sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

As paixões de Shakespeare, segundo Teófilo Silva.


Teófilo Silva é cearense radicado em Brasília, leitor de Shakespeare desde a adolescência. Para compensar a aridez do Planalto, onde mora há duas décadas, criou a Sociedade Shakespeare de Brasília e passou a ministrar periódicas palestras sobre a obra do Bardo. Sua aguda visão crítica do panorama sócio-político brasileiro e seu apurado conhecimento da obra shakespeareana resultaram num livro intrigante e ousado: A paixão segundo Shakespeare (W Edições: Brasília, 2009, 368p.).

Advirto os incautos: não se trata de uma crítica do ponto de vista literário nem de mais um trabalho acadêmico acerca de Shakespeare. Teófilo mostra, em seus ensaios, as peças encenadas na realidade política e social do nosso país. Os fictícios personagens ganham rostos e nomes reais, e o cenário não é outro senão a terra brasilis, notadamente, Brasília, palco de corrupção e aberrações. Revoltado com as injustiças sociais, Teófilo, ácido observador do comportamento permissivo dos homens ‘graves’, trouxe à cena Hamlet, Horácio, Romeu, Julieta, Macbeth, Petrúquio, Catarina, Ájax, Tersites, Brutus, Otelo, Desdêmona, Ricardo, Ana, Lear, Cordélia, Falstaff, Rosalinda, Proteu, entre outros dos 1.200 personagens do teatrólogo inglês, para mostrar a perenidade e a atualidade deles. O Brasil é, hoje, um teatro medieval, a encenar práticas obscuras, tal como o fazia a Inglaterra elizabetana, que serviu de pano de fundo aos enredos do Bardo.

Teófilo mostra que a obra de Shakespeare é um conjunto (quase) uniforme, como a Bíblia, pois ela toda se volta para a comédia humana. Diz: “é como se ele tivesse a nítida convicção do que estava fazendo, desde o primeiro livro. Ele iluminou todos os recantos da alma humana em sua obra. É o homem diante da tarefa de viver, sobre os mais diversos papéis que ele desempenha na sua luta contra a morte, pelo seu desejo de vida e pelas imposições que ela provoca” (p.338). Ele cita, no decorrer dos ensaios, trechos de todas as 38 peças para ilustrar os ‘enredos’ da vida real. Criterioso, ele faz também uma análise sobre as traduções de Shakespeare para a Língua Portuguesa e fala do desafio de ler as peças no original. Critica muitas adaptações delas para o teatro, que mais parecem ‘puro entretenimento’, e não deixa de discutir as dificuldades enfrentadas pelos que se aventuram a fazer um bom trabalho.

Nos nove ensaios que compõem a obra, Teófilo mostra, com apuro estético e a simplicidade dos que têm consciência do uso da linguagem, a visão de Sheakespeare sobre as Paixões. Em “A Paixão segundo Shakespeare”, texto que dá título ao livro, ele discorre acerca dos leitores e admiradores do teatrólogo, situa-o no tempo e no espaço, apontando já a atemporalidade de sua criação. Em seguida, abre um capítulo intitulado “Paixão pelo homem”, onde enfoca aqueles que ele considera os mais fortes sentimentos humanos: ‘ Amor’ e o ‘Orgulho’, a que se seguem: “A paixão pela ordem” (O poder e A justiça), “A paixão pela vida” (A amizade), “A paixão por ele” (Freud X Shakespeare e Marx, leitor de Shakespeare), “O fim da paixão” (Entre a vida e a morte). Neste último, ele assinala que o tema da morte é bastante recorrente, fato até natural, já que quase duas dezenas das peças são tragédias, gênero predominante na época. A morte, na obra, segundo o autor de A paixão, representa o medo, o nada o absurdo, a revolta, a ironia, o desespero, a dor, a religiosidade, a transcendência e, ironicamente, a comicidade.

Corrupção, desonestidade intelectual, ciúme, maldade, ambição, sede de poder, complicadas relações entre pais e filhos, nada fugia à pena do Bardo. É ler “Rei Lear”, “Macbeth”, “Otelo”, “Os dois Fidalgos de Verona”, entre outras peças, ou ouvir Jaques, personagem da peça “Como Gostais”, quando diz “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”, para deslocar-se do século XVI para o nosso tempo. As marcas de comportamento traçadas por Shaskespeare, em seus personagens, são as mesmas marcas que se notam no homem contemporâneo, agravadas pela manipulação da mídia que impõe ‘modelos’ nocivos, ditaduras de beleza, faz apologia ao silicone, a tatuagens e desperta o espírito voyeur com programas do tipo Big Brothers da vida.
Teófilo interroga seu leitor: Por que devemos nós, brasileiros, ler Shakespeare? Responde, utilizando as palavras do Professor e crítico Harold Bloom: ‘Porque Shakespeare alarga a nossa mente, amplia a nossa capacidade de visão e existência, dando-nos uma dimensão de amplitude e profundidade’. Seus personagens saem de dentro das páginas dos livros e dos palcos para entrarem na vida, tornando-se imortais. Leitor/expectador e personagens conversam intimamente por meio da linguagem simples e da identificação que eles possibilitam.

O livro de Teófilo facilita o entendimento da obra de Shakespeare. Mais que isso: as interpretações ousadas, as associações dos enredos fictícios do século XVI às histórias reais encenadas no cenário brasileiro, lançam uma luz sobre a nossa realidade, e colocam à mostra as mazelas de uma sociedade perdida, cujos valores foram invertidos. É um grito de revolta com a política brasileira e seus mentores, assunto grave, mas tratado em grande estilo quando cotejado com a monumental obra de Sheakespeare. Difícil tratar de um assunto tão sério, de modo tão leve e sedutor como o autor o fez. Não foi à toa que Paulo Reis, no prefácio, a obra diz que ela é flamejante e dá uma bela contribuição para o aprimoramento civilizatório nacional. De fato, A paixão segundo Shakespeare é um tiro certeiro na mediocridade, “ uma verdadeira dádiva para todos os que querem um Brasil melhor”.


Apresentação do livro no lançamento em Fortaleza - Ideal Clube, 24/01/2010

7 comentários:

Will Theofilo disse...

Querida professora Aíla Sampaio, sua crítica enriquece meu livro. Você captou com muita sensibilidade muito daquilo que eu tentei dizer para o leitor. E isso em poucas palavras. excelente!

Margleice Pimenta disse...

Oi Aíla, parabéns pelos textos !!
Abraços!

almaviva disse...

Meu nome è Maria, sou italiana morando no Brasil. Com meu blog
http://ocaminhodafloresta.blogspot.com/
estou tentando de entender os simbolos e as tendencias do Brasil
atual.Seu blog me està ajudando muito. Obrigada!
Maria

almaviva disse...

Meu nome è Maria, sou italiana morando no Brasil. Com meu blog
http://ocaminhodafloresta.blogspot.com/
estou tentando de entender os simbolos e as tendencias do Brasil
atual.Seu blog me està ajudando muito. Obrigada!
Maria

Marcos disse...

Professora Aila,parabéns pelo seu espaço.Tá show.

Revista Literária disse...

Professora Aila,
Gostei muito de seus artigos e ensaios, gostaria de convidá-la para ser nossa colaboradora da revista Literacia.
Esperando um sim, agradeço, anamerij
[editora]

Ensaios - Aíla Sampaio disse...

Nome corrigido...obrigada pela contribuição!