sábado, 21 de maio de 2011

A aventura da palavra



Inez Figueredo lançou, recentemente, o livro Palavra por aí, à ventura (Poetaria, Gráfica LCR, 2011, 475p), num belo projeto gráfico de Geraldo Jesuíno da Costa, autor também do texto que está na orelha da obra. O prazer da leitura certamente começa pela apreciação do objeto livro, e esse, certamente, seduz pela beleza estética. Passada a euforia tátil e visual, inicia-se a viagem pelo reino da palavra, que logo se abre com interrogações: “Serei um conto, um poema, ou uma tela?”. O que sabe o leitor da escritura de Inez para responder? Aventura-se, textos adentro, cioso por uma resposta.

Não demora a compreender que não se trata de um livro de respostas, nem de perquirição por um gênero. Inez escreve como se lavasse louças apenas para vê-las limpas. A palavra é manipulada, polida, para dizer, para representar, para adornar ou simplesmente para existir entre tantas outras coisas que podem falar mesmo quando silenciam.

Vive-se uma nova aventura a cada uma das 21 narrativas. O livro é, de fato, “uma espécie de monumento à palavra”, como disse a própria autora. A palavra é a personagem central dos enredos, que não necessariamente se constroem com os seus elementos estruturais básicos. Concisa em sua proposta, ela faz longos trajetos em poucas frases, cujas asas são mais mérito do leitor aventureiro do que da imposição de uma leitura por parte do seu discurso.


Percebe-se a presença da poesia, gênero que Inez exercitou em seus dois primeiros livros, O poeta e a Ponte (1997) e Estrela, Vida Minha (2004), e da subjetividade que alicerça todo pensamento que divaga pelo território do sonho e da emoção. Essa emoção tanto pode ser extraída das coisas práticas do mundo referencial: “Sábado: Dia de lavar: casa, carro, a si e os shorts. Do marido, as cuecas” (Minimal p.11), como da viagem que ela faz ao contemplar uma tela. Em A paleta de Tiziano Vecellio (p.13), o narrador cria a história do quadro Danae, de Tiziano Vecellio, descrevendo a personagem mitológica em sua antitética condição de ser livre, porém aprisionado na tela. Paletas, pincéis, tintas e solidão, entre criador e criatura, compõem o cenário da criação artística.

A presença da imagem escapando ao domínio do verbo (Emendando o tempo p. 19), da reflexão sobre o processo criador, tecem as teias de um laboratório. Personagens envoltas no mistério, na solidão e na saudade (Constanza e a vida p. 25 ), na luta com o tempo que tem como resposta a morte (Breve estória de Izabel Ribeiro, artesã p. 31), na recusa ao amor (Naquela noite, num porto qualquer p.61), no delírio (Uma mulher de meia idade p. 63), no encantamento fantástico (Organsim p.135) de uma lenda, vivem o inusitado e o trivial a um só tempo.

Especialmente na narrativa Palavra por aí (p.87), Inês dá vida à palavra, personifica-a em seu percurso temporal. Assim, vai seguindo, a cada texto, os passos do verbo encarnado, para confirmar seu poder, subvertê-lo e/ou falar da sua usura.

Leitora de Cervantes, James Joyce, Kafka e Virgínia Woolf, admiradora de Tiziano e ouvinte de Bach, Inês destila as palavras, as imagens e os sons assimilados e se aventura a transcender qualquer rótulo, qualquer gênero. Consciente da literatura como artefato, ela descreve subjetivamente a criação como a maquinaria do olho e leva o leitor a voos que atravessam a ‘clave do sol’. Se o seu livro é um conto, um poema, uma tela, pouco importa... é a epifania da palavra encontrada. Fala por si e independe das teorias que tentem explicá-lo.

Aíla Sampaio

domingo, 24 de abril de 2011

Os ritos poéticos de Regine Limaverde



Regine Limaverde é poeta de muitas estradas, muitos percursos, alguns desvios. Sim, desvios, porque a prosa também a seduz. E a seduz também o ensaio científico. Mas a poesia é que é seu caminho mais largo para todos os portos e estações, e nela cabem todas as veredas e desvios que a vida prepara.

A poeta, movida integralmente pelos quatro elementos – água, terra, fogo e ar –, construiu sua poética amorosa com raízes bem fincadas e certezas; é mulher-mãe-avó-amiga apaixonada, rendida e, declaradamente, ‘mais coração do que carne e osso’. Essa mesma mulher de raízes presas a terra articula voos por territórios diversos, feito pássaro; vira vulcão e navega mares, mas sempre aporta no cais, pois seu estro é o amor vivido, compartilhado, amor com carnação, beijo e abraço. É pássaro que voa, mas sempre pousa; navio que embarca, mas retorna ao ancoradouro.
Sua poética, mesmo quando evoca saudade, jamais lacrimeja ou tende à escuridão. É de sol e de lua, de luz sempre, sua palavra. Em “Estrela”, o eu lírico diz:

Às vezes a modéstia
e a escuridão
são formas de me vestir.
Se sou noite
é porque assim o quer
minha vida.
Se tenho estrelas?
Ninguém as vê.
Mas sei.
Sou um sol
quando quero.

(“Estrela” p. 49).

Ritos do entardecer, seu livro publicado em 2007, traz no título a conotação de crepúsculo, não no sentido de assinalar a ‘escuridão’ do fechamento de um ciclo temporal, mas tão-somente no de marcar a maturidade existencial da autora e a da sua criação, sua liberdade cada vez mais assumida de não se prender a estéticas ou tendências que possam rotular sua escritura ou sua forma de ser.

Sua pena corre leve e fagueira, comprometida apenas com o fluir das emoções. Foi nesse esteio que ela dividiu os 50 poemas que compõem o volume de versos de que falamos: Ritos do amor; Ritos da vida; Ritos da saudade; Ritos da amizade e Poemas ecológicos. Sem quebra da unidade, ela celebrou o amor em várias vertentes: o amor da fêmea, da mulher, o amor-presença, amor-ausência, amor-saudade, mas sempre o amor, sem travos, sem ranços, sem derramamentos. O amor só lhe é celebração. E nele está largamente a natureza, evocada nos Poemas ecológicos, sedimentando o compromisso da cidadã com seu habitat, mas, sobretudo, garantindo o espaço de coabitação da bióloga e da poeta, suas faces simultâneas.

O amor-erótico, bem mais presente em outras obras suas, reaparece atenuado, mas vívido ainda, em poemas como “Se eu fosse um homem”: “Se eu fosse um homem / beijaria minha mulher / cada vez que a minha lança / nela se escondesse, / para lhe contar da explosão / quando tudo acontecesse.” (p.21); “Permissão”:“ Deixa que teus dedos percorram / minhas terras e reconheçam / o que ainda de belo tenho em / mim: meus rios, cascatas” (p.39); “Constância”: “Meu macho é terra arada / tem o que quero num homem. / Se toca as minhas entranhas, / tristezas e dores somem” (p. 56); e “Momento” (p.64):

Este calor que perturba
meu corpo.
Este coração que já
não aguenta pulsar.
Este rio que jorra
em minhas pernas.
Este desejo de
estar em ti.
Este desejo de sentir-me
em ti.


São chamas e lampejos da fêmea movida pela paixão, que “é vulcão / que explode e vomita / fogo pelas ventas, pelas / mãos e pelo olhar". (“A paixão” p.60).

Formas de amor – luxúria, belo volume ilustrado com fotografias de Zélia Ramos Madeira, retoma o erotismo como leitmotiv mesmo da criação, amalgamando palavras e imagens. As frutas fotografadas, bem como flores, caules , folha, areia e estrela do mar, aparecem em ângulos sugestivos de partes do corpo, apelando, com a cor e a textura que seduzem o olhar, para a exacerbação dos sentidos e o prazer estético da contemplação.

Todos os poemas cantam o toque na pele, o amor carnal, a conjunção dos corpos, em metáforas que condizem com a natureza imagisticamente representada: "subirei colinas / colherei teus frutos // Serei verde, vale, vida"...(p.20); "Sinto-me terra arada (p.22); Que me venhas / primavera colorida /.../cheirando a flores e a vida (p.24); Que eu toda me desabroche / flor pétalas".(p.52). Somam-se figuras recorrentes em sua poética amorosa, como o sol, o húmus, a relva, a concha e o mar, criando uma atmosfera sensual, que remete à Eva no paraíso: “Tenho uma serpente dentro de mim. / Ela me tenta / me faz pecar / me dá prazer, / me mostra caminhos.// Sinto-me Eva no paraíso / nua e gostando...” (p.44). Flor e serpente, em harmonia, celebram o corpo e o prazer, na leveza ou na fúria do amor.


A preocupação com o tempo é também recorrente em sua obra. Em Ritos, ela assinala a irreversibilidade da vida:

Essa coisa que não
volta: visguenta,
brilhante, brilhosa

Esse tempo que se foi,
esse riso que já fui,
essa estrada que pisei

(“O limo do tempo” p. 63)

e demonstra lucidez na consciência do que existe e lhe pertence, mas questiona ‘até quando’ poderá ter o que está, no momento presente, em suas mãos:

Já sei que existe uma canção que
devo perseguir.
Não sei se ainda me resta tempo
para sussurrá-la.

(“Canção do entardecer” p.23).

São elucubrações da maturidade existencial de um ser consciente do seu ‘estar no mundo’. No livro Mais coração do que carne e osso, há vários registros de inquietações acerca da fugacidade do tempo e de todas as coisas, como se pode ler nos versos:

Apressa-te.
Não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer.

Vê-me.
Já fui manhã primaveril.
Margaridas tagarelas
salpicavam minhas terras.
O tempo é breve
e parte sem volta.

(Apressa-te” p.21)

O que há amanhã não sei.
A incerteza
é o certo
neste longo deserto
que é a vida.
Nossa desdita
começa ao nascermos.

(“Incerteza” p. 33)

O tempo é meu inimigo.
Ele me excita, me apunhala,
zomba de mim, me faz escrava.
Vinca minha face de rugas,
me faz ser lenta e pequenininha
como gotas de chuva neblinando.

(“Solidão” p. 57)

Já fui segunda-feira
hoje sou domingo.

(“Tempo inimigo” p. 46)

apenas fazendo aqui uma amostragem da recorrência temática.

O que predomina em todas as suas obras, entretanto, é a temática amorosa, como falamos, em todas as instâncias. O movimento afetuoso da fêmea e da mulher-amiga, de que já falamos, é também o da poeta em busca de seu objeto-mor: a palavra. Suas reflexões acerca do ato criador mostram sua consciência da lavra do objeto que dá forma aos seus pensamentos.

Ora o eu poético lembra as evocações de Cecília Meireles no Romance LIII ou Das palavras aéreas, de seu Romanceiro da Inconfidência:

Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
No vento que não retorna,
E, em tão rápida existência,
Tudo se forma e transforma!


ora expõe o processo da criação. Vejamos alguns excertos de versos de Regine:

A palavra – faca de dois gumes,
desassossega, alivia.
Pode ser fraca, matar.
Pode ser remédio, curar.

A palavra sai e é punhal e alívio.

Na busca da palavra me perco,
me encontro, me enervo, me
embalo

(“A palavra” p.50)

Foi uma só palavra
e tudo virou tufão.

Uma palavra só
E flores foram arrancadas

(“Palavras”, p. 59)

A palavra: verdade, mentira,
esperança, decepção.
Ela existe e está deitada no papel.

(“Você é a palavra” p. 62)

Em “A natimorta” (p. 66), mais se evidencia a luta travada entre as palavras e as ideias:

Um papel em branco
e a inutilidade
da palavra.
Ela não vem,
ela não chega.
O sentimento é maior que
a idéia.
A idéia
é maior
que o gesto.
O gesto não existe
A palavra morreu sem ter nascido


bem como a frustração diante da folha em branco, do poema que não se fez verbo. Numa perquirição que é desejo de criação, Regine dialoga com Manuel Bandeira ao solicitar de si mesma versos que correspondam à sua vontade de ‘vestir’ com palavras os seus sentimentos:

Um poema que mostrasse
a beleza da lágrima
nos olhos de um bebê.

Um poema que cantasse
o vento que roça de leve
teu corpo amado.

Um poema que gritasse
ao mundo meu amor
por ti.

Um poema que me fizesse
eterna no teu
pensamento.

(“Um poema” p.53).

Leiamos os versos de Manuel Bandeira, em “O último poema”, para comprovar a intertextualidade:

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Tal recurso também se evidencia nos versos de “O tamanho do amor” (p.22), quando o eu poético, na tentativa de mensurar o sentimento, divaga na sua incomensurabilidade:

O amor cabe
numa mão.
O amor cabe
num grito.
O amor cabe
numa palavra.
O amor é o céu
e cabe no infinito.

Leiamos os versos de Carlos Drummond de Andrade:


O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.


Ao final, o leitor não tem dúvida: é o amor o que produz versos, é o amor a razão de tudo. Sem o rito da celebração dele, não há poesia. Nas relações dialógicas, na evocação de saúde para a natureza, no lamento pela passagem fugaz do tempo, no adeus aos amigos que partiram, na celebração das amizades, da saudade ou do homem amado, é o amor a razão primeira e última da criação poética de Regine Limaverde. Sua poesia sintética e substantiva é incisiva: ‘a negação do delírio é a negação da vida’. Sem amor, sem delírio, sem vulcões e explosões, sem mar para navegar, sem cais para retornar, não é possível reinventar a vida nem mover-se. Não é possível criar poesia.

sábado, 23 de abril de 2011

A poesia e seus percursos

A poesia, desde a antiguidade, percorre caminhos e veredas na reconfiguração do mundo, na transfiguração da realidade, em experiência estética. Neste ensaio, faz-se uma reflexão sobre esses percursos e fala-se sobre as últimas publicações de cinco escritores cearenses no gênero.


A poesia e seus percursos

Poesia é uma forma de expressão literária que surgiu na antiguidade simultaneamente com a Música, a Dança e o Teatro. A partir de então, muitas foram as tentativas de defini-la, entendê-la, escrevê-la. Para Platão, a poesia, como a arte em geral, era uma ameaça epistemológica e ética à sociedade, pois ele via o artista como um fabricante de fantasias que desviavam as pessoas das verdadeiras ideias (a arte era mimese, pura e simples imitação do real).

Além disso, a arte estimulava as paixões, os afetos e as emoções, que, descontroladas, podiam, conduzir à guerra e à catástrofe. Por conta desse risco, a arte só poderia ser praticada por crianças, loucos, mulheres e escravos, que não exerciam influência. A boa convivência em sociedade dependia de certa a-phatia (ausência de emoções), por isso, em A República, ele diz que os artistas devem ser expulsos da cidade para que ela seja justa e feliz. A arte era falseamento e, assim sendo, não poderia influenciar os cidadãos comprometidos com a verdade.

Já Aristóteles (384 a.C.), seu discípulo, no livro Poética, procurou mostrar que a arte é verdadeira, sim. Ele reinterpreta a mimese ao afirmar que a arte não é só reprodução, mas reinvenção do real. Afirma que a poesia (universal) é mais séria e filosófica do que a história (particular) e vê nela (como nas outras artes) a função catártica; atribui a ela um efeito purificador, benéfico. A harmonia da cidade não estava na a-phatia, mas na boa medida entre razão e afetividade. Além de um meio para transmissão do saber, a arte passou a ser vista como edificante e pedagógica.
Foi no séc. V a.C., que apareceu a designação do poeta como poietés. Até então, Homero e seus companheiros eram designados como cantadores, aedos (aoidoí), isto é, aqueles que cantam os altos feitos dos homens e dos deuses.

No decorrer do tempo, as experiências estéticas com a poesia foram muitas. No Trovadorismo, entre os séculos XII e XIV, a poesia era ligada à música e recebia a denominação de Cantiga (Cantiga de amor, a que tinha como eu-lírico o homem; Cantiga de amigo, a que tinha como eu-lírico a mulher; mais as Cantigas de escárnio e maldizer). No Humanismo, além de ressuscitarem-se as canções de gesta francesas para inspiração das novelas de cavalaria, praticou-se a poesia palaciana, feita para ser recitada nas festas, uma poesia de louvor. O Classicismo, no séc. XV, trouxe a magnitude de Camões com sua epopeia Os Lusíadas e os sonetos de amor moldados na fôrma clássica.

Até aí não se fala na poesia brasileira, porque nossa terra foi oficialmente encontrada apenas no século XVI. Foi no período da colonização que a poesia chegou ao Brasil, com finalidade pedagógica e de catequização. No Barroco, ela foi a expansão da verve ácida de Gregório de Matos, que se vingava de quem o atingia por meio dos seus versos. No Arcadismo, ela cantou a vida simples e, no Romantismo, idealizou a mulher e o amor, despida de compromissos estéticos, tão-somente comprometida com a inspiração do poeta para cantar o amor ou clamar pela libertação dos escravos.

Os parnasianos contestaram o uso da poesia para qualquer finalidade e passaram a cultuar apenas a forma; a arte não deveria ter função, deveria existir puramente, sem contaminar-se com os apelos da subjetividade humana. A ‘arte pela arte’ era o princípio da criação artística. Muitos simbolistas reagiram a essas ‘algemas’, no final do século XIX, e buscaram novas soluções formais, sobretudo na França, mas, no Brasil, tal experiência não ultrapassou o alcance de uma linguagem fluida, vaga, em busca de evasão pela espiritualidade.

No século XX, a poesia perdeu toda essa pompa… o verso livre dos modernistas e a inserção do cotidiano como tema poético abriram espaço para que o poeta se movimentasse em liberdade entre as palavras. E foram muitas as experiências com essa liberdade: os concretistas aboliram o verso, o poema-processo mostrou a desnecessidade da palavra, o neoconcretismo cobrou engajamento nas questões sociais, o Tropicalismo reacendeu o diálogo entre a poesia e a música, os poetas marginais expressaram sua irreverência,… e hoje? O que restou disso tudo? Que função a poesia tem?

A poesia permanece como uma forma de criar outro mundo “mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado – por cima da realidade imediata”, com diz Gullar. Ela é a possibilidade de expressar, através da palavra, esse mundo objetivo que nos cerca ou o mundo de subjetividades que nos enreda. É como a luz que falta para que enxerguemos. Quem faz poesia tem a capacidade de transfigurar o real, recriá-lo… Quem lê poesia fica mais leve para aguentar o peso da existência. Isso, porque ela é, naturalmente, algo que se diferencia do ordinário, do comum, do mediano. Ela reconfigura as mentes ao lançar sobre elas novos olhares, ao mostrar o que não se vê a ‘olho nu’, ao fixar sentimentos e pessoas que o tempo carrega.
Como fala Cohen, a poesia força a alma a sentir aquilo que geralmente ela se limita a pensar. Se lembrarmos de ‘O cão sem plumas’, de João Cabral, veremos como ele, por meio dessa metáfora, chama o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem:Como o rio / aqueles homens / são como cães sem plumas / (um cão sem plumas / é mais / que um cão saqueado; / é mais / que um cão assassinado. / Na paisagem do rio / difícil é saber / onde começa o rio; / onde a lama / começa do rio; / onde a terra / começa da lama; / onde o homem, / onde a pele / começa da lama; / onde começa o homem / naquele homem.

São esses olhares que nos dão conta de que o poeta tem o poder da reconfiguração. Eles veem o que subjaz, o que não emerge à flor dos olhos da maioria.
Distinta de sua teorização literária, a poesia pode ser apenas um alimento para a alma. Ela não precisa ser entendida em sua forma, dispensa conhecimentos prévios de métrica ou rima, de melodia ou de escansões. Ela precisa essencialmente ser sentida. É essa possibilidade de criação do que não existe, e da recriação do que existe mas falta, que faz do poeta um ser especial, como nos mostra Murilo Mendes, ao dizer que na poesia “Tenho constelações para me servirem / E gaivotas que levam minhas cartas / Mais depressa do que aviões / Nascem musas de minuto em minuto / Escovam o outro mundo para mim.

Não importa que os chamem de lunáticos, que os acusem de sonhadores… os poetas têm um universo muito particular. Realmente, nessa sociedade neoliberal e individualista em que se vive, os que amam e se dedicam à poesia têm que construir um universo à parte e preservar o sonho libertário da construção de um espaço anárquico… São os anjos gauches de Drummond. De que outro modo podemos não perder a delicadeza? Esse espaço anárquico de que falo está dentro de nós e é o que nos capacita à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a poesia esse antídoto. Sem ela, onde celebraremos nossos amores? Eles perecerão ou quedarão entristecidos como um violão com a corda quebrada, abandonado por quem quis, mas não aprendeu a tocar. Sem a poesia, o que faremos com a nossa saudade e com a nossa esperança de dias melhores? Com os nossos amores que não deram certo? Onde colocaremos nossas lágrimas e nossos risos? Poetas são, sim, lunáticos… bendita seja essa nave que os conduz a esse mundo onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces. Quem não se rende à poesia, quem não se deixa seduzir pelos seus olhares, sentirá o mundo e até a si mesmo dentro dos secos limites das objetividades. Não se comoverá diante de um pôr do sol e só enxergará pedra nas pedras, nunca será capaz de transformar lágrimas em oceanos ou dores em saudades gostosas de sentir. É Cecília Meireles quem diz: “a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”… e sem a poesia, fica difícil reinventar o que quer que seja.

Cinco poetas cearenses, muitos caminhos

Nessa perquirição dos poetas de hoje, caíram-me as mãos, num só mês, quatro livros de poemas, todos de escritores cearenses; quatro deles publicados em 2010: No limiar dos invernos, de Linhares Filho, 70 poemas para orvalhar o outono, de Barros Pinho, Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema , do Poeta de Meia-Tigela e um já editado em 2011: O livro de Marta, de Rodrigo Marques. São cinco poetas, cinco caminhos, estilos distintos que se cruzam no gênero, na sensibilidade e no senso estético.

No limiar dos invernos

O livro No limiar dos invernos, de Linhares Filho, é um canto à maturidade: “Saber maduro alerta-me profundo / sobre a velocidade da descida. / Busco incessantemente, só o jucundo / e sofro por qualquer coisa perdida ( “No limiar dos invernos”, p.108). O próprio título sugere um marco, o momento de transição, quando o poeta se assume homem maduro, senhor de suas emoções, e poeta afinado com seu instrumento: a palavra e sua expressividade.

No poema que abre o livro, “Legenda”, ele fala sobre os frutos colhidos na madureza e interroga sobre o inverno que o espera, metaforizando os anos vividos e declarando-se atento ao galope do tempo:

Frutos colhi de minha noite em trégua,
Produtos viscerais da madureza.
Irei também no inverno, a cada légua,
Colhê-los de alma pronta e sempre acesa?
Pautada a rota por divina régua,
Espero ver tais frutos sobre a mesa,
Depois que, ao dorso de um cavalo ou égua,
Minha alma galopar, a crinas presa. (p.33)

Do ponto de vista formal, o mestre transita entre o verso livre e o metrificado com a mesma naturalidade com que celebra o silêncio e os ventos. Para ele, a poesia é “Fruto da necessidade do belo e do sublime...a eterna busca do ser”. Os exercícios metapoéticos atestam sua consciência estética na criação literária, bem como a preocupação ontológica que perpassa também outras obras suas. Ser poeta, pra ele, é mais que ser homem: “Perquire muito além do que vês e do que ouves. / Flores não tocarás, sem ter pena, por couves. / Sonha, em vigília, bem mais do que quando dormes”. (“Contribuição à busca do poético” p. 38).

Nilto Maciel, em artigo sobre o novo livro do poeta de Lavras, fala dos múltiplos recursos formais utilizados: “do soneto ao verso livre e a poemas de variados feitios, em versos decassilábicos ou de cinco, seis, sete e oito sílabas. O apego à vestimenta da tradição o livrou da aventura pela chamada poesia de vanguarda, pelo antiverso, pelo poema visual e outras modalidades de efêmera duração. Isto é, consciente e conhecedor do fenômeno estético, tem pleno domínio da técnica do verso. Sem se apegar, com fanatismo, à métrica e à rima, faz uso também do verso branco, como em “Das coisas”. Quanto à rima, ele a pratica muito bem, em todas as suas modalidades ou tipos: consoante, aguda, esdrúxula, grave etc.”, o que mostra seus conhecimentos bem depurados quanto à teoria do verso.

O homem maduro não faz só um exercício estético de amor à poesia, celebra a fé, os amigos, a vida e a mulher amada. Constrói sua poética por meio de odes, propostas, convites, hino, homenagens, reflexões, cantos e orações. A religiosidade que parece mover sua vida desenha-se em preces e confissões de fé e atos de humildade diante do Senhor, a quem clama a virtude e o poético: “Dai-me a realização, Senhor, do santo anseio, não me tireis, porém, o espírito poético”. p. 37. Vertentes de sua existência, Deus e a poesia são seus escudos e seus broquéis. Só pela palavra, o poeta resgata o passado, frui o presente e vislumbra o futuro (p.35), integrando-se ao tempo e transcendendo-o.

Senhor de sua pena, Linhares não priva seu grito pelo planeta: “De Kioto a Copenhague / vive a clamar a mãe Geia / contra uivos de alcateia: / que o efeito estufa se apague”, p. 101), pelo Haiti: “Convoque-se o ímpeto cordial e amigo / do globo em torno de uma só ideia: recriar o Haiti e seu valor humano”, p. 102. Com a mesma leveza com que contempla o sono da amada, (“Dorme e observo o seu ressono. / Em seu mundo inconsciente / vai passeando tranquila e na penumbra / por alamedas ensombradas / ou entre os pomares e jardins do outono? p. 93), canta a irreverência do vento e a voz das aves.

Conhecimentos mitológicos e bíblicos subsidiam sua criação e mostram um poeta consciente do seu estar no mundo em todas as suas faces: a do homem, do professor, do cidadão, do avô amoroso, do amigo e do amante apaixonado. Nessa diversidade, celebra poetas e amigos; louva a língua pátria e até a matemática, que registra a multiplicidade do universo (p.60); canta cidades que marcaram seus percursos: Rio de Janeiro, Argentina, São Paulo e Brasília e, como num balanço de seu universo multifacetado, fecha o livro com dois sonetos que elucidam o título da obra. O primeiro deles marca a consciência da maturidade e o desejo de manter o equilíbrio até o fim da jornada; no segundo, como quem se despede, diz vencer a dor inevitável pelo amor, sua última glória.

É o fim do outono em mim. Chega-me o inverno.
Com as chuvas iniciais virá o frio.
Mas não quero sentir, no mundo interno,
Desolação, desânimo e vazio.

Sem inapetência ter, não me consterno
E à minha cara infância ainda sorrio.
Se para a flor e o ninho ainda suou terno,
Aflige-me o correr do tempo em rio.

Em apreensões o ser quase naufraga,
Tentando equilibrar-se sobre a vaga,
Para atingir triunfante o último porto.

Mas, como antes do inverno, que se instala,
Nada farei sem te escutar a fala,
Querida, ou sem o bem do teu conforto.

(“No limiar do inverno”, p. 107)


70 poemas para orvalhar o outono

O livro comemorativo dos 70 anos do poeta Barros Pinho traz 70 poemas selecionados de oito livros de sua autoria, e uma fortuna crítica respeitável acerca de sua produção literária: Linhares Filho e Ubiratan Aguiar apresentam a obra na qual estão, também, inseridos artigos assinados por Pedro Paulo Montenegro, Antonio Carlos Vilaça, José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Adriano Espínola, F. S. Nascimento, Pedro Lyra, Sânzio de Azevedo, Caio Porfírio Carneiro, Artur Eduardo Benevides, Antonio Girão Barroso, entre outros críticos que se debruçaram sobre a sua criação.

A beleza do volume se coaduna com a preciosa seleção de poemas, representativos, pois, de toda a sua poética, que tem como linhas condutoras duas figuras essenciais: o menino e o rio. Ainda que ele diga “setenta anos / muito tempo / para ser menino / não se agita mais / a água da infância / a vida só o papel / timbrado na sombra / onde se escreve o ontem / em páginas brancas / na face da espera” (p. 29), faz rediviva sua infância a cada verso, renascendo ‘no papel’, entre linhas e entrelinhas, pois que, homem feito de linguagem, não sabe ser senão reinventando-se pela palavra.

O menino perdido no tempo cronológico aparece cada vez mais vivo no tempo da memória:

a infância corre
na correnteza do rio

o sonho não sabe
o rumo dessas águas
seria o mar
ou o mar seria apenas
uma solução geográfica

sabe-se
que só nós meninos
o rio se encanta
até voar como pássaro

nasce em mim o desejo de escrever

o rio inteiro a correr
sobre o papel da palavra
sintaxe de sol
antes dos olhos
se abastecerem de fadiga
(p.52).

A travessia do rio é a travessia da vida que se rende a soluções geográficas apenas, racionais, desprovida de sonhos. Na alma do poeta, entretanto, ‘se pode voar como pássaro’, na possibilidade de vencer a correnteza do tempo e recuperá-la, ainda que encantatoriamente, na poesia.

Esse rio que atravessa a escritura do poeta é um rio atávico, cuja localização espacial – a Parnaíba – funciona como eixo, tronco de sua árvore genealógica. O homem que por razões diversas deixa sua terra de origem vive em duplo exílio: o físico e o psicológico, pois que, longe de sua taba, não encontra seu verdadeiro rosto senão no olhar para trás e no permanente saudosismo que o afaga:

meu avô morreu
na chapada da distância

procurando a lua de olhos
vivos no rio o rio mais
longe de sua vontade

as mãos sem carne
os pés sem perfume
a rastejar fantasmas

na superfície das pedras
o engenho abrigo do tempo
moendo moendo seus ossos
(p.64).

As reminiscências, cavadas pela saudade, pelo acúmulo e pela intensidade, tornaram-se mais constantes na estação do outono, com que o poeta metaforiza sua entrada nas 70 décadas de existência, mas a saudade ancestral (que o acomete) está nele desde sempre:

guardo há muito tempo
na gaveta da vida
uma solidão disfarçada
um triste acanhado
pelos cantos dos olhos no calendário
(p.83).

Sua poética presentifica ausências. No outono, a palavra desgoverna-se para romper os silêncios e orvalhar-se em confissão: há saudade, há solidão, há ‘vontade de dizer / o que não se diz pela metade’ (p.83). E o poeta diz dos seus naufrágios, das celebrações, diz, sobretudo, do seu cansaço de tantas ausências:

carrego madrugada
no canto dos olhos

nos meus ombros
depositaram noites
que não querem ser dia

nos cabelos guardo
a ilusão ou o sonho
dos que sonharam

nas mãos trago
pedaços de sol
só para distribuir

n’alma a ausência
cansada de bater
nos dique da vida
(p.127).

Mas não é de tristeza a poesia de Barros Pinho. Tampouco é meramente confessional. Não há lágrimas, mas celebração: “recordo / a adolescência / nas árvores / de minha cidade” (p. 160). Sua saudade da terra é a saudade de todo exilado (não apenas de corpo, mas de coração) e as dores de que ele fala são dores sem nacionalidade definida.

O rio foi o começo de tudo, foi o espasmo ante o icognoscível. Depois veio o amor com suas estradas impossíveis de não percorrer: “o rio encheu os olhos / do menino / só de espanto // a menina / encheu-lhe a vida / de paralelas” (p.130). Assim o menino se fez homem, sendo universal ao cantar sua aldeia (Tolstói) ou, qual Caeiro/Pessoa, cantando seu rio: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Tal qual diz o poeta em seu outono: “não conhecia / o mar / o rio de minha / cidade era meu oceano” (p.153).

Hoje, depois de tanta estrada e poesia, depois de tantas travessias de rios e mares, continua menino o homem que reconfigura o Natal; continua menino o poeta que orvalha seu outono com poesia...com certeza, continua a procurar São Jorge nas luas de suas e de tantas outras terras. Seus sonhos não se evaporaram, tampouco as folhas caídas que ele cata e recupera a cada verso que escreve.

Leiamos o poema que abre o livro:

setenta anos
muito tempo
para ser menino
não se agita mais
a água da infância
a vida só o papel
timbrado na sombra
onde se escreve o ontem
em páginas brancas
na face da espera
as mãos postas ao vento
na colheita do milho
em outras safras
no rosto as linhas
em réguas de rugas
no compasso rítmico
da marca desenhada
nos olhos a pele da fadiga
fragmentos de vida
na alga das palavras
/.../
A poesia harpa da manhã
Acende o orvalho a orvalhar
O lírio do pássaro
No lírico segredo do outono

(“Orvalho para orvalhar o outono”, p. 29-30)


A poesia em Concerto

O poeta Alves Aquino, encarnado no personagem Meia-Tigela, lançou, em 2010, o livro Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema, cujo subtítulo, “Combinação de realidades puramente imaginadas” traduz o movimento dialético que compõe sua criação, conjugando tradição e modernidade, realidade e imaginação. É, como a Bíblia, dividido em livros, mais precisamente, em 4, cada um com 4 subdivisões. Os números assumem importâncias e simbologias que, certamente, se explicarão ao final do seu projeto.

O nome do autor abre espaço para que o leitor se perceba num território estranho, mas a alcunha que se supõe pejorativa vai, aos poucos, ganhando outras significações. Está-se diante de algo diferente, não há dúvida quando se começa a folhear o volume. A respeito da previsível interpretação de poeta de meia-tigela como um poeta de pouco valor, ou de produção insuficiente, os editores da Revista Mamífero, oportunamente esclareceram “[...] o pseudônimo 'Poeta de Meia-Tigela' não é uma autodeterioração ou subvalorização do que [ele]escreve. Sua origem tem 'um cunho social' com o qual se identifica, visto que o termo representa 'a metade da ração oferecida ao serviçal, enquanto seu senhor ganhava a tigela inteira'. Outra razão do pseudônimo é criar um personagem que seja o próprio autor e personagem de si mesmo, como o João Grilo ou Cancão de Fogo. Enfim, o uso do epíteto não é um distintivo de humildade; ao contrário, traz o Poeta um projeto ambicioso de encarnar um múltiplo personagem, criando uma bandeira dupla, uma apresentação automática para a sua obra, expressando algo inusitado. Para ele, essa é a origem que interessa, já que implica numa adesão ideológica e emocional". ("Um Poeta de Meia-Tigela", Revista Para Mamíferos N. 01, Fortaleza, 2009 - editores: Glauco Sobreira, Jesus Irajacy, Nerilson Moreira, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Tércia Montenegro).

Lembrei-me outra vez de Fernando Pessoa que, no poema “Tabacaria”, diz: “Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara”. Personagem e pessoa se fundem, amalgamados numa poética movimentada, a que ele mesmo chama de Concerto. A obra em apreço - Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema - é parte de uma composição quartenária. Quatro movimentos, pois, comporão a totalidade do projeto de composição do Concerto e a cada um deles é, previamente, “atribuído um elemento, bem como uma função psíquica, no intuito de estabelecer – dentro da totalidade, uma personalização e individuação dos seus momentos constitutivos”, como explica o próprio autor no final do livro.

Contemplamos, no volume citado, o 1º Movimento - Quarto Minguante (1/4), cujo elemento é terra, e cuja função psíquica é o pensamento. As outras 3 virão, posteriormente, quem sabe em formato idêntico, para compor o Concerto completo: 2º movimento, fogo e sensação; 3° movimento, ar e sentimento; 4º movimento, água e intuição.

Essa ordenação, esses liames tão arquitetados, demonstra um trabalho consciente, mais que isso, uma proposta de Obra Ampla. A miscelânea de formas, em versos livres ou metrificados, o que varia de acordo com o conteúdo, obriga o leitor a ativar-se e a interagir com os textos. A ordem é estabelecida, mas logo se foge dela. Assim, em ritmo sempre inusitado, os textos se sucedem, revisitando o clássico e as mais variadas vanguardas, sem, entretanto, moldar-se a qualquer delas. Do Concretismo, se absorve a palavra-coisa, o aproveitamento do branco da página; da poesia-práxis, o movimento, a ação imposta à palavra; do poema-processo, a desnecessidade da palavra, o poema-imagem... mas é inútil ao leitor a criação de expectativa em relação ao que virá depois.

A pluralidade de estilos conjuga-se ao diálogo perene entre as artes, de modo que a música que compõe todo o concerto está em consonância com as imagens, os poemas e a teatralização. O poeta narra, disserta, compõe versos, fazendo dialogarem Homero, Dante, Goethe, John Mílton, Dostoiévski, ora com sinceridade, ora com ironia, brincando com as palavras ou levando-as bem a sério, articulando um estilo pessoal, embora bebido de muitas fontes.

Concerto não é, pois, uma viagem, um lance intuitivo, mera aventura com a palavra e suas possibilidades. É um projeto de composição ambicioso, com trabalho de linguagem e articulação entre o clássico e o popular; a brincadeira e a verdade. Palavras e cálculos matemáticos, lirismo e antilirismo, construção e desconstrução fazem a caleidoscópica poética de Meia-Tigela, sem dúvida, sangue novo para tirar da inércia a fina veia da poesia brasileira contemporânea.

Dois poemas do Concerto:

Sim! Déspota deposto, adeus ao trono,
Adeus ao cetro, adeus poder benquisto!
Fui Outro e a contragosto virei isto,
Este, só, sem padrinho, sem patrono.

Pior: eu e Abadon neste abandono.
Ao redor o reinado carcomido
De antigo rei, também ele podrido.
Ato nenhum de amor em seu abono.

Nada tem quem de tudo já foi dono.
Se não cai, encanece meu cabelo.
No velho espelho — um velho — e horror é vê-lo.
Que de melhor me ocorre é sentir sono.

Parabéns para mim: completo um cron. O
próprio Tempo, ao ver-me, se estarrece:
“Que me ultrapassa em séculos, quem esse?”.
Nada-perene, sou não ser. Outono.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 1º Movimento, Livro 1, Seção 1)

Que dizer há muito,
Mas dizer sem boca.
A garganta é rouca
Para tal assunto.

Assunto, coitado,
Que fica onde está.
Nenhum verso dá
Conta do recado.

Recado sisudo
Que morre na toca.
A palavra é pouca,
Não toca o profundo.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 4º Movimento, Livro 1, Seção A)

O livro de Marta e seus bilhetes de amor

Quem é Marta? A mulher de maiô, ou a cinéfila que nunca perde uma sessão das 18:30, uma musa delirante ou apenas um pretexto para escrever alguns bilhetes. Sim, Marta não tem carne, é palavra, grito, vocativo.

Rodrigo Marques escreveu o Livro de Marta, subintitulou-o de Bilhetes de amor quebrado, e deixou o leitor na expectativa de algumas páginas confessionais. Mas não. Marta é um pretexto pra falar de tédio e de amor; de um trote ou de uma blitz; de uma sessão de cinema ou de uma ida à papelaria; são poemas de desejo, de semáforos, piercing e shoppings. O rigor formal existe, é, aliás, bem evidente, e é igual para tratar dos assuntos.

Entre versos livres e sonetos, o poeta constrói um estilo próprio, sem intenções de vangauardear, mas tão somente tirar a poesia do marasmo. Nada de mais; nada de menos. Ruy Vasconcelos fala de um traço arcaizante na obra. Sim, o poeta prefere bilhetes a e-mails e exercita o soneto. Visita Camões num intertexto surpreendente; lembra Mar portuguez, de Fernando Pessoa, em seu “Mar rústico”; provoca Marta, sonegando-lhes os versos que Pablo Neruda fez a Matilhe Urutia, sua amada: “Não és Matilde / Não és o mar / Nenhum dos cem sonetos de amor fez-se para ti / sequer uma barcarrola pousou no céu... ((p.23). Cita Dante Milano e Ribeiro Couto, mas não parece beber nas fontes deles.

Nenhuma tentativa de inovar, mas transfigurando naturalmente a linguagem; sem ironia com as formas fixas, também sem apologia a elas, Rodrigo tem a consciência exata de suas pretensões: “meu mar é muito pouco / para quem sabe nadar / no entanto é meu; comprei-o na loja ao lado da tabacaria, / completo: / sem cais e por rimar. (p.22). Não é poeta por acaso ou circunstância. É poeta de construção e consciência. Leiamos dois dos seus 'bilhetes':

À contra-mão de mim,
O ônibus passa,

E se atrás,
Viaja o corpo de Marta,

E se ainda, nesse corpo,
Viaja encarnado uma parte minha
Uma perna, um braço, uma mão,

Escuto,

Longe,

A cidade estacionar-se

(LINHA, p.38)

Para que fazer unhas no salão mais caro
Se arranhas em mim os pesares,
As tardes, as frases,
Se deixas em mim um cheiro falso de esmalte?

(FAZENDO UNHAS NO SALÃO MAIS CARO, p. 29)

A poesia está em efervescência, não sucumbiu ao descaso do mercado editorial. Distintas experiências estéticas, variadas propostas e os mesmos objetivos: partilhar olhares transfiguradores do mundo, mergulhos no visível e no invisível, catarse e confirmação da existência. Seja qual for a proposta de cada poeta, vê-se que se mantém a necessidade de criar em versos, de renovar os cenários, de apostar nas velhas fórmulas, revisitá-las, dizê-las e desdizê-las. Num momento plural, de eliminação de fronteiras entre popular e erudito, sobrepõe-se o ecletismo e a desnecessidade de rótulos.

PARA SABER MAIS

ARISTÓTELES. Poética. Disponível em http://www.culturabrasil.pro.br/poetica/artepoetica_aristoteles.htm. Acesso em 10/4/2011
COHEN, J. Estrutura da linguagem poética. São Paulo, Cultrix: EDUSP, 1974.
GULLAR, Ferreira. Disponível em: http://www.dignow.org/post/poesia-1544510-42516.html. Acesso em 10/4/2011
QUEIROZ, Raquel. Serenata. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2010.
LINHARES FILHO, José. No limiar dos invernos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
MACIEL, Nilto. A Poética de Linhares Filho. Disponível em: http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/01/poetica-de-linhares-filho-nilto-maciel.html. Acesso em 11/4/2011
MARQUES, Rodrigo. O livro de Marta. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011.
MEIA-TIGELA, Poeta de. Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
NETO, João Cabral de. Um cão sem plumas. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994
PINHO, Barros. 70 poemas para orvalhar o outono. Fortaleza: Premius, 2010.
PLATÃO. A República. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/6077389/Platao-A-Republica. Acesso em 11/4/2011
TUFIC, Jorge. As baladas do poeta Barros Pinho. Disponível em: http://palavradofingidor.blogspot.com/2011/02/as-baladas-do-poeta-barros-pinho.html. Acesso em 11/4/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dois irmãos: diálogos com o presente e o passado


Palestra proferida no II Encontro Sul-Americano de Cultura Árabe, na Bibliaspa, em São Paulo - 26/03/2011

MARQUISE – O triunfo da tragédia

http://www.youtube.com/watch?v=CBLAHreE9KM



Para falar na história do Teatro, ou relembrar a visão de Aristóteles sobre a Comédia e a Tragédia, ambas, segundo o filósofo grego, advindas das obras de Homero, tem-se que assistir aos 136 minutos de drama do filme Marquise, de 1997, dirigido pela francesa Véra Belmont e estrelado por Sophie Marceau, Bernard Giraudeau, Lambert Wilson, Patrick Timsit, entre outros atores.

O enredo evoca uma reflexão sobre as dificuldades que roteiristas e atores enfrentavam na França do século XVII, a submissão deles ao rei e ao clero, sobretudo à fugacidade do gosto. Há, também, uma reflexão ética, quando se analisam as concessões feitas pelos artistas para conseguirem sucesso (ou apenas sobrevivência), como a fuga ao próprio estilo, a adaptação às conveniências sociais e, em outra perspectiva, até o uso do próprio corpo para barganhar papéis relevantes.

À época, o teatro francês era regido pelas comédias de Molière e as tragédias de Racine. Nesse mundo de rivalidades, a dançarina Marquise, interpretada pela atriz Sophie Marceau, é descoberta pelo ator da Companhia de Moliére, Gros-René du Parc, dançando seminua em uma feira no interior da França. Ele se apaixona por seus dotes físicos e artísticos. O pai dela, após as apresentações, organiza a fila de homens que pretendem pagar pelo contato carnal com sua filha, mas Gros-René fura o cerco e faz o convite para que ela siga com ele, de forma inusitada, enquanto ela atende, na cama, a um cliente.

Apaixonado, du Parc paga ao pai da moça para casar-se com ela, e a leva consigo para Paris. A beleza e a ambição dela abrem as portas para uma carreira promissora, não apenas à custa de seu talento profissional, mas do seu desempenho como amante das maiores figuras da corte, entre elas, o rei. O marido sabe e aceita, desde que ela nunca o abandone.

Molière, o então preferido do rei, viaja com a sua Companhia sempre em grandes dificuldades. Por pressão do povo e dos religiosos, a realeza começa a preteri-lo. Criticado em função da amoralidade de suas histórias e do comportamento de sua trupe, recebe advertências do rei e vê-se obrigado a se reformular; submete-se ao ‘sistema’, mas não sem dor. O filme mostra a estrutura dos poderes, sobretudo o da igreja, interferindo nas produções, e o teatro sempre tentando burlar, ou adaptar-se, de algum modo, para buscar meios de permanecer e, quem sabe, depois ter espaço para questionar as estruturas vigentes.

A decadência de Moliére não tardou. A comédia, considerada gênero inferior por Aristóteles, imitava homens de poucas virtudes por meio de personagens caracterizados por comportamentos eivados pelo medo, pela avareza, pela covardia e pela adulação; talvez (ou certamente) por isso desagradasse à realeza. Nas peças, encenavam-se a inferioridade e o ridículo, sem necessidade de um enredo bem montado, com peripécias e ações. Também no que diz respeito aos traços físicos, predominavam as caricaturas: o narigudo, o baixinho, o gigantesco etc. Para a sociedade hipócrita que assistia às peças, o riso era ligado ao patético, assim, deveria sair de cena e dar lugar a dramas de ‘melhor qualidade’. Moliére foi, desse modo, ‘engolido’ pelo preconceito e pela superficialidade de uma realeza que não gostava de se olhar no espelho.

O público passou a elevar Racine com seus dramas lacrimosos e elegeu a tragédia como o gênero da vez, pois que mostrava a imitação de ações de caráter elevado, colocando o homem na situação de agir. As portas do Palácio de Versailles se abriram para ele. A ação trágica de suas peças, com começo, meio e fim, colacando em cena o terror e a piedade com fiel comoção, atingiu a finalidade de produzir a catarse dessas emoções e teve a adesão de todos, bem como sua linguagem ornamentada, com ritmo, harmonia e musicalidade. Marquise, que não conseguia ser atriz nas peças de Moliére, mas tão somente dançarina, uniu-se a Racine, na vida e na arte, e atingiu a glória ao encenar Antígona, papel escrito para ela pelo apaixonado amante.

Ela (Marquise), numa reflexão sobre sua arte, diz à sua empregada, aspirante a atriz, que encenar é morrer todos os dias, como numa assertiva premonitória. É aclamada enquanto está em cena, brilhando; sobrevive às mudanças do gênero teatral, mas não à crueldade da glória efêmera. Doente e impedida de continuar a encenar sua Antígona por alguns dias, se vê substituída por sua bela empregada, que com ela ensaiava os textos e dela absorvia toda a técnica da representação.

Fragilizada pela saúde abalada, sob os olhos piedosos do decadente Moliére e do oportunista Racine, Marquise enfrentou a verdade de sua precária condição na corte. Não suportando viver sem o brilho do placo, entendendo a fugacidade da fama e até do amor, envenenou-se em cima dele, grávida (de Racine), encenando a própria morte, misturando o real e a ficção diante dos olhos do público, que não entendeu o drama que ali se colocava. Findou carregada pelos braços do ex-amante, na apoteose de um trágico desfecho.

O filme, que confronta a Tragédia e a Comédia na França do século XVII, termina por mostrar o triunfo das lágrimas sobre o riso, por revelar a efemeridade da glória e, sobretudo, a perecibilidade do artista num meio hostil à verdade e carente de valores humanos.

FRAGMENTOS SOBRE TRAGÉDIA E COMÉDIA - Arte Poética, de Aristóteles.

Arte Poética, cap. VI, § 27: “É pois a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.” — Aristóteles

Arte Poética, cap. V, § 21: “A comédia é [...] imitação de homens inferiores; não todavia, quanto a toda espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo. O ridículo é apenas certo defeito, torpeza anódina e inocente; que bem o demonstra, por exemplo, a máscara cômica, que, sendo feia e disforme, não tem expressão de dor.” — Aristóteles

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Troca de autorias de textos na internet – ignorância ou desonestidade intelectual?


Dois males têm afetado muitos dos internautas que ‘gostam’ de divulgar textos em blogs e sites de relacionamento: o desconhecimento da literatura em função da falta de leitura, e a desonestidade intelectual, muitas vezes decorrente de atitudes inconsequentes ou mesmo de ignorância. Por uma razão ou outra, o mundo virtual tem se tornado uma ferramenta de disseminação de falsas autorias e adulteração de textos literários, tanto no conteúdo quanto na forma. São essas práticas nada lícitas o assunto do artigo de hoje.


CLARICE POETA?

Clarice Lispector é uma escritora conhecida pela propensão psicológica de seus enredos, pela densidade dos seus personagens. Escreveu romances, crônicas e literatura infanto-juvenil. Não satisfeitos com o legado literário que ela deixou, alguns internautas resolveram transformá-la em poeta, atribuindo-a autoria de poemas ou colocando seus escritos em forma de versos. É incontestável que são poéticas muitas passagens de seus textos, mas isso não dá o direito a ninguém de mudar a estética de suas criações ou atribuir-lhe textos que ela não criou. Vejamos o poema “Nunca mais”, e a inusitada característica de transmitir mensagens diferentes, de acordo com o modo como é lido. Se de cima para baixo, a mensagem é de despedida; se de baixo para cima, tem-se uma declaração de amor:

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

O texto é criativo, mas não é de Clarice. Como assinala Betty Vidigal, em seu artigo sobre a escritora, “Apesar dos erros de sintaxe, o texto tem o mérito de ser surpreendente”, mas não é da autora de Perto do coração selvagem. Outro texto atribuído a ela é o poema “Há momentos”, que circula livremente pela internet com o seu nome:

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém, que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
/.../
A vida não é de se brincar,
porque um belo dia se morre.

Embora alguns versos lembrem o estilo clariceano, esse texto não consta em livros da escritora. Como não consta o poema “Mude”, que é divulgado na internet ora em prosa, ora em verso, mas sempre com os créditos dados a ela. Leiamos um trecho:

Mude
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Vanessa Lampert, do blog Autores desconhecidos, desvendou a verdadeira autoria desse texto ao receber um e-mail do autor – Edson Marques -, que vale a pena ser reproduzido: “Por um erro da Agência Leo Burnett, meu poema MUDE foi utilizado num comercial da Fiat, e teve sua autoria atribuída, erradamente, a Clarice Lispector. Os herdeiros de Clarice receberam quarenta mil dólares, ilicitamente, pelo "licenciamento" de uma obra alheia (no caso, minha). Sentença transitada em julgado deu ganho de causa a mim, em Ação Cautelar. Os herdeiros recusam-se a devolver o dinheiro, e sequer se pronunciam em público sobre o caso. Detalhes em http://desafiat.weblogger.com.br . Abraços, flores, estrelas. Edson Marques”.

Outro equívoco que envolve o nome da Clarice diz respeito ao poema “Alta tensão”, que aparece com o título “Gosto dos venenos mais lentos”:

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

O poema é da Bruna Lombardi e está em seu primeiro livro, O perigo do dragão, publicado em 1984.
A frase “Não tenho mais tempo algum,/ser feliz me consome...” também não é da Clarice, mas da poeta mineira Adélia Prado. Tal é a situação do texto que se inicia com “Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre”, que não consta em livros dela; é, pelo menos até agora, mais um apócrifo. Não bastassem essas atribuições equivocadas, Clarice também tem sido vítima de adulterações na forma de seus textos.

Há, no Jornal da Poesia, uma página dedicada a poemas dela, com um adendo do editor, Soares Feitosa: “Os poemas desta página são resultado do arranjo em versos, feito pelo padre Antônio Damázio [...], de textos em prosa da extraordinária escritora Clarice Lispector. Nesta saudável mania de todo-mundo-copiar-todo-mundo-sem-citar-a-fonte, tem umas "pages" por aí publicando estes textos sem lhes indicar a parceria do padre e como se fossem poesia originariamente feita por Clarice. É bom que se diga que Clarice, apesar de escrever de forma não versificada, era poeta verdadeira, pois como diz Benedicto Ferri de Barros não basta ao texto estar quebrado em linhas para ser poesia. Clarice fazia poesia sem quebrar as linhas”.

Concordo com o poeta Feitosa quanto à beleza poética dos textos clariceanos, mas acho que, mesmo numa época em que as fronteiras entre os gêneros se estreitam, mesmo que Clarice tenha escrito prosa poética, é inadmissível modificar a forma de textos alheios. Por que não transcrevê-los em prosa, tal como o texto foi criado?

Créditos incorretos: Aristóteles Onassis, Audrey Hepburn, Rita Lee, Florbela Espanca, Victor Hugo, Henfil, Maiákovski, Aristóteles, Chico Buarque, Machado de Assis, Albert Einstein, Bob Marley, Cora Coralina


Uma das maiores surpresas que ocorreram em minhas viagens pelo mundo virtual foi ler um poema de Aristóteles Onassis, texto considerado perfeito em alguns blogs. Jamais o imaginei dono de versos como os de “Talvez”, que recebi em forma de slides com belas imagens da Grécia:

Talvez eu venha a envelhecer rápido demais. Mas lutarei para que cada dia tenha valido a pena.
Talvez eu sofra inúmeras desilusões no decorrer da minha vida. Mas farei com que elas percam a importância diante dos gestos de amor que encontrei.
Talvez eu não tenha forças para realizar todos os meus ideais. Mas jamais irei me considerar um derrotado.
Talvez em algum instante eu sofra uma terrível queda. Mas não ficarei por muito tempo olhando para o chão.
Talvez um dia eu sofra alguma injustiça. Mas jamais irei assumir o papel de vítima.

O inusitado presente me colocou em busca de informações que tivessem credibilidade e não demorei a descobrir que o poema, citado aqui apenas em parte, é da poeta e publicitária paulista Sônia Carvalho, não é legado do magnata grego.

Outra atribuição enganosa foi feita em um texto muito difundido por e-mail: “O poder armado”, publicado no Jornal do Brasil em 6 de fevereiro de 2001, pela jornalista cearense Heloneida Studart. O relato sobre a situação das mulheres no Brasil não é, pois, da Rita Lee, como aparece em muitos sites.

A confusão pode ter-se dado em função do último parágrafo, quando a jornalista cita explicitamente parte da letra de uma música “Pagu” da roqueira: “Viva Rita Lee, que canta: "nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda e meu peito não é de silicone... sou mais macho que muito homem” (“Pagu” – Rita Lee e Zélia Zélia Duncan). Se a troca da autoria deu-se por desatenção ou por má fé não dá para saber, mas Betty Vidigal chama atenção para o fato de o nome da Rita Lee ter sido retirado da versão que circula com o nome dela como autora e assinala a mudança do título para “Mais Macho que Muito Homem”, o que supõe premeditação.

Além da questão espacial e temporal que distancia as duas, temos a questão do estilo: Rita Lee é mais irreverente, não tem a formalidade de Heloneida, que é jornalista e, à época, era deputada, líder da bancada do PT no Rio e presidente da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos.

“Dicas de beleza”, por sua vez, é de humorista e apresentador de TV americano, Sam Levenson, não é da atriz Audrey Hepburn, como divulgam os incautos:

1 - Para ter lábios atraentes, diga palavras doces.
2 - Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas.
3 - Para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos.
4 - Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança
passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia.
5 - Para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho.

“Os votos”, também conhecido como “Desejo primeiro que você ame”, longo poema do qual transcrevemos a primeira estrofe, não é do o escritor francês - Victor Hugo - que escreveu o antológico Os Miseráveis. Somente quem nunca leu um livro dele poderia acreditar nisso. O texto foi criado, na verdade, por Sérgio Jockymann:

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

O belo poema “Por tudo que me deste”, divulgado como escrito por Florbela Espanca, é de autoria do poeta, também português, Carlos Queiróz e foi publicado numa Antologia organizada em Lisboa por Vasco Graça Moura em 2004:

Por tudo que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado.
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

Já a frase “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”, erroneamente creditada a Henfil, é de Maurício Ceolin. Henfil apenas a leu em público, na época do movimento pelas ‘Diretas Já’, e a utilizou como epígrafe de um livro seu. Outra confusão de autoria que levou tempo para ser esclarecida se refere ao poema “No caminho com Maiákovski”, atribuído ao poeta russo, quando, de fato, foi escrito por Eduardo Alves da Costa, certamente leitor dele: “Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada...”.

“Revolução da alma” – “Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue sua alegria, sua paz sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida” - não é do filósofo grego Aristóteles, como acreditam muitos que ‘se dizem’ discípulos de suas ideias em páginas da net, mas de Paulo Gaefke, e está no livro Decidi ser Feliz, publicado em 2002.

“Solidão”, texto que é repassado com uma foto do Chico Buarque e seu nome impresso, teve a autoria negada por ele. Foi escrito, depois se soube, por Fátima Irene Pinto, publicado em seu livro Palavras para Entorpecer o Coração (p.79). O site dela é www.fatimairene.com. Leiamos pelo menos duas estrofes:
Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo.
Isso é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar.
Isso é saudade.

A crônica que intitulam na Net como “Mulheres no topo” e/ou “Maçã: “As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir.”, bem como o poema “Bons amigos” “Abençoados os que possuem amigos, / os que os têm sem pedir. / Porque amigo não se pede, / não se compra, nem se vende. / Amigo a gente sente! // Benditos os que sofrem por amigos, / os que falam com o olhar.” não foram escritos por Machado de Assis, pelo menos, não constam em seus livros.

Mesmo os romances da primeira fase machadiana, seus contos ou crônicas, tampouco seu poemas com resquícios românticos têm o estilo dos dois textos. Profundo conhecedor da alma humana, Machado caricaturou a sociedade carioca e, por meio dela, traçou o perfil dos seus contemporâneos de modo geral. Seus enredos provocam profundas reflexões de fatos cotidianos que ressoam como uma advertência. São, pois, apócrifos os dois textos a ele atribuídos, a não ser que o verdadeiro autor apareça para assumi-los.
Mas os absurdos não param por aqui. No site http://www.dihitt.com.br/noticia/albert-einstein-e-a-poesia-, há uma postagem intitulada Einstein e a poesia, seguida da informação: “Sua genialidade transcendeu a barreira da insensibilidade da ciencia e o fez poeta também. Aqui um trecho de sua poesia. As inúmeras cartas que escreveu revelam seu amor pela literatura” (Sic). Em seguida, vem o texto:

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
/.../
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Essa atribuição talvez tenha se dado em função da descoberta da existência do “Diário de namorada de Einstein, que revela o homem além do cientista”, cujo artigo foi publicado em 2004, no Jornal da Ciência. Leiamos:

“Após a morte de Einstein em 1955, Fantova vendeu suas cartas e poemas, juntamente com uma pasta de fotografias, para Griffin, que as doou para a Biblioteca Firestone. As cartas, que foram abertas em 1996, não foram publicadas, apesar de estudiosos as terem visto na Firestone. A maioria foi escrita durante suas férias em Long Island, e estão cheias de queixas sobre dores, segundo Calaprice.

Os poemas, vários deles incluídos no diário de Fantova, são alegres, cheios de trocadilhos ruins e piadas às custas do próprio Einstein. Um que lamentava a ausência de Fantova diz:

(Cansado do longo silêncio/Isto é para lhe mostrar claramente quão forte/Os pensamentos em você sempre estarão vívidos/No pequeno sótão de minha cabeça.)”
(Exhausted from a silence long / This is to show you clear how strong / The thoughts of you will always sit / Up in my brain's little attic. )

O estilo é completamente diferente do do texto que circula pela internet, que aparece sempre sem referência bibliográfica.

O texto “Os ventos que às vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar... Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre...” não foi escrito por Bob Marley como aparece em muitas páginas. O verdadeiro autor continua desconhecido. Igualmente ocorre com “Dificil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer”. Não há fontes comprobatórias de autoria da maioria dos textos que circulam com o nome do cantor jamaicano. O que não se entende é como belos arranjos como “A maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la” e “Às Vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!” possam ser atribuídos a outros ou circulem como apócrifos.

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins, poeta goiana conhecida pela versificação simples com temáticas cotidianas que abordam, sobretudo, os becos de sua terra. Não se sabe por que, se pela aproximação do estilo ou por ignorância, atribuíram-na o poema intitulado “Não sei”, que também tem sido postado com o título “Saber Viver”:

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

CHAPLIN

Charles Chaplin foi ator, diretor, dançariro, roteirista e músico. Sem dúvida um cineasta dos mais criativos da era do cinema mudo. Além de escrever, produzir e dirigir seus filmes, atuava neles e financiava-os. Tanto talento e tanta criação levaram alguns internautas a atribuir-lhe a autoria de diversos textos e fazê-los circular pela internet via e-mail, scraps, mensagens, blogs e sites (não oficiais, claro). Quem entrar na página PENSADOR.INFO (http://www.pensador.info/charles_chaplin_sobre_a_vida/) encontrará um acervo enorme, a começar pelo “Ciclo da vida”, que está no perfil de muita gente aparentemente informada no Orkut:

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Esse texto aparece com diferentes títulos: "O Ciclo da Vida ao Contrário" / "A vida segundo Chaplin" / "A Vida ao contrário" e é de autoria de Sean Morey. Mirian, do site Com outros olhos, após exaustiva pesquisa, chegou a essa conclusão. mais:http://comoutrosolhos.multiply.com/journal/item/52
Também o poema "A vida é uma peça de teatro", que circula, às vezes, com o título “Viva intensamente”, não é de Chaplin.

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios...
Por isso, cante, ria, dance, chore
e viva intensamente cada momento de sua vida...
Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos"

Textos que contém as palavras-chave: palhaço, teatro, sorrir (e seus derivados) são, quase sempre associados a Chaplin; dão a atribuição por conta própria, com base apenas nesse léxico, sem consultar as fontes. Tal é o caso de “Ei! Sorria”: “Ei! Sorria... Mas não se esconda atrás desse sorriso... / Mostre aquilo que você é, sem medo. / Existem pessoas que sonham com o seu sorriso, assim como eu. / Viva! Tente! A vida não passa de uma tentativa. / Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos” e “Preciso de alguém”: “Preciso de alguém que me olhe nos olhos quando falo. / Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência. / Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso” ambos de Cristiana Passinato.

Já “Quando me amei de verdade”: “Quando me amei de verdade, / compreendi que em qualquer circunstância, / eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato./ E então, pude relaxar. / Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima” tem a autoria de Kim e Alison McMillen.

A letra da música "Smile", lindamente traduzida por João de Barro (Braguinha), é de John Turner e Geoffrey Parsons; só a melodia é de Chaplin. Djavan gravou no seu CD "Malásia", de 1996 e no CD "Djavan Novelas, Temas de Novelas de Rede Globo": “Sorri / Quando a dor te torturar / E a saudade atormentar Os teus dias tristonhos, vazios” e os créditos estão assim colocados: Composição: Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha. A tradução que circula pela internete é: “Sorria, embora seu coração esteja doendo / Sorria, mesmo que ele esteja partido / Quando há nuvens no céu / Você sobreviverá...”



Outro texto bastante conhecido é “Cada pessoa que passa”, que também aparece com o título “Acaso”:
"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha,
é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.
Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só,
porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso."

Embora o texto seja bastante divulgado na Net, não há como comprovar de que filme livro/artigo foi retirado. Já o atribuíram também a Saint-Exupéry e a Mario Quintana, e há quem afirme que é de Khalil Gibran. De acordo com Mirian, pesquisadora de autorias, “uma vez perguntaram numa comunidade de Chaplin se esta citação era mesmo dele, como resposta, postaram o link de um blog com a citação atribuída a Chaplin. Ora, pesquisar autorias não é tão fácil assim, ainda mais quando há muitos sites atribuindo incorretamente, não se pode confiar na maioria /.../ Outro responde que tanto faz de quem seja, pois a citação é linda. Outro diz que deve ser dos dois, de Chaplin e Saint-Exupéry”. Embora o texto resuma um pouco da lição que o Pequeno Príncipe aprende quando chega ao 7° planeta visitado, ele não consta no livro. Só quem não leu pode afirmar isso.
Já o poema: “Vida” é, na verdade, de Augusto Branco (Pseudônimo) e consta no livro Viva apaixonadamente, cujo registro é 449.877 - Livro: 845 - Folha: 37 e está também postado em seu site A Grandeza
(Fonte: http://agrandeza.blogspot.com/2008/09/j-perdoei-erros-quase-imperdoveis.html, acesso: 26/10/09, data da publicação no blog: 18/09/08)
Leiamos uma estrofe do texto:

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.
/.../
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

De acordo com o verdadeiro autor, ele foi atribuído a Chaplin, pelo fato de ele ter usado uma suposta frase de Chaplin no final do texto: “a vida é muito pra ser insignificante”. Consultando o site oficial de Chaplin, em inglês e os livros a que se tem acesso - O Pensamento Vivo de Chaplin, Livro Clipping: Chaplin por ele mesmo e Chaplin: Vida e Pensamento, todos da editora Martin Claret, não foram encontrados nenhum dos textos até agora citados.

Mirian afirma que pensou, inicialmente, que "Vida" fosse uma adaptação do texto "Curriculum Vitae" (Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo...) também registrado na Biblioteca Nacional por Juliana Spadotto, por considerá-los muito parecidos. No site http://www.fantasiasdaalma.com.br/cantinho_amigos/experiencia.html, entretanto, consta que há uma versão do mesmo texto, com eu-lírico masculino, de autoria de Félix Coronel, publicada no livro "Como é que é?" (2003, p. 18, segundo o site "Fantasias da Alma", ou páginas 25-7, segundo o site de Rosangela Aliberti). A confusão é real: “Curriculum Vitae” é atribuído a Juliana Spadotto e a Félix Coronel; Félix Coronel publicou um livro contendo o texto, e Juliana Spadotto conseguiu os direitos autorais do texto em 2004. Mirian conclui: “O texto atribuído a Chaplin, mas que pertence a Augusto Branco, tem semelhanças com o texto de autor desconhecido que, por sua vez, tem semelhanças com o texto de Juliana Spadotto / Félix Coronel, tanto no estilo quanto nos objetivos, mas, por causa da liberdade que os internautas têm de fazer o que quiserem com os textos de qualquer pessoa e colocar em seus perfis, a internet se tornou um telefone sem fio e por causa de uma simples citação (que ninguém sabe se é de Chaplin, mas acreditam que seja dele só porque viram em milhares de sites na internet) o texto todo passou a ser atribuído a ele, fato confirmado pelo próprio Augusto”.

A falsa despedida de Gabriel Garcia Márquez.

“O monólogo da marionete” circulou na internet como “Poema de despedida de Gabriel García Márquez”, ou seja, uma despedida do escritor Gabriel García Márquez, quando se soube acometido de um câncer linfático. Leiamos uma parte do texto:

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de pano e me desse um pedaço de vida, talvez eu não dissesse tudo que penso, mas com certeza pensaria tudo que digo. / Daria valor às coisas não pelo que custam, mas pelo significam. / Dormiria pouco e sonharia mais, por que para cada minuto em que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. / Andaria quando os outros param, despertaria quando os outros dormem, ouviria quando os outros falam, e como aproveitaria um sorvete de chocolate...! /.../ São tantas as coisas que aprendi de vocês. Mas não terão muita serventia, porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente, estarei morrendo...”

Ele próprio negou a autoria e desdenhou da qualidade do texto, que começou a aparecer em sites de autoajuda desde julho de 1999, como “uma colaboração de García Márquez a um programa de menores maltratados”.
Em 29 de maio de 2000, o jornal peruano La Republica publicou “La Marioneta” como sendo “um poema de despedida que García Márquez enviou a seus amigos mais próximos, devido ao agravamento de sua doença. Em 30 de maio, todos os jornais do México reproduziam a notícia. O La Crónica dizia, em manchete: “Gabriel García Marques canta uma canção para a vida”.

Em 31 de maio, García Márquez declarou: “Lo que realmente me puede matar es la vergüenza de que alguién me crea capaz de haber escrito un texto tan cursi, tán malo”. Foi então que apareceu o verdadeiro autor, o ventríloco Johnny Welch, que se pronunciou ao jornal mexicano Reforma (http://www.reforma.com/cultura/articulo/011476/) em 1º de junho de 2000, magoado: “A mí me duele profundamente que el señor García Márquez diga que él no se atrevería a escribir una cosa tan cursi, pero respeto su opinión. Yo no soy un letrado o una persona que haya estudiado Filosofía y Letras, soy un ser humano con la necesidad de comunicar lo que siente y lo hago con el corazón”. Johnny Welch vive no México, onde publicou dois livros, Lo que Me ha Enseñado la Vida - obra em que consta o texto com o título “Si yo tuviera vida” - e Hilos de Vida

Betty Vidigal, em sua perquirição para compreender a falsa atribuição, descobriu que o Jornal La República declarou que o texto publicado havia sido enviado pelo escritor Abel Posse, embaixador da Argentina no Peru. Vidigal foi mais fundo: “soube-se que Abel Posse recebeu o texto por e-mail da escritora Elizabeth Burgos, radicada em Paris. Ela, por sua vez, recebeu-o de Rosario Sosa, a quem não conhece. O e-mail tinha partido da Bélgica. Rosário Sosa, ao receber o “poema”, enviado por Donato di Santo, da Itália, enviou-o a 17 pessoas, entre as quais estava o presidente do Chile, Ricardo Lagos”. Ou seja a distribuição via e-mail é que foi responsável pela ampla divulgação do texto, como ocorre na maioria dos casos semelhantes.
“Instantes” não é de Jorge Luís Borges nem de Nadine Stair
O poema “Instantes”, do qual transcrevemos a primeira e a última estrofe em língua portuguesa, não é de Jorge Luis Borges nem de Nadine Stair. Esse foi um dos casos de falsa autoria que mais envolveu investigações:

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. /.../
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo

No artigo de José Nêumanne Pinto, postado no Jornal de Poesia, http://www.secrel.com.br/jpoesia/autoria.html#instantes, ele diz que “o escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente responsável por sua divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e o publicado em português, em Porto Alegre.”

Na Folha de São Paulo, em 17 de dezembro de 1995, Scliar relata como conheceu o poema - na Argentina, em 1987, com o nome de Jorge Luís Borges. De volta ao Brasil, publicou-o no jornal Zero Hora: “A repercussão foi extraordinária ... imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos Aires, contestando a autoria de INSTANTES”; diz, finalmente, que o poema não foi escrito por Borges, mas por Nadine Stair, poeta norte-america.

Maria Kodama, viúva de Borges, ficou surpresa com a repercussão do texto nos meios de comunicação em geral e tratou de negar a autoria publicamente. O texto foi originariamente publicado em inglês, com o título de Daisies (margaridas). Mas o texto também não foi escrito por Nadine Stain. Vidigal continua: “Byron Crawford, colunista do Louisville Courier-Journal, descobriu uma sobrinha de Nadine Strain, segundo a qual sua tia não deixou outros escritos: a Música é que era sua paixão. Cega na velhice (como Borges), e vivendo em um asilo, Nadine pedia para ser levada ao piano todos os dias e tocava enquanto os outros faziam suas refeições”.

A mais antiga publicação de “Instantes” está na Revista Seleções do Reader's Digest, edição de outubro de 1953, e seu autor é Don Herold (1889-1966), escritor e humorista, autor de cerca de uma dúzia de livros. O texto se inicia com a frase “Of course, you can't unfry an egg, but there is no law against thinking about it.” (É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso). “Só então ele começa a desfiar as considerações sobre viver a vida outra vez, tirando-lhes, com essa introdução, o tom lamurioso”, diz Vidigal. A frase final (Pero ya ven, tengo 85 años... y sé que me estoy muriendo) não em nenhuma outra versão em inglês, só aparece nas de língua espanhola exatamente as que colocam Borges como autor. Mais uma ‘brincadeira’ do mundo virtual!

Martha Medeiros e Neruda – nada a ver

A cronista Martha Medeiros é uma das maiores vítimas de adulteração de textos. São dela: “A massacrante felicidade dos outros”, “A voz do silêncio”, “A Impontualidade do Amor”, “Amores mal resolvidos” – (o título correto é: “Até a Rapa”), “Eu te amo não diz tudo” ou “Saber Amar”, “Felicidade realista”, “O que faz bem à saúde / Previna-se”, “Os olhos da cara” – aparece também com o título “Juventude eterna”, com enxertos não se sabe de quem -, “Para que serve uma relação?”, “Promessas matrimoniais”, “Sacanagem” ou “O amor só acontece antes dos 30”, “Saudade” – (o título correto é: “A dor que dói mais”), “Sentir-se amado”, “Sermão do casamento” - (o título correto é: “Casamento na Igreja”). Nenhuma, entretanto, foi tão copiada quanto - "Morre lentamente", cujo título correto: "A morte devagar", que, em vários sites, blogs e PPS aparece em forma de versos, com o nome do poeta chileno Pablo Neruda:

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Também não são de Neruda os poemas “Dos e/ou Dois”, Dois.../ Apenas dois./ Dois seres.../ Dois objetos patéticos./ Cursos paralelos /Frente a frente.../ ...Sempre... / ...A se olharem.../ Pensar talvez: / “Paralelos que se encontram no infinito...” / No entanto sós por enquanto./ Eternamente dois apenas” – O texto é belo, mas não se sabe quem é o verdadeiro autor. Igualmente belo é “Ainda não estou preparado para perder-te”: que dizem ser de Gian Franco Pagliari, mas não há confirmação:

"Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado pra crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.
/.../
E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Por quê?
Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.
Ainda te Necessito."

“Saudade é a solidão acompanhada”: “Saudade é solidão acompanhada, / é quando o amor ainda não foi embora, / mas o amado já... / Saudade é amar um passado que ainda não passou, / é recusar um presente que nos machuca, / é não ver o futuro que nos convida” é, na verdade, uma fala do personagem-poeta Afonso Henriques, na novela Fera Ferida escrita por: Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, mas aparece em vários sites com o nome do poeta chileno.

Consultar

Byron Crawford tem uma coluna no http://www.courier-journal.com/cjextra/columns/crawford/crawford.html
Internet." (“Quem Colheria Mais Margaridas, Um Estudo de Plágio e Embromação na Internet” (http://www.benjaminrossen.com/index_frameset_daisies.htm)
[ Moacyr Scliar - VERSOS INFAMES: A FRAGILIDADE DA FALSIFICAÇÃO – Folha de São Paulo, 17/12/95, e http://www.geocities.com/Athens/Agora/3382/textos.htm#text1
JORNAL DA CIÊNCIA http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?i

POLICROMIAS – um collorarium de peças literárias




Foi com satisfação que recebi e aceitei o convite da poeta Giselda Medeiros, presidente de honra e diretora de publicação da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras – AJEB – para apresentar este 6º volume da Coletânea Policromias, uma edição comemorativa do 40º aniversário da Associação.
Não poderia haver nome mais adequado do que Policromias para traduzir a multiplicidade de textos que compõem o volume. São variadas nuanças, numa diversidade de gêneros e estilos, como a compor um quadro de tonalidades e matizes, não de cores, mas de palavras que analisam, perquirem, contam, recontam, bordam histórias, falam de glórias e tecem sentimentos, encantos e desencantos, segredos e esperas.

O cronista angolano Carmo Neto diz que criar é um exercício de liberdade. De fato, quando se juntam experiências diversas desse exercício, tem-se o texto como fruição, como projeto estético ou como apenas catarse. Pouco importam intenções ou rótulos, a necessidade de quem escreve é também a de quem lê.

Nesse mesmo raciocínio sobre a criação, Walter Benjamim, ao referir-se a textos narrativos, disse: “O narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história”. O filósofo parece ter proferido essas palavras pensando na crônica; ou, talvez, pensasse na epístola, gênero praticamente desaparecido, que, não despretenciosamente, abre essa miscelânea literária. Falo da Carta de Beatriz Alcântara, cuja emoção nos arrebata e faz seguirmos com a narradora o tempestuoso percurso para enterrar os ossos dos avôs. Com ela, enfrentamos a procela e respiramos gratificados quando a missão é cumprida e resta a trivial realidade de um computador deixado ligado na tomada. Heloísa Barros Leal também incursiona pelo mesmo gênero, como Haroldo Lyra, com outras proposições.

A crônica, o mais simples e sublime exercício de partilha de experiências e observações, possibilita rápidas viagens aos universos criados pelos dedos de Evan Bessa, Zenaide Marçal, Nirvanda Medeiros, Ione Arruda, Ilnah Soares, Germano Muniz, Margarida Alencar, Rosa Firmo, Stella Furtado, Zinah Alexandrino, João de Deus, Vicente Alencar e Rosa Virgínia Carneiro, muitas vezes se confundindo com prosa poética. Talvez seja essa a forma de composição mais praticada na atualidade, “porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível”, como afirma Ivan Lessa. Vou além: a crônica satisfaz nossa ânsia de comunicação com o outro, não requer recursos estéticos, não enseja belicosos trabalhos de linguagem, constrói-se na simplicidade da nossa própria visão de mundo e nos dá a oportunidade de ser pessoais, sem sermos piegas, de celebrar o instante que passa, sem deixá-lo ir completamente.

O conto é outro exercício ficcional praticado pelos ajebianos e, nesta coletânea, vem representado pela criação de Regina Barros Leal, Evan Bessa, Ednilo Soárez e Celina Côrte Pinheiro. O ensaio também ocupa espaço nestas páginas; poetas e contistas saem da sua condição de criadores do texto literário para analisá-los ou discorrerem sobre a realidade circundante. Ebe Braga Frota fala sobre a educação como fator de progresso social; Giselda discorre sobre a trova; Maria Luisa Bonfim escreve sobre os poemas de Pablo Neruda; Francisco Carvalho analisa a poesia de Neide Azevedo; Maria Amélia Barros Leal investiga o universo ficcional de Moreira Campos e Claudio Queiroz percorre a ficção de Dostoiévski. O discurso, gênero essencialmente oratório, tem registro com peças de autoria de José Augusto Bezerra, João de Deus, Maria do Carmo Fontenelle e Eduardo Fontes.

Já a poesia, a composição escrita que mais se comunica com a alma, domina as páginas da coletânea, em versos de muitos contistas, cronistas e ensaístas já citados, bem como na inspiração de Rejane Costa Barros, Nilze Costa e Silva, Argentina Andrade, Lúcia Helena Pereira, Ana Paula de Medeiros, Manoel César, Regine Limaverde, Tereza Porto, Bernadete Sampaio, Clara Leda, Mary Ann Leitão Karan, Salete Passos Urano, Sabrina Melo, Viviane Fernandes, Maria Helena Macedo, Pereira de Albuquerque, Vital Arruda, J. Udine, Moacir Gadelha, Sérgio Macedo, Sílvio dos Santos Filho e Waldir Rodrigues. A eles se agregam os Poemas vencedores do IV Concurso Literário Professora Edith Braga, realizado pela AJEB-CE, em 2009, especialmente os três primeiros lugares conquistados por Sabrina Melo, Arleni Portelada e Francisco Bento Leitão Filho. Todos sabem, como Valtaire, que “O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela”, ou seja, sabem da missão de descortinar o mundo que não se mostra a qualquer um, somente àqueles que trazem nos olhos a poesia que dorme nos seres e nas coisas.

Nesse corollarium de peças literárias, não há hierarquia nem juízo de valor. A moeda é a criação advinda da necessidade de confirmar a própria existência. Escrever sempre será um ato de liberdade e afinação com a vida; sempre será a projeção de um grito de dor ou prazer... ou apenas um grito que se quer ouvido. Parabéns à poeta Giselda pela organização da coletânea e a todos os participantes que, não tenho dúvida, entendem a vida pelo diálogo entre as palavras e os silêncios.
Obrigada!
Aíla Sampaio

Apresentação do livro Detalhes do Tempo, de Manoel César




Foi com muita alegria que aceitei o convite para apresentar o novo livro de poemas do Manoel César, porque entendo que só se convida alguém para ser madrinha de um filho quando há irmandade de sonhos. Ao sorver página a página a sua poesia, senti sua alma de pássaro, sua ânsia de voo que se concretiza nas palavras, pelas palavras, suas companheiras e confidentes, e entendi que só nos completamos no outro. Não há poesia sem leitor. Irmã de viagens oníricas pelo território das letras, me coloco agora diante desse Manoel e de todos vocês, como porta-voz dessa poética, para partilhar as impressões que me foram deixadas pela leitura de fiz. Não há sedas para serem rasgadas, tampouco rendas para adornar. Há o meu olhar atento vasculhando desvãos e entrelinhas.

DETALHES DO TEMPO é uma coletânea que agrega poemas de três livros anteriores do poeta – A poesia ainda existe, Sintagmas da solidão e Mágicas palavras – a peças inéditas. Embora sua última publicação tenha sido feita em 1988, ou seja, há 22 anos, não se pode dizer que sua poesia é sazonal. Vê-se um continuum em seus versos, a nos dizer que sua criação é perene, despreocupada com padrões ou rótulos, mas cheia de ilações filosóficas que traduzem sua inquietação diante do mundo em que vive. Sazonal é seu desejo de publicar, mas esse é apenas mais um detalhe do tempo, que ele faz questão de explorar.

Sua reverência a poetas como Mário Quintana, Álvares de Azevedo, Manuel Bandeira, Vinícius de Morais, Francisco Carvalho, Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Florbela Espanca, Cassiano Ricardo, Jáder de Carvalho, entre outros, atesta sua vivência com o lirismo e sua facilidade de engendrar artimanhas para atravessar textos com seus olhos sensíveis. Sobretudo na parte do “Canto aos amigos de fé”, ele saúda os poetas por meio de versos que incorporam o estilo de cada um, lançando mão do recurso da intertextualidade para revelá-los e sorver-lhe a liberdade criadora que inspira sua poética. Ao brincar de enconde-esconde com a vida, ele joga com as palavras e diz: “Minha casa tem tristeza / tristeza sem par / as aves aqui não cantam / mas a solidão / me dá lições de voar”, reverenciando Gonçalves Dias ao parodiar sua decantada Canção do exílio.

Sua poesia constrói-se essencialmente nos alicerces de duas fontes inspiradoras: o silêncio e a solidão. Não se pense, entretanto, que sob a pele das palavras que desnudam sua alma há amargura ou morbidez. A saudade que emana de sua solidão é um canto ao passado bem vivido, mas inexorável, é um diálogo com o tempo transcorrido, na tentativa de reviver a infância; ele passeia por cidades, ruas e praças redivivas em sua lembrança. Cantar a solidão é seu modo “desafogar o coração” para “suplantar a dor existencial de ser”. Em vez de algoz, ele a considera solidária do silêncio, tal como seu afeto e sua ternura. Estar só, para o poeta, é povoar-se de silêncio para encontrar, no seu íntimo, a poesia buscada no “instante / na emoção relâmpado”.
Ele brinca num exercício metalinguístico: Minha solidão / se reduz a dois versos livres... / e eu insisti tanto para que tu entendesses a poesia moderna (p.23). A reflexão metalinguística é uma constante, o que mostra sua consciência estética no processo criador que não se restringe à pura inspiração: No mundo restrito / da minha palavra / um poema é assassinado / pela ponta da minha / esfero / gráfica.

Ele pratica os versos curtos e livres, elaborando uma poesia sintética, mas prenhe de sentidos. Brinca com as palavras, retomando características da poesia concreta e da neoconcreta, como a mostrar que acompanha a travessia das experiências estéticas do poema, sem, entretanto, deixá-lo mudo às inquietações da existência, como a passagem inevitável do tempo, o medo da velhice, a morte e a violência. Nessa fusão de silêncio e solidão, vertentes incontestáveis de sua criação, ele canta todas as dores que lhe perpassam: “Em silêncio / as plantas crescem / na solidão das madrugadas / minha angústia aumenta mais / que suas raízes / que crescem sem saber / da violência deste (i)mundo” (p.117). Sua confiança no tempo revela-se sua aliada: “Vou ler e chorar / chorar e ler / o tempo vai passar / e vou voltar a viver”, e faz sua poética de solidão e angústia também uma poética de esperança, jamais de desilusão. Há no homem, um menino que não morre nunca, como se lê em seu “Poeminha de natal”: O tempo passa... / mas todo ano / ainda penso / Que Papai Noel / vem me visitar / presenteando-me / com um passeio / de volta à infância” (p.239).

Na parte VI da seleção de sua primeira obra – A poesia ainda existe -, a preocupação social se avulta em elocubrações como: “A história de João / não é feita de histórias / e sim de salário mínimo”, onde se entrevê um sopro de Ferreira Gullar com sua poesia neoconcreta. A denúncia contra a indiferença “ao caminhar das formiguinhas” e sua revolta diante das desigualdades denotam o compromisso do homem com a sociedade em que vive. O enterro de um catador de lixo, morto de dengue por descaso médico, a fome do homem do sertão, a miséria do mundo e a falta de paz são leitmotivs constantes de sua criação.

Já em “Íntimo da solidão do silêncio”, ele canta sua musa, o amor sensual, vivido: “Quando sinto / todo aquele mundo / encantador e misterioso / que escondes sob o vestido / sinto que a vida / vale a dor de ser vivida”. O amor, a mulher, os amigos, os poetas, o silêncio e a solidão parecem povoar seu imaginário e sedimentar seu processo criador, seu estar no mundo. A observação e a memória dialogam permanentemente em seu olhar atento para o ‘lá dentro’ das coisas.

Mas não nos esqueçamos de que toda poesia é cilada. Se revela e desvela o poeta, também engana. Leitor de Pessoa, Manoel sabe que o poeta é um fingidor, finge até as suas verdades: “Nunca pense / na razão direta / do que meu poema diz / estou sempre no avesso”. Desvendar a alma de um poeta não é simplesmente ler sua poesia, mas compreender a redescoberta da vida pela palavra. Assim, o poeta é esperança, a despeito dos revezes. Aprendeu a amar a vida “pelo silêncio e pela solidão que ela o concede”, fazendo suas as palavras de Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”. Eu vou mais longe, Manuel: Só quem conhece os detalhes do tempo pode reinventar a vida e reinventar-se. Sua poesia nos dá essa lição.

Aíla Sampaio – 09/06/2010