terça-feira, 30 de outubro de 2007

Natal na barca: maravilhoso ou fantástico?*

O conto Natal na Barca, inserto no livro Mistérios (1981) de Lygia Fagundes Telles, como o próprio título prenuncia, traz o relato de um Natal diferente. Numa barca, cursando um rio não denominado, a narradora, um velho bêbado e uma mulher com uma criança seguem o rumo de uma cidade não identificada, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão (p.103). Sabiam apenas que estavam vivos e que era Natal.

As personagens, cúmplices na solidão, carregam os seus destinos e, apesar da situação inusitada para a data, mostram-se imbuídas do espírito natalino: o velho, na sua inconsciência ébria, dirigia palavras amenas a um vizinho invisível (p.103). A narradora, mesmo se sentindo bem naquela solidão, ao ver iniciado o diálogo com a mulher desconhecida, cede ao “sistema de vasos comunicantes” (p.105) e chega a confessar: Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los (p.105). A mulher, ninando constantemente o filho que trazia ao colo, ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante (p.106). A narradora chega a se questionar: seria apatia? Inconsciência? Depois ouve a sua declaração de fé incondicional em Deus e decifra o segredo da sua segurança e tranqüilidade.

O discurso não refere nenhum intuito de comemoração, mas, como se observa, as personagens se tornam humanas, como se de dentro delas emergissem sentimentos benéficos e gratuitos: as palavras do bêbado são amenas, a frieza inicial da narradora se enleia em teias de amizade e compaixão e a mulher, apesar das mazelas de seu destino, mantém os olhos brilhantes, vivos, as mãos enérgicas e vigorosas, a voz quente de paixão, transparecendo resignação e serenidade. Somente ela, ainda que sutilmente, lamenta passar o Natal na barca: Já tomei essa barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje... (p.104).

A ambigüidade, comum aos contos que compõem o volume Mistérios, se perfigura em Natal na barca para instaurar um clima enigmático. Após ouvir o relato em que a mulher diz ter visto, em sonho, o primeiro filho morto brincando no Paraíso com o Menino Jesus, a narradora, desconcertada, descobre o rosto da criança doente e constata que ela está morta. Dominada por um intenso temor, e tocada pela triste história daquelas vidas, ela sente necessidade de fugir para não presenciar o sofrimento da mãe ao fazer a trágica descoberta. Tenta despedir-se atropeladamente na chegada, quando a mulher, alheia ao seu drama, declara: Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre (p.107). A narradora se surpreende e, perplexa, se certifica de que a criança está realmente viva.

Esse desfecho nos faz entrever duas possibilidades de interpretação: a narradora poderia ter-se enganado na sua constatação, impressionada com a história que ouviu, ou testemunhou uma inexplicável ressurreição. A primeira possibilidade colocada remeteria o texto para o gênero Estranho. O discurso, no entanto, não explicita a revelação do equívoco, não arrola razões para a propensão a um engano. Pelo contrário, a narradora, na sua débil fé, esboça tacitamente o seu espanto diante do acontecimento: A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar (p.107).

Assim, evidenciam-se parâmetros para o efeito fantástico: a perplexidade do sujeito da enunciação e a inexplicabilidade do fenômeno da ressurreição por via de um provável engano.

Considerando o universo de esmerada fé, que auréola a pobre mãe, pode-se condicionar o fenômeno a um milagre, pois, como referiu quase desdenhosamente a narradora, “a fé remove montanhas”. O Deus que nunca abandonou nem abandonaria a mulher, poderia tê-la presenteado, naquela noite de Natal, com a devolução da vida do seu segundo filho (que ela sequer desconfiou acalentá-lo morto por alguns instantes); também para tocar o ceticismo da expectadora, que se inquietou com o fato.

A atmosfera natalina se constrói nas sugestões da narrativa, oferecendo índices pra a dignificação de uma dádiva. A figura dessa mãe com o filho nos braços é descrita como uma alusão sutil à imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus. Confiramos: A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga (p.103). A sua resignação e cordialidade tornam-na um ser quase etéreo. Vejamos, ainda, o último registro da sua presença, logo após os votos de “bom Natal” para a companheira de viagem: Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite (p.108).

O fenômeno da ressurreição, como se sabe, foge às leis da razão, mas, no contexto, talvez se encontre suscetível a uma explicação através da suposição de uma probabilidade irracional e meta-empírica: o milagre. Assim considerando, nos sentimos impelidos a remeter o conto ao Realismo Maravilhoso, um gênero que problematiza os códigos sócio-cognitivos do leitor, sem instalar o paradoxo, por meio de referências freqüentes à religiosidade, enquanto modalidade cultural capaz de responder à sua aspiração de verdade supra-racional, como assinala Irlemar Chiampi, na obra O Realismo maravilhoso (1980 p. 63).

Mas, se descartarmos a sugestão do milagre (já que a fé é dogmática, abstrata), encontramo-nos ante uma narrativa que possui requisitos pretensamente fantásticos: a permanência da ambigüidade e da incerteza (a criança estava morta, ou simplesmente dormia?); a não identificação dos personagens e a noção de espaço híbrido e mágico dada ao rio (ele é quente e verde durante o dia e gelado à noite); a falta de explicação racional para a possível ressurreição; a ausência de dados que confirmem o equívoco da narradora quanto à morte da criança e à sua perplexidade explícita diante da ocorrência.

As duas possibilidades de leitura tendem a requerer uma resolução: trata-se do Realismo Maravilhoso ou do Fantástico? A complexidade do texto e a exigüidade do tempo e do espaço pertinentes a este trabalho nos incita a não arrematar a questão e a estender essa indefinição ao leitor interessado, para que ele formule a sua própria conclusão.



BIBLIOGRAFIA



CHIAMPI, Irlemar (1980). O realismo maravilhoso. São Paulo: Perspectiva. 184 p. FURTADO, Filipe (1980). A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte. 152 p. TELLES, Lygia Fagundes (1981). Mistérios. 6ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 224 p. TODOROV, Tzvetan (1975). Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva. 191 p.





*Texto publicado no caderno Idéias, Jornal Tribuna do Ceará, 24 de dezembro de 1995

Um comentário:

Eu Mesmo disse...

Maravilhoso ou Fantástico?
Nem um dos dois ¬¬