala, / não questiona, nem se rende./ Amigo a gente entende!" não foram escritos por Machado de Assis, pelo menos, não constam em seus livros.
Mesmo os romances da primeira fase machadiana, seus contos ou crônicas, tampouco seu poemas com resquícios românticos trazem o tom ‘meloso’ dos dois textos. Profundo conhecedor da alma humana, Machado caricaturou a sociedade carioca e, por meio dela, traçou o perfil dos seus contemporâneos de modo geral. Seus enredos provocam profundas reflexões de fatos cotidianos que ressoam como uma advertência. São, pois, apócrifos os dois textos a ele atribuídos, a não ser que o verdadeiro autor apareça para assumi-los.
Vinícius e os ‘falsos amigos’
A gente não faz amigos, reconhece-os. Essa frase é emblemática no mundo virtual. Título de Fotologs, blogs, texto de mensagens e scraps de Orkut, Facebook, slides, postagem de páginas dedicadas a Vinícius de Moraes. Garth Henrichs nunca apareceu para reclamar, afinal quem é ele? Ainda vive? Mas o jornalista Paulo Sant’Ana, autor do texto que circula na internet finalizado pela frase de Henrichs, reivindica a autoria do texto atribuído ao poetinha. Vejamos a crônica:
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. /.../
A gente não faz amigos, reconhece-os.
O título que com que aparece no mundo virtual varia: “Amigos”, “Meus Amigos”, ou “Meus Secretos Amigos”. Paula Santa’na, autor do texto a que acrescentaram a frase de Garth Henrichs, recebeu-o por e-mail de um amigo. Conta o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, na edição de 19 de junho de 2002: “O colunista Paulo Sant’Ana recebeu esse e-mail do jornalista Emanuel Mattos no dia de seu aniversário e, para seu espanto, identificou que o texto, assinado por Vinícius de Moraes, é de sua autoria. Surpreso, imediatamente ligou e desfez a confusão. A criação de Sant’Ana já deve ter circulado por muitas caixas de mensagens com a assinatura de Vinícius, sem que ninguém soubesse da troca de autor. Somente, é claro, o próprio Sant’Ana.”
A objetividade das frases e a ausência do lirismo que caracterizam os escritos de Vinícius já serviriam de indícios para que leitor percebesse o equívoco da autoria.
Alguém, em algum momento, decidiu que o texto seria muito mais “significativo” se fosse assinado por Vinícius de Moraes, diz o próprio Paulo. O Vinícius, entretanto, é mais ‘derramado’ e emotivo em suas declarações. Ele não costumava escrever
Tão coerentemente para e aplacador as ansiedades diárias. Sua criação é mais explicitamente cheia de delírios, insensatez e lirismo, mesmo quando ele discorria, em prosa, sobre amizade. É ler “Procura-se um Amigo” para comprovar:
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. /.../
Segundo Betty Vidigal, no dia seguinte ao da publicação da nota reproduzida acima, a seção de cartas do jornal Zero Hora trouxe uma mensagem de um leitor que afirmava que a crônica sobre amizade era de Garth Henrichs, e não de Paulo Sant’Ana. E quem seria Garth Henrichs? Segundo o leitor, “um escritor existencialista”. Vidigal diz, ainda, que tentou localizar o texto em inglês, mas nunca o encontrou. Tentando elucidar o enigma, ela diz “Imagino, então, que tenha acontecido aqui o mesmo que aconteceu com os textos atribuídos a Clarice ou Drummond: algo que apenas terminava com uma citação desses autores acaba sendo impingido a eles na totalidade. Paulo Sant’Ana deve ter encerrado a crônica citando Garth Henrichs, que alguém concluiu ser o autor do texto todo. [Ou algum internauta colou a frase no final, o que é mais provável] Esse engano é compreensível. Mas a única explicação para alguém dizer que Vinícius de Moraes o escreveu é desonestidade intelectual – sabe-se lá com que fim!“
( http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm)
A crônica é, no final das contas, intitulada “Meus Secretos Amigos” (sem o adendo final) e foi publicada no livro "O Gênio Idiota", de Paulo Sant’ana, em 1992. Acerca do assunto, Sant’ana enviou um e-mail aos blogs que pesquisavam a confusa atribuição de autoria, (por Suzete Braun, secretária dele): “"Que Vinicius, nada! Este texto é meu, foi publicado há anos neste espaço de Zero Hora. Faz parte do meu livro O Gênio Idiota. Lembro-me que esta coluna, sob o título de Meus Secretos Amigos, fez tanto sucesso que as pessoas recortavam-na e a colavam nas paredes de suas cozinhas. E incrivelmente o meu amigo Emanuel me mandou o poema como se fosse de Vinicius de Moraes, achando que tinha tudo a ver comigo. Não só tinha a ver comigo como era meu. E está lá na Internet, em página adornada, com excelente desenho ilustrativo, assinado por Vinicius de Moraes, acrescido de um regalito: in Antologia Poética”.
Considerações finais
Alguns escritores são mais constantemente contemplados com essa prática de atribuição e adulteração de textos na internet. De acordo com Marcelo Ferraz, em seu artigo “Entre a falência e a redenção: a polêmica circulação de textos literários na internet”, “esses casos de atribuição falsa são sintomáticos para medirmos a penetração simbólica de certos autores da tradição literária canônica na sua realidade de circulação digital”. Assim, Veríssimo, Quintana, Drummond e Shakespeare, entre outros, continuarão a povoar o imaginário dos que não conseguem criar textos próprios e se ocupam em ‘transmutar’ os que já estão prontos. O imbróglio, acredito, tende a ser amenizado pelo acesso de professores e camadas letradas aos sites de relacionamento, o que possibilita não a patrulha, que não é a intenção, mas a advertência de que a ferramenta da internet está criando, em vez de um espaço para a partilha de conhecimentos no campo da literatura, uma deturpação, uma falsa ideia de que as pessoas estão adquirindo mais cultura e lendo mais. No próximo artigo, mostraremos as falsas atribuições de autoria a Clarice Lispector, Jorge Luis Borges, Charles Chaplin, Victor Hugo, Arnaldo Jabor e Gabriel Garcia Marquez.
Consultar:
ALIBERTI, Rosângela: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=2593
AMAZON: http://www.amazon.com/gp/product/1564767442/104-1833697-3288713?v=gance&n=283155.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
CAIU NA REDE: http://livrocaiunarede.blogspot.com/
ESCOLA FLOR AMARELA: http://www.floramarela.com.br/
ESTADÃO: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/01/18/pol005.html
FERRAZ, Marcelo: http:// www.revistaicarahy.uff.br/revista/html/numeros/1/dliteratura/
GAEFKE, Paulo. Decidi ser Feliz. 2002
LAMPERT, Vanessa. www.autordesconhecido.blogger.com.br/,
MATHIAS MIRTHES. Bom dia amor! Juerp, 1990
MORAES, Vinícius. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=323AZL004
PACHECO, Emiliano: http://emiliopacheco.blogspot.com/2006/07/os-falsos-quintanas.html
POR UM PUNHADO DE PIXELS: http://www.nemonox.com/ppp/archives/2006_03.html
QUINTANA, Mário. Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
SANT’ANA, Paulo . O gênio idiota. 1992, ed. Mercado Aberto
SILVA , Mª Julia Paes de. Qual o tempo do cuidado? Edicoes Loyola, 2004, p. 49
REVISTA ÉPOCA: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT980656-1664,00.html
RIBEIRO, José Carlos Queirós Nunes, in MOURA, Vasco Graça (Org). 366 poemas que falam de amor. 2ª. Ed. Quetzal Editores: Lisboa 2004.
RÓNAI, Cora (Org). Caiu na Rede. Agir:
SOUZA, Geraldo Eustáquio: http://www.paracrescer.com.br/pasta_poemas/index_poem.htm
VIDIGAL, Betty. Textos apócrifos na internet: http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextovm.htm
ZERO HORA: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=capa_online
Aíla Sampaio (para o caderno de cultura do Diário do Nordeste)
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