sábado, 23 de abril de 2011

A poesia e seus percursos

A poesia, desde a antiguidade, percorre caminhos e veredas na reconfiguração do mundo, na transfiguração da realidade, em experiência estética. Neste ensaio, faz-se uma reflexão sobre esses percursos e fala-se sobre as últimas publicações de cinco escritores cearenses no gênero.


A poesia e seus percursos

Poesia é uma forma de expressão literária que surgiu na antiguidade simultaneamente com a Música, a Dança e o Teatro. A partir de então, muitas foram as tentativas de defini-la, entendê-la, escrevê-la. Para Platão, a poesia, como a arte em geral, era uma ameaça epistemológica e ética à sociedade, pois ele via o artista como um fabricante de fantasias que desviavam as pessoas das verdadeiras ideias (a arte era mimese, pura e simples imitação do real).

Além disso, a arte estimulava as paixões, os afetos e as emoções, que, descontroladas, podiam, conduzir à guerra e à catástrofe. Por conta desse risco, a arte só poderia ser praticada por crianças, loucos, mulheres e escravos, que não exerciam influência. A boa convivência em sociedade dependia de certa a-phatia (ausência de emoções), por isso, em A República, ele diz que os artistas devem ser expulsos da cidade para que ela seja justa e feliz. A arte era falseamento e, assim sendo, não poderia influenciar os cidadãos comprometidos com a verdade.

Já Aristóteles (384 a.C.), seu discípulo, no livro Poética, procurou mostrar que a arte é verdadeira, sim. Ele reinterpreta a mimese ao afirmar que a arte não é só reprodução, mas reinvenção do real. Afirma que a poesia (universal) é mais séria e filosófica do que a história (particular) e vê nela (como nas outras artes) a função catártica; atribui a ela um efeito purificador, benéfico. A harmonia da cidade não estava na a-phatia, mas na boa medida entre razão e afetividade. Além de um meio para transmissão do saber, a arte passou a ser vista como edificante e pedagógica.
Foi no séc. V a.C., que apareceu a designação do poeta como poietés. Até então, Homero e seus companheiros eram designados como cantadores, aedos (aoidoí), isto é, aqueles que cantam os altos feitos dos homens e dos deuses.

No decorrer do tempo, as experiências estéticas com a poesia foram muitas. No Trovadorismo, entre os séculos XII e XIV, a poesia era ligada à música e recebia a denominação de Cantiga (Cantiga de amor, a que tinha como eu-lírico o homem; Cantiga de amigo, a que tinha como eu-lírico a mulher; mais as Cantigas de escárnio e maldizer). No Humanismo, além de ressuscitarem-se as canções de gesta francesas para inspiração das novelas de cavalaria, praticou-se a poesia palaciana, feita para ser recitada nas festas, uma poesia de louvor. O Classicismo, no séc. XV, trouxe a magnitude de Camões com sua epopeia Os Lusíadas e os sonetos de amor moldados na fôrma clássica.

Até aí não se fala na poesia brasileira, porque nossa terra foi oficialmente encontrada apenas no século XVI. Foi no período da colonização que a poesia chegou ao Brasil, com finalidade pedagógica e de catequização. No Barroco, ela foi a expansão da verve ácida de Gregório de Matos, que se vingava de quem o atingia por meio dos seus versos. No Arcadismo, ela cantou a vida simples e, no Romantismo, idealizou a mulher e o amor, despida de compromissos estéticos, tão-somente comprometida com a inspiração do poeta para cantar o amor ou clamar pela libertação dos escravos.

Os parnasianos contestaram o uso da poesia para qualquer finalidade e passaram a cultuar apenas a forma; a arte não deveria ter função, deveria existir puramente, sem contaminar-se com os apelos da subjetividade humana. A ‘arte pela arte’ era o princípio da criação artística. Muitos simbolistas reagiram a essas ‘algemas’, no final do século XIX, e buscaram novas soluções formais, sobretudo na França, mas, no Brasil, tal experiência não ultrapassou o alcance de uma linguagem fluida, vaga, em busca de evasão pela espiritualidade.

No século XX, a poesia perdeu toda essa pompa… o verso livre dos modernistas e a inserção do cotidiano como tema poético abriram espaço para que o poeta se movimentasse em liberdade entre as palavras. E foram muitas as experiências com essa liberdade: os concretistas aboliram o verso, o poema-processo mostrou a desnecessidade da palavra, o neoconcretismo cobrou engajamento nas questões sociais, o Tropicalismo reacendeu o diálogo entre a poesia e a música, os poetas marginais expressaram sua irreverência,… e hoje? O que restou disso tudo? Que função a poesia tem?

A poesia permanece como uma forma de criar outro mundo “mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado – por cima da realidade imediata”, com diz Gullar. Ela é a possibilidade de expressar, através da palavra, esse mundo objetivo que nos cerca ou o mundo de subjetividades que nos enreda. É como a luz que falta para que enxerguemos. Quem faz poesia tem a capacidade de transfigurar o real, recriá-lo… Quem lê poesia fica mais leve para aguentar o peso da existência. Isso, porque ela é, naturalmente, algo que se diferencia do ordinário, do comum, do mediano. Ela reconfigura as mentes ao lançar sobre elas novos olhares, ao mostrar o que não se vê a ‘olho nu’, ao fixar sentimentos e pessoas que o tempo carrega.
Como fala Cohen, a poesia força a alma a sentir aquilo que geralmente ela se limita a pensar. Se lembrarmos de ‘O cão sem plumas’, de João Cabral, veremos como ele, por meio dessa metáfora, chama o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem:Como o rio / aqueles homens / são como cães sem plumas / (um cão sem plumas / é mais / que um cão saqueado; / é mais / que um cão assassinado. / Na paisagem do rio / difícil é saber / onde começa o rio; / onde a lama / começa do rio; / onde a terra / começa da lama; / onde o homem, / onde a pele / começa da lama; / onde começa o homem / naquele homem.

São esses olhares que nos dão conta de que o poeta tem o poder da reconfiguração. Eles veem o que subjaz, o que não emerge à flor dos olhos da maioria.
Distinta de sua teorização literária, a poesia pode ser apenas um alimento para a alma. Ela não precisa ser entendida em sua forma, dispensa conhecimentos prévios de métrica ou rima, de melodia ou de escansões. Ela precisa essencialmente ser sentida. É essa possibilidade de criação do que não existe, e da recriação do que existe mas falta, que faz do poeta um ser especial, como nos mostra Murilo Mendes, ao dizer que na poesia “Tenho constelações para me servirem / E gaivotas que levam minhas cartas / Mais depressa do que aviões / Nascem musas de minuto em minuto / Escovam o outro mundo para mim.

Não importa que os chamem de lunáticos, que os acusem de sonhadores… os poetas têm um universo muito particular. Realmente, nessa sociedade neoliberal e individualista em que se vive, os que amam e se dedicam à poesia têm que construir um universo à parte e preservar o sonho libertário da construção de um espaço anárquico… São os anjos gauches de Drummond. De que outro modo podemos não perder a delicadeza? Esse espaço anárquico de que falo está dentro de nós e é o que nos capacita à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a poesia esse antídoto. Sem ela, onde celebraremos nossos amores? Eles perecerão ou quedarão entristecidos como um violão com a corda quebrada, abandonado por quem quis, mas não aprendeu a tocar. Sem a poesia, o que faremos com a nossa saudade e com a nossa esperança de dias melhores? Com os nossos amores que não deram certo? Onde colocaremos nossas lágrimas e nossos risos? Poetas são, sim, lunáticos… bendita seja essa nave que os conduz a esse mundo onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces. Quem não se rende à poesia, quem não se deixa seduzir pelos seus olhares, sentirá o mundo e até a si mesmo dentro dos secos limites das objetividades. Não se comoverá diante de um pôr do sol e só enxergará pedra nas pedras, nunca será capaz de transformar lágrimas em oceanos ou dores em saudades gostosas de sentir. É Cecília Meireles quem diz: “a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”… e sem a poesia, fica difícil reinventar o que quer que seja.

Cinco poetas cearenses, muitos caminhos

Nessa perquirição dos poetas de hoje, caíram-me as mãos, num só mês, quatro livros de poemas, todos de escritores cearenses; quatro deles publicados em 2010: No limiar dos invernos, de Linhares Filho, 70 poemas para orvalhar o outono, de Barros Pinho, Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema , do Poeta de Meia-Tigela e um já editado em 2011: O livro de Marta, de Rodrigo Marques. São cinco poetas, cinco caminhos, estilos distintos que se cruzam no gênero, na sensibilidade e no senso estético.

No limiar dos invernos

O livro No limiar dos invernos, de Linhares Filho, é um canto à maturidade: “Saber maduro alerta-me profundo / sobre a velocidade da descida. / Busco incessantemente, só o jucundo / e sofro por qualquer coisa perdida ( “No limiar dos invernos”, p.108). O próprio título sugere um marco, o momento de transição, quando o poeta se assume homem maduro, senhor de suas emoções, e poeta afinado com seu instrumento: a palavra e sua expressividade.

No poema que abre o livro, “Legenda”, ele fala sobre os frutos colhidos na madureza e interroga sobre o inverno que o espera, metaforizando os anos vividos e declarando-se atento ao galope do tempo:

Frutos colhi de minha noite em trégua,
Produtos viscerais da madureza.
Irei também no inverno, a cada légua,
Colhê-los de alma pronta e sempre acesa?
Pautada a rota por divina régua,
Espero ver tais frutos sobre a mesa,
Depois que, ao dorso de um cavalo ou égua,
Minha alma galopar, a crinas presa. (p.33)

Do ponto de vista formal, o mestre transita entre o verso livre e o metrificado com a mesma naturalidade com que celebra o silêncio e os ventos. Para ele, a poesia é “Fruto da necessidade do belo e do sublime...a eterna busca do ser”. Os exercícios metapoéticos atestam sua consciência estética na criação literária, bem como a preocupação ontológica que perpassa também outras obras suas. Ser poeta, pra ele, é mais que ser homem: “Perquire muito além do que vês e do que ouves. / Flores não tocarás, sem ter pena, por couves. / Sonha, em vigília, bem mais do que quando dormes”. (“Contribuição à busca do poético” p. 38).

Nilto Maciel, em artigo sobre o novo livro do poeta de Lavras, fala dos múltiplos recursos formais utilizados: “do soneto ao verso livre e a poemas de variados feitios, em versos decassilábicos ou de cinco, seis, sete e oito sílabas. O apego à vestimenta da tradição o livrou da aventura pela chamada poesia de vanguarda, pelo antiverso, pelo poema visual e outras modalidades de efêmera duração. Isto é, consciente e conhecedor do fenômeno estético, tem pleno domínio da técnica do verso. Sem se apegar, com fanatismo, à métrica e à rima, faz uso também do verso branco, como em “Das coisas”. Quanto à rima, ele a pratica muito bem, em todas as suas modalidades ou tipos: consoante, aguda, esdrúxula, grave etc.”, o que mostra seus conhecimentos bem depurados quanto à teoria do verso.

O homem maduro não faz só um exercício estético de amor à poesia, celebra a fé, os amigos, a vida e a mulher amada. Constrói sua poética por meio de odes, propostas, convites, hino, homenagens, reflexões, cantos e orações. A religiosidade que parece mover sua vida desenha-se em preces e confissões de fé e atos de humildade diante do Senhor, a quem clama a virtude e o poético: “Dai-me a realização, Senhor, do santo anseio, não me tireis, porém, o espírito poético”. p. 37. Vertentes de sua existência, Deus e a poesia são seus escudos e seus broquéis. Só pela palavra, o poeta resgata o passado, frui o presente e vislumbra o futuro (p.35), integrando-se ao tempo e transcendendo-o.

Senhor de sua pena, Linhares não priva seu grito pelo planeta: “De Kioto a Copenhague / vive a clamar a mãe Geia / contra uivos de alcateia: / que o efeito estufa se apague”, p. 101), pelo Haiti: “Convoque-se o ímpeto cordial e amigo / do globo em torno de uma só ideia: recriar o Haiti e seu valor humano”, p. 102. Com a mesma leveza com que contempla o sono da amada, (“Dorme e observo o seu ressono. / Em seu mundo inconsciente / vai passeando tranquila e na penumbra / por alamedas ensombradas / ou entre os pomares e jardins do outono? p. 93), canta a irreverência do vento e a voz das aves.

Conhecimentos mitológicos e bíblicos subsidiam sua criação e mostram um poeta consciente do seu estar no mundo em todas as suas faces: a do homem, do professor, do cidadão, do avô amoroso, do amigo e do amante apaixonado. Nessa diversidade, celebra poetas e amigos; louva a língua pátria e até a matemática, que registra a multiplicidade do universo (p.60); canta cidades que marcaram seus percursos: Rio de Janeiro, Argentina, São Paulo e Brasília e, como num balanço de seu universo multifacetado, fecha o livro com dois sonetos que elucidam o título da obra. O primeiro deles marca a consciência da maturidade e o desejo de manter o equilíbrio até o fim da jornada; no segundo, como quem se despede, diz vencer a dor inevitável pelo amor, sua última glória.

É o fim do outono em mim. Chega-me o inverno.
Com as chuvas iniciais virá o frio.
Mas não quero sentir, no mundo interno,
Desolação, desânimo e vazio.

Sem inapetência ter, não me consterno
E à minha cara infância ainda sorrio.
Se para a flor e o ninho ainda suou terno,
Aflige-me o correr do tempo em rio.

Em apreensões o ser quase naufraga,
Tentando equilibrar-se sobre a vaga,
Para atingir triunfante o último porto.

Mas, como antes do inverno, que se instala,
Nada farei sem te escutar a fala,
Querida, ou sem o bem do teu conforto.

(“No limiar do inverno”, p. 107)


70 poemas para orvalhar o outono

O livro comemorativo dos 70 anos do poeta Barros Pinho traz 70 poemas selecionados de oito livros de sua autoria, e uma fortuna crítica respeitável acerca de sua produção literária: Linhares Filho e Ubiratan Aguiar apresentam a obra na qual estão, também, inseridos artigos assinados por Pedro Paulo Montenegro, Antonio Carlos Vilaça, José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Adriano Espínola, F. S. Nascimento, Pedro Lyra, Sânzio de Azevedo, Caio Porfírio Carneiro, Artur Eduardo Benevides, Antonio Girão Barroso, entre outros críticos que se debruçaram sobre a sua criação.

A beleza do volume se coaduna com a preciosa seleção de poemas, representativos, pois, de toda a sua poética, que tem como linhas condutoras duas figuras essenciais: o menino e o rio. Ainda que ele diga “setenta anos / muito tempo / para ser menino / não se agita mais / a água da infância / a vida só o papel / timbrado na sombra / onde se escreve o ontem / em páginas brancas / na face da espera” (p. 29), faz rediviva sua infância a cada verso, renascendo ‘no papel’, entre linhas e entrelinhas, pois que, homem feito de linguagem, não sabe ser senão reinventando-se pela palavra.

O menino perdido no tempo cronológico aparece cada vez mais vivo no tempo da memória:

a infância corre
na correnteza do rio

o sonho não sabe
o rumo dessas águas
seria o mar
ou o mar seria apenas
uma solução geográfica

sabe-se
que só nós meninos
o rio se encanta
até voar como pássaro

nasce em mim o desejo de escrever

o rio inteiro a correr
sobre o papel da palavra
sintaxe de sol
antes dos olhos
se abastecerem de fadiga
(p.52).

A travessia do rio é a travessia da vida que se rende a soluções geográficas apenas, racionais, desprovida de sonhos. Na alma do poeta, entretanto, ‘se pode voar como pássaro’, na possibilidade de vencer a correnteza do tempo e recuperá-la, ainda que encantatoriamente, na poesia.

Esse rio que atravessa a escritura do poeta é um rio atávico, cuja localização espacial – a Parnaíba – funciona como eixo, tronco de sua árvore genealógica. O homem que por razões diversas deixa sua terra de origem vive em duplo exílio: o físico e o psicológico, pois que, longe de sua taba, não encontra seu verdadeiro rosto senão no olhar para trás e no permanente saudosismo que o afaga:

meu avô morreu
na chapada da distância

procurando a lua de olhos
vivos no rio o rio mais
longe de sua vontade

as mãos sem carne
os pés sem perfume
a rastejar fantasmas

na superfície das pedras
o engenho abrigo do tempo
moendo moendo seus ossos
(p.64).

As reminiscências, cavadas pela saudade, pelo acúmulo e pela intensidade, tornaram-se mais constantes na estação do outono, com que o poeta metaforiza sua entrada nas 70 décadas de existência, mas a saudade ancestral (que o acomete) está nele desde sempre:

guardo há muito tempo
na gaveta da vida
uma solidão disfarçada
um triste acanhado
pelos cantos dos olhos no calendário
(p.83).

Sua poética presentifica ausências. No outono, a palavra desgoverna-se para romper os silêncios e orvalhar-se em confissão: há saudade, há solidão, há ‘vontade de dizer / o que não se diz pela metade’ (p.83). E o poeta diz dos seus naufrágios, das celebrações, diz, sobretudo, do seu cansaço de tantas ausências:

carrego madrugada
no canto dos olhos

nos meus ombros
depositaram noites
que não querem ser dia

nos cabelos guardo
a ilusão ou o sonho
dos que sonharam

nas mãos trago
pedaços de sol
só para distribuir

n’alma a ausência
cansada de bater
nos dique da vida
(p.127).

Mas não é de tristeza a poesia de Barros Pinho. Tampouco é meramente confessional. Não há lágrimas, mas celebração: “recordo / a adolescência / nas árvores / de minha cidade” (p. 160). Sua saudade da terra é a saudade de todo exilado (não apenas de corpo, mas de coração) e as dores de que ele fala são dores sem nacionalidade definida.

O rio foi o começo de tudo, foi o espasmo ante o icognoscível. Depois veio o amor com suas estradas impossíveis de não percorrer: “o rio encheu os olhos / do menino / só de espanto // a menina / encheu-lhe a vida / de paralelas” (p.130). Assim o menino se fez homem, sendo universal ao cantar sua aldeia (Tolstói) ou, qual Caeiro/Pessoa, cantando seu rio: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Tal qual diz o poeta em seu outono: “não conhecia / o mar / o rio de minha / cidade era meu oceano” (p.153).

Hoje, depois de tanta estrada e poesia, depois de tantas travessias de rios e mares, continua menino o homem que reconfigura o Natal; continua menino o poeta que orvalha seu outono com poesia...com certeza, continua a procurar São Jorge nas luas de suas e de tantas outras terras. Seus sonhos não se evaporaram, tampouco as folhas caídas que ele cata e recupera a cada verso que escreve.

Leiamos o poema que abre o livro:

setenta anos
muito tempo
para ser menino
não se agita mais
a água da infância
a vida só o papel
timbrado na sombra
onde se escreve o ontem
em páginas brancas
na face da espera
as mãos postas ao vento
na colheita do milho
em outras safras
no rosto as linhas
em réguas de rugas
no compasso rítmico
da marca desenhada
nos olhos a pele da fadiga
fragmentos de vida
na alga das palavras
/.../
A poesia harpa da manhã
Acende o orvalho a orvalhar
O lírio do pássaro
No lírico segredo do outono

(“Orvalho para orvalhar o outono”, p. 29-30)


A poesia em Concerto

O poeta Alves Aquino, encarnado no personagem Meia-Tigela, lançou, em 2010, o livro Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema, cujo subtítulo, “Combinação de realidades puramente imaginadas” traduz o movimento dialético que compõe sua criação, conjugando tradição e modernidade, realidade e imaginação. É, como a Bíblia, dividido em livros, mais precisamente, em 4, cada um com 4 subdivisões. Os números assumem importâncias e simbologias que, certamente, se explicarão ao final do seu projeto.

O nome do autor abre espaço para que o leitor se perceba num território estranho, mas a alcunha que se supõe pejorativa vai, aos poucos, ganhando outras significações. Está-se diante de algo diferente, não há dúvida quando se começa a folhear o volume. A respeito da previsível interpretação de poeta de meia-tigela como um poeta de pouco valor, ou de produção insuficiente, os editores da Revista Mamífero, oportunamente esclareceram “[...] o pseudônimo 'Poeta de Meia-Tigela' não é uma autodeterioração ou subvalorização do que [ele]escreve. Sua origem tem 'um cunho social' com o qual se identifica, visto que o termo representa 'a metade da ração oferecida ao serviçal, enquanto seu senhor ganhava a tigela inteira'. Outra razão do pseudônimo é criar um personagem que seja o próprio autor e personagem de si mesmo, como o João Grilo ou Cancão de Fogo. Enfim, o uso do epíteto não é um distintivo de humildade; ao contrário, traz o Poeta um projeto ambicioso de encarnar um múltiplo personagem, criando uma bandeira dupla, uma apresentação automática para a sua obra, expressando algo inusitado. Para ele, essa é a origem que interessa, já que implica numa adesão ideológica e emocional". ("Um Poeta de Meia-Tigela", Revista Para Mamíferos N. 01, Fortaleza, 2009 - editores: Glauco Sobreira, Jesus Irajacy, Nerilson Moreira, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Tércia Montenegro).

Lembrei-me outra vez de Fernando Pessoa que, no poema “Tabacaria”, diz: “Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara”. Personagem e pessoa se fundem, amalgamados numa poética movimentada, a que ele mesmo chama de Concerto. A obra em apreço - Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema - é parte de uma composição quartenária. Quatro movimentos, pois, comporão a totalidade do projeto de composição do Concerto e a cada um deles é, previamente, “atribuído um elemento, bem como uma função psíquica, no intuito de estabelecer – dentro da totalidade, uma personalização e individuação dos seus momentos constitutivos”, como explica o próprio autor no final do livro.

Contemplamos, no volume citado, o 1º Movimento - Quarto Minguante (1/4), cujo elemento é terra, e cuja função psíquica é o pensamento. As outras 3 virão, posteriormente, quem sabe em formato idêntico, para compor o Concerto completo: 2º movimento, fogo e sensação; 3° movimento, ar e sentimento; 4º movimento, água e intuição.

Essa ordenação, esses liames tão arquitetados, demonstra um trabalho consciente, mais que isso, uma proposta de Obra Ampla. A miscelânea de formas, em versos livres ou metrificados, o que varia de acordo com o conteúdo, obriga o leitor a ativar-se e a interagir com os textos. A ordem é estabelecida, mas logo se foge dela. Assim, em ritmo sempre inusitado, os textos se sucedem, revisitando o clássico e as mais variadas vanguardas, sem, entretanto, moldar-se a qualquer delas. Do Concretismo, se absorve a palavra-coisa, o aproveitamento do branco da página; da poesia-práxis, o movimento, a ação imposta à palavra; do poema-processo, a desnecessidade da palavra, o poema-imagem... mas é inútil ao leitor a criação de expectativa em relação ao que virá depois.

A pluralidade de estilos conjuga-se ao diálogo perene entre as artes, de modo que a música que compõe todo o concerto está em consonância com as imagens, os poemas e a teatralização. O poeta narra, disserta, compõe versos, fazendo dialogarem Homero, Dante, Goethe, John Mílton, Dostoiévski, ora com sinceridade, ora com ironia, brincando com as palavras ou levando-as bem a sério, articulando um estilo pessoal, embora bebido de muitas fontes.

Concerto não é, pois, uma viagem, um lance intuitivo, mera aventura com a palavra e suas possibilidades. É um projeto de composição ambicioso, com trabalho de linguagem e articulação entre o clássico e o popular; a brincadeira e a verdade. Palavras e cálculos matemáticos, lirismo e antilirismo, construção e desconstrução fazem a caleidoscópica poética de Meia-Tigela, sem dúvida, sangue novo para tirar da inércia a fina veia da poesia brasileira contemporânea.

Dois poemas do Concerto:

Sim! Déspota deposto, adeus ao trono,
Adeus ao cetro, adeus poder benquisto!
Fui Outro e a contragosto virei isto,
Este, só, sem padrinho, sem patrono.

Pior: eu e Abadon neste abandono.
Ao redor o reinado carcomido
De antigo rei, também ele podrido.
Ato nenhum de amor em seu abono.

Nada tem quem de tudo já foi dono.
Se não cai, encanece meu cabelo.
No velho espelho — um velho — e horror é vê-lo.
Que de melhor me ocorre é sentir sono.

Parabéns para mim: completo um cron. O
próprio Tempo, ao ver-me, se estarrece:
“Que me ultrapassa em séculos, quem esse?”.
Nada-perene, sou não ser. Outono.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 1º Movimento, Livro 1, Seção 1)

Que dizer há muito,
Mas dizer sem boca.
A garganta é rouca
Para tal assunto.

Assunto, coitado,
Que fica onde está.
Nenhum verso dá
Conta do recado.

Recado sisudo
Que morre na toca.
A palavra é pouca,
Não toca o profundo.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 4º Movimento, Livro 1, Seção A)

O livro de Marta e seus bilhetes de amor

Quem é Marta? A mulher de maiô, ou a cinéfila que nunca perde uma sessão das 18:30, uma musa delirante ou apenas um pretexto para escrever alguns bilhetes. Sim, Marta não tem carne, é palavra, grito, vocativo.

Rodrigo Marques escreveu o Livro de Marta, subintitulou-o de Bilhetes de amor quebrado, e deixou o leitor na expectativa de algumas páginas confessionais. Mas não. Marta é um pretexto pra falar de tédio e de amor; de um trote ou de uma blitz; de uma sessão de cinema ou de uma ida à papelaria; são poemas de desejo, de semáforos, piercing e shoppings. O rigor formal existe, é, aliás, bem evidente, e é igual para tratar dos assuntos.

Entre versos livres e sonetos, o poeta constrói um estilo próprio, sem intenções de vangauardear, mas tão somente tirar a poesia do marasmo. Nada de mais; nada de menos. Ruy Vasconcelos fala de um traço arcaizante na obra. Sim, o poeta prefere bilhetes a e-mails e exercita o soneto. Visita Camões num intertexto surpreendente; lembra Mar portuguez, de Fernando Pessoa, em seu “Mar rústico”; provoca Marta, sonegando-lhes os versos que Pablo Neruda fez a Matilhe Urutia, sua amada: “Não és Matilde / Não és o mar / Nenhum dos cem sonetos de amor fez-se para ti / sequer uma barcarrola pousou no céu... ((p.23). Cita Dante Milano e Ribeiro Couto, mas não parece beber nas fontes deles.

Nenhuma tentativa de inovar, mas transfigurando naturalmente a linguagem; sem ironia com as formas fixas, também sem apologia a elas, Rodrigo tem a consciência exata de suas pretensões: “meu mar é muito pouco / para quem sabe nadar / no entanto é meu; comprei-o na loja ao lado da tabacaria, / completo: / sem cais e por rimar. (p.22). Não é poeta por acaso ou circunstância. É poeta de construção e consciência. Leiamos dois dos seus 'bilhetes':

À contra-mão de mim,
O ônibus passa,

E se atrás,
Viaja o corpo de Marta,

E se ainda, nesse corpo,
Viaja encarnado uma parte minha
Uma perna, um braço, uma mão,

Escuto,

Longe,

A cidade estacionar-se

(LINHA, p.38)

Para que fazer unhas no salão mais caro
Se arranhas em mim os pesares,
As tardes, as frases,
Se deixas em mim um cheiro falso de esmalte?

(FAZENDO UNHAS NO SALÃO MAIS CARO, p. 29)

A poesia está em efervescência, não sucumbiu ao descaso do mercado editorial. Distintas experiências estéticas, variadas propostas e os mesmos objetivos: partilhar olhares transfiguradores do mundo, mergulhos no visível e no invisível, catarse e confirmação da existência. Seja qual for a proposta de cada poeta, vê-se que se mantém a necessidade de criar em versos, de renovar os cenários, de apostar nas velhas fórmulas, revisitá-las, dizê-las e desdizê-las. Num momento plural, de eliminação de fronteiras entre popular e erudito, sobrepõe-se o ecletismo e a desnecessidade de rótulos.

PARA SABER MAIS

ARISTÓTELES. Poética. Disponível em http://www.culturabrasil.pro.br/poetica/artepoetica_aristoteles.htm. Acesso em 10/4/2011
COHEN, J. Estrutura da linguagem poética. São Paulo, Cultrix: EDUSP, 1974.
GULLAR, Ferreira. Disponível em: http://www.dignow.org/post/poesia-1544510-42516.html. Acesso em 10/4/2011
QUEIROZ, Raquel. Serenata. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2010.
LINHARES FILHO, José. No limiar dos invernos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
MACIEL, Nilto. A Poética de Linhares Filho. Disponível em: http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/01/poetica-de-linhares-filho-nilto-maciel.html. Acesso em 11/4/2011
MARQUES, Rodrigo. O livro de Marta. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011.
MEIA-TIGELA, Poeta de. Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
NETO, João Cabral de. Um cão sem plumas. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994
PINHO, Barros. 70 poemas para orvalhar o outono. Fortaleza: Premius, 2010.
PLATÃO. A República. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/6077389/Platao-A-Republica. Acesso em 11/4/2011
TUFIC, Jorge. As baladas do poeta Barros Pinho. Disponível em: http://palavradofingidor.blogspot.com/2011/02/as-baladas-do-poeta-barros-pinho.html. Acesso em 11/4/2011

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